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19/08/21

O CAMPO

O campo é a superfície que carrega a peça e a figura.

Qualquer superfície pode servir de campo a um brasão, contanto que esteja delimitada. Essa delimitação tem o nome de bordo. Não obstante, o escudo é o campo por antonomásia, de tal modo que se não há nada que valha por um, pode-se, de cara, afirmar que o emblema não é um brasão. Com efeito, um brasão pode ser constituído apenas de um escudo liso e, por isto, é o primeiro elemento que se brasona.

Algumas formas do escudo: amendoado (“normando”); pontas ogivais (“francês antigo”); ponta arredondada (“português”); cabeça de cavalo (“italiano”); lisonja; “francês moderno”; oval; redondo.
Algumas formas do escudo.

O que não se brasona é a forma do escudo, pois se trata de uma escolha artística. Tampouco há escudos "pátrios", isto é, "português" (de ponta arredondada), "francês" (antigo, de ponta ogival, ou moderno, de ponta aguçada), "italiano" (cabeça de cavalo) etc. Essa qualificação não passa de uma convenção prática para identificar a forma habitual do escudo em certo lugar e certo momento e sequer dá conta de que os gostos renascentista e barroco produziram várias formas muito caprichosas. Além disso, nem sempre a forma mais frequente em dado momento foi a tida por "própria" do lugar: em Portugal, durante os séculos XVIII e XIX, não era o escudo dito "português", mas o dito "francês moderno".

Os pontos do escudo: 1. cantão destro do chefe; 2. chefe; 3. cantão sinistro do chefe; 4. flanco destro; 5. centro, abismo ou coração; 6. flanco sinistro; 7. cantão destro da ponta; 8. ponta, contrachefe ou pé; 9. cantão sinistro da ponta; H. ponto de honra; U. umbigo.
Os pontos do escudo.

A superfície do campo divide-se em nove áreas. Essas áreas denominam-se pontos, são numeradas da esquerda para a direita e identificadas como se o cavaleiro estivesse detrás do escudo: o ponto 2 é o chefe (chef quer dizer 'cabeça' em francês antigo); o 4 e o 6, os flancos; o 5, o centro (ou abismo ou coração); o 8, a ponta (ou contrachefe ou pé); o 1, o 3, o 7 e o 9, os cantões. Adicionalmente, os flancos e cantões identificam-se pelos termos destro e sinistro, que equivalem respectivamente à esquerda e à direita do observador. Para indicar a situação de uma figura nos pontos 2, 4, 6 e 8, brasona-se respectivamente em chefe, à destra, à sinistra e em ponta.

10/02/21

DE QUE MODO SE HÃO DE TRAZER AS ARMAS EM VESTIMENTAS

A heráldica foi codificada num período em que a sociedade ocidental amava a alegoria: o brasão é uma alegoria do seu portador, tornando-o presente quando ausente.


Do Tractatus de insigniis et armis (1358), de Bártolo de Sassoferrato:

(28) Quandoque dixi quod ista arma portantur insuper vestibus hominis, et tunc illud quod in armis habet se ut pars superior debet esse versus caput hominis, et quod vero habet se ut inferior, versus pedes. Item in eo quod depingitur in anteriori parte hominis, ut in pectore, pars nobilior armæ debet respicere latus dextrum, cum illa sit nobilior pars hominis et principium motus, ut in præcedentibus dictum est.

(29) De eo vero quod depingitur ex parte posteriori hominis potest dubitari. Pro cujus declaratione præmitto unam quæstionem quæ fuit inter Judæos et me cum hebraicum addiscebam. Dicebant enim quod mos scribendi noster non erat rationalis, incipimus enim a latere sinistro scribere et protrahimus litteram versus latus dextrum, et sic illud quod debet esse principium motus est terminus, et illud quod debet esse terminus est principium. E converso autem modus scribendi eorum est rationabilis, quia incipiunt a latere dextro et vadunt ad sinistram.

Ad quod tollendum dicebam quod aliquid rationabiliter fieri dicitur respectu finis ad quem ordinatur. Et ideo finis dicitur primum in intellectu operantis, et naturaliter hæc vera sunt et probantur per leges. Nam si in intellectu operantis finis sit rationabilis et si postea non sequitur, dicitur rationabiliter operari (D, 3, 5, 9 [1]). Sed scriptura fit ut legatur; legi autem est oculis perspici (D, 28, 4, 1, 1 [2]), et sic legi fit per visum. Videre autem est pati, ut philosophi dicunt. Scriptura autem repræsentata in oculis nostris agit in oculos nostros; oculus autem pati dicitur quod patet quia ex hoc læditur. Cum ergo scriptura agat in oculos nostros, debet incipi ista actio a latere dextro ipsius scripturæ, quia illud latus est principium motus seu actionis. Sed latus dextrum scripturæ quæ nos respicit est respectu lateris sinistri. Nam sicut si unus homo volvat vultum suum versus meum directo, latus ejus dextrum est respectu mei sinistrum. Et sic apparet quod nos scribendo magis rationabiliter operamur: inspicimus enim finem, scilicet ut a latere dextro scriptura in nobis incipiat operari; secundum modum Judæorum incipimus a latere sinistro.

Ad propositum quæstionis qualiter arma debeant depingi rationabiliter a parte posteriori super vestes hominis dico quod illa pars armæ quæ se habet ut anterior vel ut nobilior debet esse versus latus sinistrum hominis portantis. Ratio: quia illa arma fit ut alius respiciens retro illud videat: facies ergo illius armæ est a parte posteriori.

