Certas bandeiras têm histórias tão exitosas que ultrapassam fronteiras.
Tudo que eu disse sobre a bandeira da Romênia vale para a da Moldávia, pois neste caso a mesma tricolor não se deve a uma coincidência, como no caso de Andorra e do Chade, mas ao fato de os romenos e moldavos comungarem história, língua e cultura. Portanto, aqui cabe apontar os momentos de convergência e divergência que levaram à bandeira moldava hodierna.
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Bandeira da Moldávia. |
Em primeiro lugar, cumpre observar que a Moldávia é maior que a república desse nome. É que essa região foi partida três vezes: em 1775, a Áustria arrebatou a parte mais alta (Țara de Sus 'Terra de Cima'), desde então dita Bucovina; em 1812, a Rússia tomou o território entre os rios Nistru e Prut, desde então dito Bessarábia; em 1940, a União Soviética definiu as fronteiras atuais.
Em compensação, a Moldávia uniu-se à Valáquia em 1859, impondo-se o nome oficial de Principados Unidos Romenos e o comum de Romênia. Esse estado declarou a sua independência do Império Otomano em 1877 e elevou-se a reino em 1881. Tendo a Revolução de Fevereiro derrubado a monarquia russa, o Conselho Nacional (Sfatul Țării) declarou que a Bessarábia constituía a República Democrática da Moldávia em dezembro de 1917, a independência em fevereiro do mesmo ano e a união com a Romênia em abril de 1918, a qual os romenos denominam Marea Unire ('a Grande União'), pois abrangeu a Bucovina e a Transilvânia.
A reunificação da Moldávia durou até o dito ano de 1940, quando a Romênia evacuou a sua administração da Bessarábia e da Bucovina setentrional, obedecendo ao ultimato da União Soviética. Esta agia ao amparo dos protocolos secretos do chamado Pacto Molotov–Ribbentrop, pelo qual repartira o leste europeu com a Alemanha no ano antecedente. Uma comissão traçou, então, uma fronteira: no território onde os romenos somavam 75% da população ou mais, constituiu-se a República Socialista Soviética Moldava, inclusive além do Nistru; o resto do território foi anexado à República Socialista Soviética Ucraniana.
O regime socialista começou a ser desmontado pelas eleições ao Soviete Supremo em março de 1990, o qual renomeou o estado República da Moldávia e a si mesmo parlamento em maio de 1991, declarou a independência em agosto do mesmo ano e adotou nova constituição em 1994.
Portanto, os moldavos vivem há muito tempo entre duas forças antagônicas. De um lado, o nacionalismo romeno, que se desenvolveu com base na origem latina do idioma, ocidentalizando o país a partir de uma intensa francofilia. Do outro, o expansionismo russo nos Bálcãs, que sob a monarquia se justificava pela proteção dos cristãos ortodoxos no Império Otomano e sob o socialismo pela propagação da revolução.
Em especial, durante o período soviético houve uma russificação opressiva na República Socialista Soviética Moldava. Um dos seus vários aspectos era alienar os moldavos da identidade romena: a língua foi renomeada moldava e era escrita no alfabeto cirílico russo. O extremo desse processo está no território à margem esquerda do Nistru, onde outro aspecto dessa russificação — a migração de russos e ucranianos — propiciou a separação da República Moldava Nistreana (Pridnestrovskaja Moldavskaja Respublika em russo) dois dias antes da independência da República da Moldávia. A chamada Transnístria (ou Pridnestróvia) é sustentada pela Rússia, ainda que nem mesmo esta a reconheça.
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Bandeira militar da Moldávia (modelo de 1834; imagem disponível na Wikimedia Commons). |
Antes da união com a Valáquia e como a este principado, Mamude II concedeu um pavilhão mercante à Moldávia em 1834, a pedido do príncipe Miguel Sturdza. Este, no decreto pelo qual tornou público o ato do sultão, descreve uma "bandieră cu marca națională, adică, cap de bou cu stele, iar colorul, parte roșu și parte vânăt" ("bandeira com a marca nacional, isto é, uma cabeça de boi com estrelas, e a cor, em parte vermelha e em parte índigo"). Essa descrição não basta, porém, para determinar se refere à bandeira militar de que remanescem alguns exemplares ou ao pavilhão que Alexandre Le Gras dá no Album des pavillons, guidons, flammes de toutes les puissances maritimes (1858).
