Mostrando postagens com marcador armas imaginárias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador armas imaginárias. Mostrar todas as postagens

09/05/24

TESOURO DE NOBREZA (V)

Armas de vários reinos.

Do Tesouro de nobreza (1675):

Fólio 3 – 4. Ob ferociam militum; 5. Triumphus non est sine sanguine; 6. Ob signum pacis; 7. Senatus Populusque Romanus; 8. Ob Imperii decus; 9. Ob animositatem Romanorum; 10. Regere Imperio populos, Romane, memento. Armas de vários reinos. 1. Os dous Estados da Igreja; 2. Frígia; 4. Cilícia; 5. Cítia; 6. Trácia.
Fólio 3 – 4. Ob ferociam militum; 5. Triumphus non est sine sanguine; 6. Ob signum pacis; 7. Senatus Populusque Romanus; 8. Ob Imperii decus; 9. Ob animositatem Romanorum; 10. Regere Imperio populos, Romane, memento. Armas de vários reinos. 1. Os dous Estados da Igreja; 2. Frígia; 4. Cilícia; 5. Cítia; 6. Trácia.

Fólio 4 – 7. Itália; 8. Pérsia; 9. Babilônia; 10. Ásia; 11. Amônia; 12. Cartago; 13. Corália; 14. Grécia; 15. Roma, Ob militiæ resplendorem; 16. Etiópia; 17. África Ocidental; 18. África Oriental.
Fólio 4 – 7. Itália; 8. Pérsia; 9. Babilônia; 10. Ásia; 11. Amônia; 12. Cartago; 13. Corália; 14. Grécia; 15. Roma, Ob militiæ resplendorem; 16. Etiópia; 17. África Ocidental; 18. África Oriental.

Fólio 5 – 19. Leão; 20. Granada; 21. Valença; 22. Malhorca; 23. Córdova; 24. Algarve; 25. Biscaia; 26. Barcelona; 27. Castela; 28. Toledo; 29. Navarra; 30. Galiza.
Fólio 5 – 19. Leão; 20. Granada; 21. Valença; 22. Malhorca; 23. Córdova; 24. Algarve; 25. Biscaia; 26. Barcelona; 27. Castela; 28. Toledo; 29. Navarra; 30. Galiza.

Fólio 6 – 31. Macedônia; 32. Godos; 33. Castela; 34. Barcelona e Catalunha; 35. Aragão; 36. Leão; 37. Galiza; 38. Portugal; 39. Andaluzia. Armas de alguns senhores potentados. 1. Duque de Borgonha; 2. Duque de Normandia; 3. Duque de Quênia.
Fólio 6 – 31. Macedônia; 32. Godos; 33. Castela; 34. Barcelona e Catalunha; 35. Aragão; 36. Leão; 37. Galiza; 38. Portugal; 39. Andaluzia. Armas de alguns senhores potentados. 1. Duque de Borgonha; 2. Duque de Normandia; 3. Duque de Quênia.

Comentário:

Tal como as armas das doze tribos de Israel, dos Nove da Fama e dos antigos romanos (leiam-se as postagens antecedente e de 05/05), Francisco Coelho tirou este capítulo dos estudos do padre Antônio Soares de Albergaria (Códice BNP 1118, fl. 13), cuja fonte é o Blasón general y nobleza del universo (1489), de Pedro de Gracia Dei, rei de armas dos Reis Católicos, onde se vê e se lê o seguinte:

Fólio entre o XIV e o XV do Blasón general y nobleza del universo (1489), de Pedro de Gracia Dei.

Después estava, segund en este árbol parece, una águila prieta de dos cabeças coronada en campo blanco, por los dos Estados de la Iglesia. A la mano derecha, los frigios tenían un puerco blanco en campo verde y azul. Y los de Celicia un yelmo de oro sobre negro. Y los icitas unos rayos sobre blanco. Y los traces un hombre armado en blanco sobre el color de Mars. Y los italianos un haz y segur dorados sobre morado. Y los persas arco y carcax de oro sobre sangre. Y los de Babilonia traían una torre blanca en campo verde. Y los de Asia un lobo prieto sobre blanco. Y arriba de aqueste árbol, en la siniestra, tenían los amonios un cordero sobre verde. Los cartagineses un buey colorado sobre oro. Los coralos dos ruedas de oro en verde y azul. Los de Grecia una raposa de oro en sangre, con letra Ob nutricis memoriam ('Memoria de vevir'). Y también Roma un cavallo blanco sobre morado y una letra que dezía: Ob militiæ resplendorem ('Por el resplendor de la cavallería'). Y los etíopes un hombre entre dos serpientes en una sepultura sobre negro, dezía la letra: Esta es la pena del que contra su rey se levanta. Y los africanos de ocidente un perro blanco sobre morado. Y los de Libia, en oriente, una serpiente de oro en verde. Y embaxo del águila, una espera de oro sobre verde, que Alixandre traía. Y los godos tres sapos de oro sobre negro. Y después, veniendo en España, Castilla traía un castillo de oro con puertas azules sobre colorado. Barcelona con su Cataloña cinco bastones de sangre sobre oro y Aragón cinco cabeças negras de moros en blanco. Y León tenía un león morado sobre blanco. Y Galizia la torre blanca del espejo que Hércules hizo sobre sangre. Y Andaluzía dos colunas blancas en azul. Y Portogal una ciudad blanca en campo azul sobre la mar, hecha de ondas verdes doradas.