Sed finge hominem habere unam faciem retro, procul dubio latus quod ante erat sinistrum ex parte posteriori erit dextrum. Vel pone aliquem velle scribere latinum in spathulis alicujus, sine dubio incipiet a parte sinistra, quia illa respectu litteræ in se erat dextra, ut supra ostensum est.

(28) Disse que às vezes se trazem essas armas sobre as vestimentas do homem, então o que nas armas se acha como parte superior deve ficar em direção à cabeça do homem, e o que se acha, porém, como inferior, em direção aos pés. Outrossim, no que se pinta na parte anterior do homem, como no peito, a parte mais nobre das armas deve voltar-se para o lado direito, já que é a parte mais nobre do homem e princípio do movimento, como se disse nos parágrafos precedentes.

(29) Porém do que se pinta pela parte posterior do homem se pode duvidar. Para o esclarecimento disto, adianto uma questão que houve entre mim e os judeus, quando aprendia hebraico. Com efeito, diziam que a nossa regra de escrita não era racional. Com efeito, começamos a escrever do lado esquerdo e traçamos a letra para o lado direito. Assim, o que deve ser o princípio do movimento é o término e o que deve ser o término é o princípio. Inversamente, o seu modo de escrever é razoável, porque começam do lado direito e vão em direção à esquerda.

Para demovê-los disso, eu dizia que se diz que algo se faz razoavelmente com respeito ao fim ao qual se dispõe. Por isso, o fim é chamado de primeira coisa na percepção de quem opera, o que é naturalmente verdadeiro e provado pelas leis, pois se o fim na percepção de quem opera for racional, mesmo que depois não se siga, diz-se que opera racionalmente (D, 3, 5, 9 [1]). Ora, a escrita é feita para ser lida e ler é observar com os olhos (D, 28, 4, 1, 1 [2]). Assim, a leitura é feita pela vista e ver é sofrer, como dizem os filósofos: a escrita representada nos nossos olhos age nos nossos olhos; diz-se que o olho sofre, o que é claro, porque se fere em virtude disso. Como a escrita age nos nossos olhos, deve-se, pois, começar essa ação pelo lado direito da própria escrita, porque esse lado é o princípio do movimento ou da ação. Mas o lado direito da escrita que se volta para nós é o lado esquerdo relativamente ao nosso, tal como se um homem volver o seu rosto diretamente para o meu, o seu lado direito será o esquerdo relativamente ao meu. Assim, é claro que nós operamos mais razoavelmente ao escrever. Com efeito, observamos o fim: é evidente que a escrita comece a operar em nós do lado direito; segundo o modo dos judeus, começamos do lado esquerdo.

Em face da questão proposta de que modo se devem razoavelmente pintar as armas sobre as vestimentas de um homem pela parte posterior digo que a parte das armas que se acha como anterior ou mais nobre deve ficar em direção ao lado esquerdo do homem que as traz. Razão: porque se fazem essas armas para que outro observador as veja atrás: a face das armas fica, pois, do lado posterior.

Ora, finja-se que um homem tem uma face para trás: longe de qualquer dúvida, o lado que antes era o esquerdo será pela parte posterior o direito. Ou, por exemplo, alguém quer escrever latim nas espáduas de alguém: sem dúvida, começará da esquerda, porque será a direita relativamente à letra em si, como se mostrou acima.

Notas:
[1] D, 3, 5, 9: Sed an ultro mihi tribuitur actio sumptuum quos feci? Et puto competere, nisi specialiter id actum est, ut neuter adversus alterum habeat actionem. [1] Is autem qui negotiorum gestorum agit non solum si effectum habuit negotium quod gessit, actione ista utetur, sed sufficit, si utiliter gessit, etsi effectum non habuit negotium (Mas, além disso, é-me atribuída a ação dos gastos que fiz? Penso que compete, a não ser que se tenha feito especialmente de modo que nenhum dos dois tenha ação contra o outro. [1] Aquele que intenta uma ação dos negócios administrados, use a ação não só se o negócio que administrou teve efeito, mas basta se o administrou validamente, mesmo que o negócio não tenha tido efeito).
[2] D, 28, 4, 1: Quæ in testamento legi possunt, ea inconsulto deleta et inducta nihilominus valent, consulto, non valent (O que se pode ler num testamento, apesar de apagado e rasurado sem intenção, vale; com intenção, não vale).

Comentário:

Homenagem de Eduardo I, rei da Inglaterra, a Filipe IV o Belo, rei da França, em 1286, iluminada por Jean Fouquet nas Grandes chroniques de France entre 1455 e 1460 (BnF, Fr. 6465, f. 301v).
Homenagem de Eduardo I, rei da Inglaterra, a Filipe IV o Belo, rei da França, em 1286, iluminada por Jean Fouquet nas Grandes chroniques de France entre 1455 e 1460 (BnF, Fr. 6465, f. 301v).