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Pavilhão mercante da Moldávia no Album des pavillons... (1858), de Alexandre Le Gras. (1) |
A bandeira militar era azul com o encontro de uro (capul de bour), encimado de uma estrela de oito raios, o todo encerrado numa capela de ramos de oliveira e encimado pela coroa principesca, e em cada ângulo um quadrado vermelho com uma estrela branca de oito raios. O reverso diferia: trazia a imagem de São Jorge e o monograma do príncipe em cada quadrado. O pavilhão também era azul com o encontro de uro, mas em vez dos quadrados, tinha um cantão vermelho e nele as estrelas, que somavam três.
É verdade que os regulamentos orgânicos, um outorgado pelo sultão e pelo tsar à Valáquia em 1831 e o outro à Moldávia no ano seguinte, estabeleceram bandeirolas de lança bicolores, amarela e azul para a milícia valaca e vermelha e azul para a moldava, e que depois se difundiria amplamente serem elas as bandeiras desses principados e a sua combinação, a origem da tricolor. Todavia, parece-me mais significativo que no edito de Mamude II se descreva a águia valaca como "pasăre albastră" ("pássaro azul") e nos exemplares remanescentes da bandeira militar moldava o encontro de uro apresente a cor amarela.
Tendo em conta que as estrelas sobre vermelho representavam incontestavelmente a suserania otomana, as três cores estavam presentes nas bandeiras de ambos os principados e, embora já compusessem a bandeira militar valaca na forma de faixas desde 1835, puderam, então, denotar a sua união a partir de 1861. Mais que isso: a tricolor tornou-se a bandeira do povo romeno, tanto na Romênia como na Rússia e sob a monarquia dos Habsburgos.
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Estandarte do Regimento de Infantaria n.º 1 da República Democrática Moldava (conservado em Muzeul Militar Național, Bucareste; imagem disponível no jornal Noi). |
Assim, durante a breve idade da República Democrática Moldava foram bandeiras azuis, amarelas e vermelhas que se agitaram, mas de faixas horizontais. E novamente depois do longo período socialista: em abril de 1990, o Soviete Supremo passou a lei que restaurou a tricolor, mas de faixas verticais, com as armas estatais no centro da amarela. A lei vigente sobre a forma e o uso da bandeira da Moldávia foi passada em 2010. Além da presença do brasão, diferencia-se da romena pelas tonalidades das cores e pela proporção de 1:2.
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Armas da Moldávia (imagem disponível no site da Presidência da República). |
Como na Romênia, as armas da República da Moldávia têm uma relação especial com a bandeira. O encontro de uro está atestado desde 1387, mas devido ao desenvolvimento tardio da heráldica na região, as reproduções em cores apresentam grande variação. Em 1921, o rei Fernando da Romênia o fixou de negro, com a estrela, a rosa e o crescente de ouro, em campo de vermelho. Em novembro de 1990, o Soviete Supremo da Moldávia o fixou de ouro, como a estrela, a rosa e o crescente, sobreposto a um campo cortado de vermelho e azul, ou seja, as mesmas cores da bandeira. Curiosamente, esse escudo repousa sobre o peito de uma águia semelhante à valaca, já que tem uma cruz no bico e um cetro na garra esquerda, mas é interpretada como uma águia romana.
(1) Segundo o autor, "la Moldavie n'a pas de marine de guerre. Ce pavillon est celui des quelques bâtiments de commerce armés au port de Galatz. Le pavillon des milices de la Moldavie est à deux bandes horizontales rouge et bleue (la rouge supérieure), avec la tête de bœuf dans un jack à fond blanc, auprès de la hampe, dans la partie supérieure du guindant" ("a Moldávia não tem marinha de guerra. Esse pavilhão é aquele de alguns barcos de comércio armados no porto de Galați. O pavilhão das milícias da Moldávia é de duas faixas horizontais vermelha e azul (a vermelha superior), com a cabeça de boi num jaque de fundo branco, junto à tralha, na parte superior da guinda").
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