05/07/22

AS QUINTILHAS HERÁLDICAS DE SÁ DE MENESES (X)

Armas dos Pinas, Brandões, Cotrins e epílogo.

De João Rodríguez de Sá, decrarando alguns escudos d'armas dalgũas linhagens de Portugal que sabia donde vinham.

Armas dos Pinas: De vermelho com uma banda de ouro, carregada de um leopardo de azul, posto no sentido da banda, entre dois pinheiros de verde, frutados de ouro e arrancados de prata.
Armas dos Pinas: De vermelho com uma banda de ouro, carregada de um leopardo de azul, posto no sentido da banda, entre dois pinheiros de verde, frutados de ouro e arrancados de prata.

Pina

Em campo vermelho estão
dous mui floridos pinheiros
e em banda azul lião
d'ouro rompente, que são
nobres armas d'estrangeiros.
De peno Pina declina,
esta linhagem mui dina
de grão louvor e pregão
veio cá ter d'Aragão
e daí vêm os de Pina.

É improbabilíssimo que Pina venha de peno ('cartaginês', do latim pœnus), mas a única coisa que parece certa a respeito dessa linhagem é a proveniência de Aragão, onde há uma vila chamada Pina de Ebro.

Na verdade, há duas linhagens armoriadas desse nome: uma do norte, cujo solar é a Guarda, traz as armas brasonadas por Sá de Meneses, se bem que este trocou os esmaltes da banda e do leopardo, pondo cor sobre cor, o que dá armas falsas; outra do sul, cuja solar é Évora, traz as armas que se veem à folha 107v do Livro do Armeiro-Mor: de vermelho com uma torre de prata, aberta, iluminada e lavrada de negro, assente num penhasco ao natural, firmado em ponta. Ambos os brasões contêm figuras falantes: no dos Pinas da Guarda, os pinheiros; no dos Pinas de Évora, a pena (isto é, o penhasco).

Ressalvo que os armoriais brasonam a figura que carrega a banda como um leão, mas tanto o Armorial português (1920 e 1923), de Guilherme Luís dos Santos Ferreira, como o Armorial lusitano (1961), de Afonso Eduardo Martins Zúquete, mostram um leopardo em banda, como, de fato, demanda a acomodação a uma peça longa.

Armas dos Brandões: De azul com cinco brandões de ouro, acesos ao natural.
Armas dos Brandões: De azul com cinco brandões de ouro, acesos ao natural.

Brandão

Cinco brandões nom em cruz
em campo vermelho jazem
e co resplandor que fazem
dão claridade e dão luz
de nobreza òs que os trazem.
De terras e possissões
dos cavaleiros Brandões
achei antiga memória
em mui verdadeira estória
d'antigas inquirições.

Sá de Meneses refere às Inquirições de 1258, nas quais se diz que o Mosteiro de Lordelo, no Douro Litoral, "est militum Brandonum", ou seja, "é dos cavaleiros Brandões". Não obstante, o solar da linhagem deve ser Paços de Brandão, na Beira Litoral.

Brandão deriva provavelmente de um antropônimo antigo, da mesma raiz germânica (cf. inglês brand 'tição' ou alemão Brand 'fogo') que deu o substantivo comum brandão, cuja figura faz as armas falantes desta linhagem, não em campo de vermelho, como diz o poeta, mas de azul.

Armas dos Cotrins: Xadrezado de ouro e prata de seis peças em faixa e sete em pala.
Armas dos Cotrins: Xadrezado de ouro e prata de seis peças em faixa e sete em pala.

Cotrim

De que os mais fazem tesouro
um escudo escaques são,
onde xaques nom darão,
se nom for em prata ou ouro,
dama, roques nem pião
co' este, que lugar tome
a geração e se assome
dos Cotrins, rezão seria
que maior foi na valia
ca a moeda de seu nome.

O cotrim foi uma moeda que se cunhou sob Dom Afonso V. O termo vem do italiano quattrino, pelo espanhol cuatrín, e deve-se ao valor originário da espécie: quatro dinheiros. Isso sugere fortemente que o sobrenome vem de uma alcunha, ainda que a literatura genealógica tenha preferido buscar-lhe uma origem inglesa.

Observe-se que o poeta brasona as armas primitivas dos Cotrins, tal como se veem à folha 127v do Livro do Armeiro-Mor, já que Antônio Godinho, no Livro da nobreza e perfeição das armas (f. 34v), as alterou para um xadrezado de ouro e azul, corrigindo a combinação de metal com metal.

Linhagens de grande preço
outras tão boas e tais
ficam por nom saber mais,
mas quem seguir meu começo
se as souber, dirá quais.
Dalgũas que nesta idade,
em valia e em bondade
são vistas pervalecer
com rezão se deve crer
que tal foi antiguidade.

Fim

E nom por defeito seu,
que é sabido que nom têm,
cuide que ficam alguém,
mas antes que polo meu,
que as nom sabia bem,
porque nom quis porventura,
dando prova mal segura,
alguém do que seu nom é
tirar a outros a fé
do que vi per escritura.

Na postagem de 15/06, eu disse que é difícil discernir o critério de seleção empregado por Sá de Meneses nas suas quintilhas sobre 47 brasões gentilícios portugueses. Depois de reeditar o texto e interpretá-lo, afigura-me que, além da sequência dos armoriais manuelinos, o poeta procurou escolher linhagens que lhe fornecessem matéria épica. Com efeito, cabe lembrar que essa sequência combina a proximidade à casa real e a antiguidade, de modo que quanto mais perto do início da sequência, maior não só a nobreza da linhagem, mas também o conhecimento sobre a sua origem, tanto mítica como histórica. Por conseguinte, quanto mais se avança na sequência, menor o suporte documental, daí a seleção de personagens contemporâneas como Febo Moniz e Vasco da Gama, de episódios como as mortes de Pero Coelho e Diogo Gonçalves de Urrô, de lendas como as de Nuno Gonçalves de Faria, Fernão Rodrigues Pacheco e Estêvão Anes Boto.

Seja como for, o epílogo corrobora o ideário heráldico-nobiliário da Idade Moderna: "Dalgũas que nesta idade, | em valia e em bondade | são vistas pervalecer | com rezão se deve crer | que tal foi antiguidade". Trocando em miúdos, a noção de antiguidade parecia tão fundamental que se alguém ascendia socialmente era porque vinha de uma linhagem antiga. Isso explica a fixação da literatura genealógica em remontar a ascendência além da primeira atestação do sobrenome, por vezes muito além, sem atestação alguma. Isso explica, ademais, o esforço em entroncar linhagens cujo parentesco não está comprovado, mas se chamam pelo mesmo sobrenome.

Segue-se que a heráldica gentilícia portuguesa, tal como se configurou do regimento manuelino em diante, depois também a brasileira, funcionaram com base mais na onomástica do que na genealogia. Cessada a expansão ultramarina, rarearam as oportunidades de façanhas, que justificavam as mercês de armas novas, como as dos Botos ou as dos Câmaras, daí que qualquer um de sobrenome Pereira ou Silva que vivesse "à lei da nobreza" alegava ser fidalgo de linhagem e solar conhecido, condição mais prestigiosa que a nobilitação.