Essa imagem ilustra a homenagem que Eduardo I, rei da Inglaterra, prestou em 1286 como duque da Aquitânia a Filipe IV, recém-coroado rei da França. Note, caro leitor, que ambos vestem uma túnica armoriada. Hoje, é impensável imaginar Elizabeth II num vestido todo estampado com as armas reais britânicas. Na verdade, essa moda não passou da Idade Média. Contudo, pelos padrões atuais não é nada absurdo que alguém use, por exemplo, certa peça azul com bolinhas brancas. Ora, essa estampa é a mesma dos escudetes das armas primitivas do rei português. Que se brasonem "de azul besantados de prata" é só particularidade da linguagem heráldica. Isso nos leva a uma hipótese que vem sendo levantada pelos estudiosos desde Charles du Fresne du Cange (1610-1688): a influência dos tecidos na origem da heráldica. Com efeito, é perfeitamente possível que as partições, peças e repartições de que tratei na postagem de 04/02 tenham sido tomadas de tecidos ornados com padrões geométricos, como ainda se pratica. Michel Pastoureau, num artigo anterior (1976) ao seu famoso Traité d'héraldique, já razoava:

Il semble bien que ce soient les bannières — et d'une manière plus générale les étoffes  qui aient joué le rôle le plus important, tant pour ce qui est des couleurs et des figures que pour ce qui est de leur emploi technique (règles) et de leur terminologie. Il est frappant de constater combien sont nombreux les termes de blason empruntés au vocabulaire des tissus : certainement plus de moitié des termes d'un usage courant au Moyen Age. (1)

Talvez as provas mais transcendentes de que o vestuário foi um suporte prestigioso do brasão sejam duas de natureza linguística, uma delas na nossa língua: na nobreza portuguesa o grau mais baixo ou, dito de outro modo, aquele com que o rei tirava um vassalo do número dos plebeus, era o fidalgo de cota de armas. A outra é que, por metonímia, essa mesma sobreveste passou a designar em inglês o próprio brasão: coat of arms. Era uma espécie de camisão, comprido até a metade das coxas, de mangas curtas ou sem mangas.

Fólio 1r das Chroniques de Jean Froissart (Koninklijke Bibliotheek, 72 A 25, c. 141o). Nas iluminuras veem-se várias sobrevestes armoriadas: a túnica (?) de Filipe VI, rei da França, e o tabardo do arauto inglês, ajoelhado diante daquele; as cotas de Afonso XI, rei de Castela, e Eduardo III, rei da Inglaterra.
Fólio 1r das Chroniques de Jean Froissart (Koninklijke Bibliotheek, 72 A 25, c. 141o). Nas iluminuras veem-se várias sobrevestes armoriadas: a túnica (?) de Filipe VI, rei da França, e o tabardo do arauto inglês, ajoelhado diante daquele; as cotas de Afonso XI, rei de Castela, e Eduardo III, rei da Inglaterra.

Depois, há uma maneira mais simples de ensinar a diferença entre a destra e a sinistra do brasão e a direita e a esquerda do observador do que evocar a escrita hebraica. Se não, vejamos:

Selo equestre de Dom Dinis (1318).
Selo equestre de Dom Dinis (1318).

Essa moldagem reproduz o selo equestre do rei Dom Dinis, impresso num documento de 1318, guardado nos Archives nationales de France, segundo Maria do Rosário Morujão em artigo de 2018. Para entender por que em heráldica se brasonam os lados ao contrário da observação, basta conceber um cavaleiro detrás do escudo, tal como se vê nesse selo: a sua direita é a destra do brasão e a sua esquerda, a sinistra (2). Mais que isso: essa concepção esclarece por que os pontos do escudo recebem nomes de partes do corpo humano: chefe (do francês chef e este do latim caput,capitis 'cabeça', que deu cabo em português), flanco, coração, (3), como expus na postagem de 31/01, aos quais agora acrescento o ponto de honra e o umbigo, respectivamente entre 2 e 5 e este e 8.

Pontos do escudo.
Pontos do escudo.

Observe, prezado leitor, que pela própria nomenclatura os pontos 2, 4, 5, 6 e 8 supõe uma pessoa detrás do escudo. Como resume Laurent Hablot num artigo de 2013:

L'effet produit par ces codes sémiologiques est donc bien de faire de l'écu armorié la figura de son titulaire. Ce principe, actif dès les origines du blason, va véritablement conditionner les pratiques héraldiques médiévales dans et hors de l'écu, dans la structure même du dessin, dans la hiérarchisation du contenu, dans la mise en scène des armoiries, dans la portée symbolique du bouclier armorié. (5)

Seja como for, a comparação com a escrita tem a sua utilidade. Mas antes de seguir, dois parênteses. O primeiro é que Cavallar et alii também duvidam de que Bártolo tenha aprendido hebraico, sob o argumento de que isso não está demonstrado alhures. Ora, o fato de ter dito addiscebam no De insigniis et armis não implica em que fosse fluente. Um estudo básico dessa língua para um intelectual do talhe do professor de Perúsia é perfeitamente plausível. Não à toa Cignoni chega a protestar contra esses editores, que parecem ter guiado a sua crítica por uma animosidade deliberada em face do próprio autor (sobre tudo isto, leiam-se as postagens de 25/01, 11/01 e 07/01). O segundo é que, reconhecido o esforço filosófico do doutor de Sassoferrato, seja da direita para a esquerda ou o inverso, ou, ainda, de cima para baixo, não há modos mais razoáveis de escrita. São diferenças meramente culturais (4).