Antônio Rodrigues, rei de armas Portugal sob Dom Manuel I e Dom João III, traduziu esse livro para o português (Manuscrito BPMP M-FA-80, editado sob o título de Tratado geral de nobreza por Afonso de Dornelas em 1931). Como a tradução é literal demais e contém muitos barbarismos, depurei os seus erros e anotei-os entre colchetes:

Depois estava, segundo nesta árvol parece, ũa águia preta de duas cabeças coroada em campo branco, por os dous Estados da Igreja. Em a mão destra, tinham os frígios um porco branco em campo verde e azul. Os de Celícia [1], um elmo de ouro sobre negro. Os citas, uns raios sobre branco. Os traces, um homem armado em branco sobre a color vermelha. Os italianos, ũa gavela e ũa bisarma dourados sobre morado. Os pérsios, um arco e ũa aljava de ouro sobre sangue. Os de Babilônia, ũa torre branca em campo verde. Os de Ásia, um lobo preto sobre branco. E acima daqueste árvol, à sestra, tinham os omônios um cordeiro sobre verde. E os cartagineses, um boi colorado sobre ouro. Os coralos, duas rodas de ouro em verde e azul. E os de Grécia, ũa raposa de ouro com sangue, com letra Ob nutricis memoriam [2], quer dizer 'Memória de viver'. E também Roma, um cavalo branco sobre morado e ũa letra que dezia Ob militiæ resplendorem ('Por o resprandor da cavalaria'). Os etíopes, um homem antre duas serpentes em ũa sepultura sobre negro e dezia a letra: Esta é a pena do que contra seu rei se alevanta. E os africanos de ocidente, um cão branco sobre morado. E os de Líbia, em oriente, ũa serpente de ouro em verde. E embaixo da águia, um mundo de ouro sobre verde, que Alexandre trazia. E os godos, três sapos sobre negro. E depois Castela trazia um castelo de ouro com portas azuis sobre colorado. Barcelona com Catelônia, cinco bastões de sangue sobre ouro. Aragão, cinco cabeças negras de mouros em branco. Lião, um lião branco. Galiza, ũa torre branca com um espelho. (1)
[1] Cecilia; [2] Omitriçis memoria

Como eu disse no comentário sobre o prólogo do Tesouro, os autores compilavam, reescreviam, ampliavam ou reduziam os materiais em que se fundavam, a depender do público para o qual elaboravam armoriais ou tratados. Todavia, isso comportava um defeito: frequentemente, eles se acomodavam à autoridade das fontes, replicando um mundo imaginário ou pretérito. Por exemplo, no tempo de Gracia Dei, o número das palas de Aragão e Barcelona efetivamente variava, mas no século XVII já se tinha fixado, tanto que Albergaria copia o Blasón à fl. 13 do seu caderno, mas à fl. 33, citando o cronista Jerónimo Zurita, pinta quatro palas.

Do mesmo modo, no Livro do Armeiro-Mor João do Cró formou um capítulo em grande medida fictício e anacrônico por ter tirado as armas dos príncipes cristãos e mouros do Armorial Wijnbergen, do fim do século XIII. Essa ficção e anacronismo avultam ainda mais aqui: dos 39 brasões, somente as armas de Granada, Castela e Leão (n.os 20, 33 e 36) são reais e estão corretas, mas não se entende por que Coelho dá outras ligeiramente divergentes (e errôneas) a esses dois reinos nos números 19 e 27. Talvez a necessidade de preencher os fólios com múltiplos de três.

Mais precisamente, as armas dos Estados da Igreja, Frígia, Cilícia, Cítia, Trácia, Itália, Pérsia, Babilônia, Ásia, Cartago, Grécia, Roma (n.º 15), Etiópia, África Ocidental e Oriental são imaginárias. E mesmo que não fossem propriamente reinos, certos lugares tiveram esses nomes em diferentes momentos da história ou ainda os têm, mas a Amônia e a Corália sequer existiram. Seja como for, Albergaria reproduz fielmente os ordenamentos de Gracia Dei. Em contrapartida, Coelho modifica algum pormenor aqui e ali.