Sequência dos elementos nas armas do marquês de Vila Real: esquartelado, no primeiro e quarto, de prata [1] com cinco escudetes de azul em cruz [2], carregados de cinco besantes de prata [3]; bordadura de vermelho [4], carregada de sete castelos de ouro [5]; brocante sobre tudo, um filete de negro em banda [6]; no segundo e terceiro de vermelho [7] com um castelo de ouro [8]; mantelado de prata [9] com dois leões batalhantes de púrpura, armados e lampassados de vermelho [10]; bordadura composta de ouro [11] e veiros [12], de dezoito peças; sobre o todo, partido de dois traços e cortado de um: o primeiro de azul [13] com um estoque de prata, empunhado de ouro [14]; o segundo, quarto e sexto de ouro [15] com quatro palas de vermelho [16] o terceiro e quinto de ouro [17] com dois lobos passantes de púrpura, um sobre o outro [18]; sobre o todo do todo, de ouro liso [19].
Sequência dos elementos nas armas do marquês de Vila Real: esquartelado, no primeiro e quarto, de prata [1] com cinco escudetes de azul em cruz [2], carregados de cinco besantes de prata [3], e uma bordadura de vermelho [4], carregada de sete castelos de ouro [5]; brocante sobre tudo, um filete de negro em banda [6]; no segundo e terceiro de vermelho [7] com um castelo de ouro [8]; mantelado de prata [9] com dois leões batalhantes de púrpura, armados e lampassados de vermelho [10]; bordadura composta de ouro [11] e veiros [12], de dezoito peças; sobre o todo, partido de dois traços e cortado de um: o primeiro de azul [13] com um estoque de prata, empunhado de ouro [14]; o segundo, quarto e sexto de ouro [15] com quatro palas de vermelho [16] o terceiro e quinto de ouro [17] com dois lobos passantes de púrpura, um sobre o outro [18]; sobre o todo do todo, de ouro liso [19].

Continuando, o brasão é, como eu já disse, um texto multimodal: visual e verbal. Como tal, supõe leitura e esta, à sua vez, comporta uma ordem de decodificação: no alfabeto latino escreve-se e lê-se da esquerda para a direita a partir do alto e na heráldica ordenam-se as armas no mesmo sentido, ainda que a destra preceda para a figura que tem uma dianteira e uma traseira visíveis. Não obstante, há uma diferença: a escrita corre simplesmente de um lado para outro, enquanto o brasão é formado por elementos sobrepostos, daí que a essa ordem anteceda, na verdade, outra, que parte do fundo para a superfície. As armas do marquês de Vila Real, que dei na postagem de 04/02 e volto a dar aqui, podem exemplificar bem isso: repare, prezado leitor, como os números se sucedem nas duas direções apontadas.

Notas:
(1) "Parece justamente que sejam as bandeiras — e de um modo mais geral os tecidos — que tenham desempenhado o papel mais importante, tanto no que diz respeito às cores e às figuras como no que diz respeito ao seu emprego técnico (regras) e à sua terminologia. É surpreendente constatar o quão numerosos são os termos de armaria emprestados do vocabulário dos tecidos: certamente mais da metade dos termos de uso corrente na Idade Média." (tradução minha)
(2) Na ortografia vigente da língua portuguesa, destra escreve-se com s. Com efeito, é o feminino substantivado de destro, do latim dexter, dextra, dextrum. Como é um vocábulo vernáculo, isto é, transmitido por meio do latim vulgar, o normal é que se escreva com s, ao passo que os cultismos, isto é, vocábulos tomados ao latim literário, se escrevem com a letra original, como o prefixo dextro-. O mesmo se aplica, por exemplo, a estender, do latim extendere, e extensão, de extensio,extensionis. Além disso, o português também tem a continuação vernácula do latim sinister, sinistra, sinistrum: é sestro, sestra, mas essa palavra está praticamente em desuso.
(3) Ponta é mais usual que , exceto na expressão pé ondado. No francês medieval, a analogia era perfeita: chief × pié, ou seja, 'cabeça' × 'pé', mas se perdeu no francês moderno devido à substituição de pié por pointe.
(4) Os textos remanescentes mais antigos na própria língua latina demonstram que primitivamente os romanos não só também escreveram da direita para a esquerda, mas ainda em ambas as direções, modo conhecido como bustrofédon: começava-se numa direção e ao fim da linha seguia-se abaixo na direção contrária.
(5) "O efeito produzido por esses códigos semiológicos é, pois, fazer justamente do escudo armoriado a figura do seu titular. Esse princípio, ativo desde as origens da armaria, vai verdadeiramente condicionar as práticas heráldicas medievais dentro e fora do escudo, na própria estrutura do desenho, na hierarquização do conteúdo, na realização do brasão, no porte simbólico do escudo armoriado." (tradução minha)

04/02/21

O QUE REPRESENTAM AS ARMAS QUE ALTERNAM DUAS CORES

A linguagem heráldica foi desenvolvida para descrever com técnica e objetividade desde os brasões mais singelos até os compostos mais complexos.


Do Tractatus de insigniis et armis (1358), de Bártolo de Sassoferrato:

(23) Circa secundum vero, quando arma sunt quædam signa simplicia, ut varietates quorumdam colorum, tunc hic est advertendum qualiter debeant portari. Et præmitto quod nobilior res debet præferri et in nobiliori loco poni (C, 1, 28, 1 [1]; C, 1, 40, 5 [2]; C, 12, 3, 1 [3]). Item præmitto quod locus prior et superior est nobilior inferiori et posteriori, ut dictis legibus et D, 50, 3, [4].

His præmissis, dico quod quandoque arma variantur per media, ut quia quis pro arma portat banderiam duorum colorum, et tunc aut dividitur per medium ut supra et subtus, aut per medium ut ante et post. Et in istis casibus in dubio nobilior color debet esse supra et in ea parte quæ respicit cælum, vel ante, id est, in ea parte quæ respicit hastam. Si vero variatur per quarteria, tunc nobilior color debet esse in quarterio superiori et anteriori, id est, prope hastam. Si vero variatur per listas directas, tunc lista coloris nobilioris debet esse prope hastam; si vero variatur per listas transversas, tunc lista coloris nobilioris debet esse prima versus cælum. Si vero sunt listæ vel bandæ pendentes, tunc cum hasta habeat se tamquam pars anterior in banderia, et ideo pars magis elevata debet respicere hastam. Ista omnia probantur ex præsuppositione.

(23) Acerca do segundo ponto, note-se que quando as armas são certos sinais simples, como alternâncias de certas cores, cabe, então, mostrar de que modo se devem trazer. Adianto que deve preferir-se a mais nobre e pôr-se no lugar mais nobre (C, 1, 28, 1 [1]; C, 1, 40, 5 [2]; C, 12, 3, 1 [3]). Outrossim, adianto que o lugar mais adiante e acima é mais nobre que o mais atrás e abaixo, como nas citadas leis e em D, 50, 3, 1 [4].

Adiantado isso, digo que às vezes as armas alternam duas cores, por exemplo porque alguém traz uma bandeira de duas cores, então se divide ao meio acima e abaixo ou ao meio adiante e atrás. Nesses casos, fica-se em dúvida se a cor mais nobre deve estar acima, isto é, na parte que se volta para o céu, ou adiante, isto é, na parte que se volta para a haste. Porém se alterna quatro cores, então a mais nobre deve ficar no quartel superior e anterior, isto é, perto da haste. Porém se alterna listras verticais, a listra da cor mais nobre deve ficar perto da hasta; se, porém, alterna listras horizontais, então a listra da cor mais nobre deve ficar primeiramente em direção ao céu. Porém, se as listras ou bandas são diagonais, então com a haste se acha como que a parte anterior na bandeira; por isso, a parte mais elevada deve voltar-se para a haste. Comprova-se tudo isto a partir do já posto.

Notas:
[1] C, 1, 28, 1: Studentibus nobis statum Urbis et annonarum rationem aliquando firmare in animo subiit ejusdem annonæ curam non omnibus deferre potestatibus. [...] tueantur civilem annonam sitque societas muneris ita, ut inferior gradus meritum superioris agnoscat atque ita superior potestas se exserat, ut sciat ex ipso nomine, quid præfecto debeatur annonæ (Almejando nós assegurar de vez o estado da Cidade e o abastecimento, ocorreu-nos não outorgar a administração de tal abastecimento a todas as autoridades. [...] protejam o abastecimento civil e que haja uma comunidade de encargo, de tal modo que o grau inferior reconheça o mérito do superior e a autoridade superior se porte de modo que saiba, por seu próprio nome, o que se deve ao prefeito do abastecimento).
[2] C, 1, 40, 5: Potioris gradus judicibus ab inferioribus competens reverentia tribuatur (Seja dado pelos juízes inferiores o devido respeito aos de grau superior).
[3] C, 12, 3, 1: Quis enim in uno eodemque genere dignitatis prior esse debuerat, nisi qui prior meruit dignitatem? Cum posterior, et si ejusdem honoris prætendat auspicia, cedere tamen illius temporis consuli debeat, quo ipse non fuerit (Com efeito, quem deveria ser o primeiro num e mesmo gênero de dignidade, senão quem primeiro mereceu a dignidade? Pois o posterior, mesmo se pretender os auspícios da mesma honra, deve, no entanto, ceder ao cônsul daquele tempo quando ele mesmo não o era).
[4] D, 50, 3, 2: In albo decurionum in municipio nomina ante scribi oportet eorum, qui dignitates principis judicio consecuti sunt, postea eorum, qui tantum municipalibus honoribus functi sunt (No álbum dos decuriões no município cumpre que se escrevam antes os nomes daqueles que alcançaram as suas dignidades por decisão do príncipe, depois os daqueles que exerceram somente cargos municipais).

Comentário:

Nessa parte do tratado, Bártolo acerta, por um lado, ao descrever um uso que se pratica na heráldica até hoje, mas, por outro, reflete o pensamento do seu tempo sobre um aspecto que não se vê mais da mesma perspectiva. O uso ainda vigente é a convenção de que no escudo ou campo o alto e a destra precedem em honra, embora haja aí outros lugares igualmente honrosos. Em particular, a heráldica portuguesa dispõe de um brasão que ilustra tudo isto: o do marquês de Vila Real.

Armas do marquês de Vila Real: esquartelado, no primeiro e quarto, as armas do reino e, por diferença, um filete de negro em banda; no segundo e terceiro de vermelho com um castelo de ouro; mantelado de prata com dois leões batalhantes de púrpura, armados e lampassados de vermelho; bordadura composta de ouro e veiros, de dezoito peças; sobre o todo, partido de dois traços e cortado de um: o primeiro de azul com um estoque de prata, empunhado de ouro; o segundo, quarto e sexto de ouro com quatro palas de vermelho; o terceiro e quinto de ouro com dois lobos passantes de púrpura, um sobre o outro; sobre o todo do todo, de ouro liso.
Armas do marquês de Vila Real: esquartelado, no primeiro e quarto, as armas do Reino e, por diferença, um filete de negro em banda; no segundo e terceiro de vermelho com um castelo de ouro; mantelado de prata com dois leões batalhantes de púrpura, armados e lampassados de vermelho; bordadura composta de ouro e veiros, de dezoito peças; sobre o todo, partido de dois traços e cortado de um: o primeiro de azul com um estoque de prata, empunhado de ouroo segundo, quarto e sexto de ouro com quatro palas de vermelho; o terceiro e quinto de ouro com dois lobos passantes de púrpura, um sobre o outro; sobre o todo do todo, de ouro liso.

Como se percebe, essas armas compõem-se de três brasões, dois dos quais estão, à sua vez, compostos de outras armas. O que fica sobre o todo do todo é o mais antigo: de ouro liso são as armas dos Meneses. Pedro de Meneses (c. 1370-1437), o fundador da Casa de Vila Real, era neto de João Afonso Telo de Meneses (m. 1381), primeiro conde de Ourém, que trazia as armas da sua linhagem. Presumivelmente, o filho homônimo deste (c. 1330-1384), primeiro conde de Viana do Alentejo, sobrepôs as armas paternas às de duas linhagens femininas, Vila Lobos e Lima, respectivamente da avó materna e da bisavó paterna, esta pela linha varonil, as quais armas foram ordenadas num partido de dois traços e cortado de um: o primeiro, terceiro e quinto de ouro com dois lobos passantes de púrpura, um sobre o outro; o segundo, quarto e sexto de ouro com quatro palas de vermelho (1). Depois, o dito Pedro de Meneses, primeiro conde de Vila Real, por ser o capitão e governador da recém-conquistada cidade de Ceuta, trocou o primeiro quartel por um campo de azul com um estoque de prata, empunhado de ouro. Contudo, não teve herdeiro varão; instituiu, então, um morgadio para perpetuar o seu sobrenome e as suas armas na geração de sua filha, Dona Brites (ou Beatriz), que casou com Fernando de Noronha. Daí que os condes pósteros, marqueses desde 1489, se tenham chamado de Meneses e sobreposto as armas de Dom Pedro às dos Noronhas. Estas consistiam num esquartelado: no primeiro e quarto, as armas do Reino e, por diferença, um filete de negro em banda; no segundo e terceiro de vermelho com um castelo de ouro; mantelado de prata com dois leões batalhantes de púrpura, armados e lampassados de vermelho; bordadura composta de ouro e veiros, de dezoito peças. Tanto o pai como a mãe de Dom Fernando eram de ascendência régia: Afonso de Castela, conde de Gijón e Noreña, filho natural de Henrique II de Castela, e Isabel de Portugal, filha natural de Dom Fernando I. O leitor perspicaz terá captado aí as armas reais portuguesas, diferençadas pelo clássico filete de negro (tratei dele na postagem de 21/01), e as castelhano-leonesas, pelo mantelado e pela bordadura.

Enfim, em todo esse conjunto observa-se o preceituado por Bártolo: o primeiro quartel, precisamente no alto e à destra, é o lugar mais nobre: nas armas dos Noronhas, é o ocupado pelas do Reino; nas armas de Pedro de Meneses, o ocupado pela capitania de Ceuta. Não obstante, o lugar de honra para a linhagem da casa é o centro, daí que essas últimas armas fiquem sobre o todo e, nelas mesmas, as dos Meneses. Isto sem falar do chamado ponto de honra, que fica entre os pontos 2 e 5 do escudo (leia-se a postagem de 31/01) e já foi exemplificado neste blog pelo brasão de Vasco da Gama (na postagem de 11/01).

Agora o aspecto que mostra uma visão bem tardo-medieval, mas hoje não se leva a sério: é dispensável o cuidado em fazer preceder a cor mais nobre, porque não há cores mais nobres que outras. Na verdade, acho que isso nunca foi nem mesmo praticado, por mais que o humanismo tenha valorizado as alegorias e estas tenham permanecido vigorosas por muito tempo na heráldica. De todo modo, o professor de Perúsia, meio sem jeito, por lhe faltar a nomenclatura latina  a qual foi forjada em francês , trata pela primeira vez do desenho das partições, peças e repartições. Efetivamente, o traçado pode correr na vertical, na horizontal ou na diagonal. Comecemos pelas partições do escudo ou campo.

Partições do escudo ou campo.
Partições do escudo ou campo.

A divisão pelo traço vertical denomina-se partido; pelo traço horizontal, cortado; pelo diagonal da destra à sinistra, fendido; pelo diagonal da sinistra à destra, talhado; pelo cruzamento do vertical e do horizontal, esquartelado; pelo das duas diagonais, franchado; por esses dois cruzamentos, gironado.

Peças correspondentes às partições.
Peças correspondentes às partições.

Observe, caro leitor, que a cada traçado corresponde uma peça. A diferença é que a partição cria como que dois ou mais campos, que ao brasonar, se enumeram, ao passo que a peça é um componente que o escudo ou campo carrega. Assim, a peça correspondente ao partido denomina-se pala; ao cortado, faixa; ao fendido, banda; ao talhado, barra; ao esquartelado, cruz; ao franchado, aspa.

Peças correspondentes às partições em número.
Peças correspondentes às partições em número.

Especificamente, as peças que Bártolo chama de listras podem variar de número, cuidando-se sempre de lhes dar a mesma largura ou altura, bem como igual espaço entre elas e os bordos livres do escudo. Mas há aqui um preciosismo da linguagem heráldica: de cinco em diante, mudam-se os nomes: a pala passa a denominar-se vergueta; a faixa, burela; a banda, cotica; a barra, travessa. Do ponto de vista formal, não há diferença alguma, mas a língua do brasão tem lá os seus floreios.

Repartições do campo.
Repartições do campo.

Formalmente, o que, sim, difere é a repartição do campo. Neste caso, tem-se uma espécie de padrão de dois esmaltes que começa com o primeiro e acaba com o segundo, portanto sempre em número par de peças. Os seus nomes são formados pelo particípio passado a partir dos nomes das peças correspondentes. Assim, da pala, palado; da faixa, faixado; da banda, bandado; da barra, barrado; da vergueta, verguetado; da burela, burelado; da cotica, coticado; porém da travessa, coticado em barra.

Para acabar, cabe advertir que há outras peças e possibilidades, mas por enquanto, para comentar o Tractatus, bastam essas.

Nota:
(1) Segundo argui Anselmo Braamcamp Freire em Brasões da Sala de Sintra (1921). Note-se, ainda, que os Meneses de Portugal se cindiram pela primeira vez na geração de Afonso Martins Telo: do seu primogênito e homônimo descendem os Meneses da Casa de Marialva e do secundogênito, o dito João Afonso Telo, os Meneses da Casa de Vila Real. Similarmente ao ramo de Vila Real, o de Marialva (o seu primeiro título foi o condado de Neiva) ordenou as suas armas sobrepondo o escudete de ouro liso dos Meneses às armas da linha feminina, neste caso as dos Albuquerques, que também são um esquartelado das armas do Reino, estas diferençadas por um filete de negro em barra, no primeiro e quarto, e o segundo e terceiro de vermelho com cinco flores de lis de ouro. Depois houve alterações que alongariam em demasia esta nota.

31/01/21

O PÉ DIREITO DEVE SEMPRE PRECEDER

Brasões e bandeiras estiveram mais intimamente ligados nas origens da heráldica do que comumente se pensa.


Do Tractatus de insigniis et armis (1358), de Bártolo de Sassoferrato:

(19) Circa pedes advertendum est quod semper is qui antecedit sit pes dexter, quia, ut in præcedenti membro dictum est, pars dextra est principium motus; alias significaret talem figuram scævam esse, quod in vitium sonat (D, 21, 1, 12, 3 [1]). Sed hic occurrit dubium: quia si in vexillo figuratur ab una parte tamquam pes dexter præcedat, ab alia parte videbitur pes sinister præcedere. Hæc autem incongruitas magis visibiliter apparet in his qui pro sua arma aliquam litteram vel litteras portant. Nam ab una parte sunt litteræ rectæ, ab alia communiter non est forma litterarum, quod apparet si quis chartam scriptam a converso latere inspiciat.

(20) Sed dicendum est, sicut in litteris inspicitur illa pars quæ respicit scribentem, non pars conversa, ita in vexillo inspicitur pars quæ respicit portantem, non alia; quod enim ex alia parte est, non ex principali proposito contingit, sed per accidens, sicut cum quis se in speculo inspicit, quod enim in se dextrum est in speculo sinistrum apparebit. Et prædicta vera in vexillis quæ portantur in hasta, cujus recta natura est ut elevata et recta portetur (D, 8, 3, 7 [2]).

(19) Acerca dos pés, cumpre advertir que o pé que sempre precede é o pé direito, porque, como se disse na seção antecedente, a parte direita é o princípio do movimento; de outro modo significaria que tal figura é canhota, o que soa como defeito (D, 21, 1, 12, 3 [1]). Mas aqui ocorre uma dúvida, porque se por um lado na bandeira se figura de tal modo que o pé direito preceda, de outro ver-se-á que precede o pé esquerdo. Essa incongruência aparece mais evidentemente naqueles que trazem por armas suas alguma letra ou letras, pois de um lado ficam as letras direitas; do outro, em geral, não é a forma das letras, tal como aparece se alguém olhar pelo lado avesso um papel escrito.

(20) Mas cabe dizer que, assim como numa carta se olha o lado que se volta para o escritor, não o lado avesso, numa bandeira observa-se a parte que se volta para quem a traz, não outra. Com efeito, o que há do outro lado não advém do propósito principal, mas por acaso, tal como se alguém se olhar no espelho: com efeito, o que em si está direito no espelho aparecerá esquerdo. E o já dito é verdadeiro quanto às bandeiras que se trazem numa haste, da qual é próprio estar em pé, para ser trazida erguida e direita (D, 8, 3, 7 [2]).

Notas:
[1] D, 21, 1, 12, 3: Item sciendum est scævam non esse morbosum vel vitiosum, præterquam si imbecillitate dextræ validius sinistra utitur: sed hunc non scævam, sed mancum esse (Outrossim, deve-se saber que um canhoto não é doente ou vicioso, exceto se pela deficiência da direita usa mais fortemente a esquerda, mas que este não é canhoto, mas maneta).
[2] D, 8, 3, 7: Qui sella aut lectica vehitur, ire, non agere dicitur: jumentum vero ducere non potest, qui iter tantum habet. Qui actum habet, et plaustrum ducere et jumenta agere potest. Sed trahendi lapidem aut tignum neutri eorum jus est: quidam nec hastam rectam ei ferre licere, quia neque eundi neque agendi gratia id faceret et possent fructus eo modo lædi. Qui viam habent, eundi agendique jus habent: plerique et trahendi quoque et rectam hastam referendi, si modo fructus non lædat (Diz-se que quem é transportado numa cadeira ou liteira vai, não faz ir. Não obstante, quem tem apenas a viagem não pode conduzir um animal de carga. Quem tem a habilitação pode conduzir tanto uma carroça como um animal de carga, mas nenhum dos dois tem o direito de puxar pedra e materiais de construção. Alguns pensam que sequer lhe seja permitido levar uma haste reta, porque não o faria por mor de ir nem de fazer ir e desse modo as frutas poderiam danificar-se. Quem tem o caminho tem o direito de ir e fazer ir, e vários pensam que, ademais, tanto o de puxar como o de trazer uma haste reta, contanto que não danifique as frutas).

Comentário:

Ao longo da história da heráldica, difundiram-se maiormente duas explicações sobre as suas origens: uma mítica e a outra acadêmica. A mítica é que os brasões foram criados na Antiguidade clássica, por Alexandre o Grande ou Júlio César. Foi elaborada e divulgada pelos arautos durante o século XV com o intuito de dignificar o seu mister. A acadêmica é que os brasões foram criados na baixa Idade Média pela cavalaria: cada cavaleiro pintava sobre o seu escudo certos sinais, que o identificavam no campo de batalha. Essa teoria foi adotada por Michel Pastoureau, historiador francês e uma das maiores autoridades nos estudos heráldicos desde a década de setenta. Talvez por causa do seu prestígio, só recentemente estudiosos têm reanalisado os dados da heráldica primitiva e aventado hipóteses novas.

Com efeito, Laurent Hablot, em artigo de 2012, enumera algumas debilidades da teoria do escudo armoriado:

  • só se divisa bem uma insígnia sobre um escudo quando este se vê de frente, o que fica agravado pela sua curvatura;
  • como arma defensiva, o escudo estava sujeito a constantes desgastes, causados por armas ofensivas, pelo derramamento de sangue e pelos elementos naturais, ou mesmo à perda no meio da batalha;
  • ainda que se superassem essas dificuldades, num embate que opusesse algumas dezenas de guerreiros, como um simples peão conseguia aprender tantos brasões e evitar o fatal erro de atacar alguém do seu próprio lado?

Ora, se o escudo comportava tantos inconvenientes, qual foi o campo ou superfície original do brasão? Precisamente o que Bártolo privilegia no seu tratado: a bandeira! Efetivamente, Hablot, no mesmo trabalho, coloca que "l'analyse des sceaux des grands feudataires dans le courant du XIIe siècle montre ainsi clairement la progressive substitution de l'écu armorié à l'enseigne vexillaire de typo gonfanon qui jusqu'alors caractérise l'autorité militaire à l'échelle du comté" (1).

Selo de Raul I, conde de Vermandois. Imagem disponível na base Sigilla.
Selo de Raul I, conde de Vermandois. Imagem disponível na base Sigilla.

Jean-François Nieus, em artigo de 2017, refina essa pesquisa. Começa por ressalvar que o selo não era o suporte mais idôneo para o brasão, pela sua pequenez e reprodução monocromática, mas é o que melhor nos veiculou o que nele observamos, já que a maioria das reproduções noutros suportes se perdeu. Depois, afirma que o selo mais antigo em que se observa um brasão é o de Raul I de Vermandois, mencionado em 1110 e impresso em 1126. Consiste num cavaleiro que segura com a mão direita uma lança ornada de um gonfalão xadrezado e com a esquerda, as rédeas e o seu escudo. Xadrezado de ouro e azul serão, com efeito, as armas dos condes de Vermandois. Mais que isso, o autor propõe que a própria região do Vermandois e a sua vizinhança são o foyer, ou seja, o lugar de origem da heráldica:

Tout bien pesé, il me parait raisonnable de tirer la leçon des données sigillographiques et d'admettre qu'un groupe de grands barons septentrionaux a lancé une mode, relayée assez vite, dès les années 1140, par certaines grandes figures du Midi. Sur le plan sigillaire toujours, les indices vont nettement dans le sens d'une exportation des concepts emblématiques du monde normand vers le sud. (2)

Na postagem anterior, comentando sobre o chamado brasão do Ceará, eu disse que em heráldica não há quadrantes, mas quartéis, que são uma partição do campo, e que para localizar peças ou figuras num campo inteiro, faz-se referência a nove pontos convencionais. Embora os escudos costumem ser um pouco mais altos do que largos, esses pontos são traçados como se o campo fosse quadrado, ou melhor, precisamente como se fosse uma bandeira quadrada.

Pontos do escudo.
Pontos do escudo.

Assim, os pontos 1, 3, 7 e 9 são os cantões do escudo; 2, o chefe; 4 e 6, os flancos; 5, o centro, abismo ou coração; 8, a ponta,  ou contrachefe. Além disso, 1, 4 e 7 são a destra e 3, 6 e 9, a sinistra. Portanto, de uma figura que estiver, por exemplo, no ponto 1 dir-se-á, ao brasonar, que está no cantão destro do chefe; do mesmo modo, de qualquer outra nalgum ponto diferente. Funciona exatamente como Bártolo ensina: mais propriamente que um escudo, há de se imaginar que esse quadrado seja uma bandeira e que à destra fique a haste.

Notas:
(1) "A análise dos selos dos grandes feudatários no decurso do século XII mostra, assim, claramente a progressiva substituição pelo escudo armoriado da insígnia vexilar do tipo gonfalão, que até então caracteriza a autoridade militar ao nível do condado." (tradução minha)
(2) "Tudo bem pesado, parece-me razoável tirar a lição dos dados sigilográficos e admitir que um grupo de grandes barões setentrionais lançou uma moda, revezada bastante cedo, desde os anos 1140, por certas grandes figuras do Sul. Sempre no plano sigilar, os indícios vão claramente no sentido de uma exportação dos conceitos emblemáticos do mundo normando em direção ao sul." (tradução minha)