Igualmente imaginárias são as armas da Andaluzia: as Colunas de Hércules eram, na verdade, a divisa do imperador Carlos V. Por outro lado, as armas de Valência, Maiorca, Córdova, Algarve, Biscaia, Barcelona, Toledo, Galiza e Aragão (n.º 35) estão numa categoria intermediária, porque não compunham as armas reais (3), mas eram amplamente divulgadas pela literatura heráldica. Por conseguinte, não cabe imputar acerto ou erro a Coelho. O próprio Albergaria fez vários apontamentos sobre as armas da Galiza no seu caderno: à fl. 13, dá a Torre de Hércules, que Gracia Dei brasona de prata em campo de vermelho; à fl. 26v, desenha e aponta que "as armas do reino de Galiza e de que hoje usa são um cálix com ũa hóstia em cima", o qual ladeiam oito cruzetas; à fl. 33v, pinta e anota de um lado "campo vermelho (outros, azul), custódia d'ouro, hóstia de prata" e do outro "campo azul, custódia d'ouro; cális". Pessoalmente, suspeito que Coelho teve conhecimento indireto do Armorial universel (1654, n.º 170), de Charles Segoing. Isso explicaria certas semelhanças e a tremenda divergência de alguns desses brasões no Tesouro (4).

Enfim, sobre o n.º 38, Albergaria (ibidem, fl. 59) diz que são as "armas antiquíssimas da província de Portugal" e brasona-as assim: "ũa cidade branca em campo azul sobre o mar de ondas verdes douradas". É claro que, ademais, romanceia:

Sobre o Douro foi povoado o castelo de Gaia e por aportarem aí mercadores e pescadores e concorrerem dentro do rio e estenderem suas redes doutra banda, se povoou outro lugar, que se chamou Porto, que agora é cidade mui principal, donde, ajuntando-se estes dous nomes, se chamou toda a terra Portugal. E a respeito desta cidade que lhe deu princípio, usou desta por insígnia.

Que Portus Cale, uma povoação junto à foz do Douro, atestada desde a conquista romana, deu nome a Portugal, mediante a forma Portucale, é bem sabido (5). O resto, no entanto, é fábula heráldica.

Notas:
(1) Além dos erros marcados pelos colchetes, as seguintes palavras são barbarismos: árvol (por árvore), color (por cor), colorado (por vermelho) e morado (por roxo)
(2) Note-se que o tradutor se equivoca ao final e deixa a tradução incompleta.
(3) O uso constante das armas reais impunha a necessidade de fixar o seu ordenamento. Com efeito, foi a evolução política da Espanha que fixou alguns brasões inventados na literatura heráldica, como o das Ilhas Baleares e o da Galiza.
(4) As armas de Córdova não se acham no caderno de Albergaria e o brocal de Navarra no Armorial universel realmente semelha um cordão com nós. Por outro lado, só no Tesouro se duplicam as cabeças das armas imaginárias do Algarve. Coelho seguramente nunca folheou aquele livro, mas é plausível que alguém lhe tenha descrito — por vezes de modo ambíguo — as armas dos reinos da Espanha.
(5) Que de Cale venha Gaia é discutível, porque supõe uma evolução incomum na nossa língua: *Cala > *Gala > *Gaa > *Gaia. Via de regra, duas vogais iguais sofreram crase, como em , de pala.

07/05/24

TESOURO DE NOBREZA (IV)

Armas dos Nove da Fama e insígnias dos romanos.

Do Tesouro de nobreza (1675):

Fólio 2 – Armas dos Nove da Fama. 1.º – Josué, Capitão do Povo de Deus; 2.º – Davi Rei; 3.º – Judas Macabeu (estes três foram hebreus); 4.º – Alexandre Magno; 5.º – Heitor; 6.º – Júlio César (estes três foram gentios); 7.º – Artus; 8.º – Carlos Magno; 9.º – Godrofede Bulhão (estes três foram cristãos). Armas e insígnias dos romanos. 1. Roma, lupa germanorum nutrix; 2. Rômulo: Ex necessitate; 3. Romana República: Ubi stetero, caput orbis erit.
Fólio 2 – Armas dos Nove da Fama. 1.º – Josué, Capitão do Povo de Deus; 2.º – Davi Rei; 3.º – Judas Macabeu (estes três foram hebreus); 4.º – Alexandre Magno; 5.º – Heitor; 6.º – Júlio César (estes três foram gentios); 7.º – Artus; 8.º – Carlos Magno; 9.º – Godrofede Bulhão (estes três foram cristãos). Armas e insígnias dos romanos. 1. Roma, lupa germanorum nutrix; 2. Rômulo: Ex necessitate; 3. Romana República: Ubi stetero, caput orbis erit.

Fólio 3 – Ob ferociam militum; 5. Triumphus non est sine sanguine; 6. Ob signum pacis; 7. Senatus Populusque Romanus; 8. Ob Imperii decus; 9. Ob animositate Romanorum; 10. Regere Imperio populos Romane memento. Armas de vários reinos. 1. Os dous Estados da Igreja; 2. Frígia; 4. Cilícia; 5. Cítia; 6. Trácia.
Fólio 3  Ob ferociam militum; 5. Triumphus non est sine sanguine; 6. Ob signum pacis; 7. Senatus Populusque Romanus; 8. Ob Imperii decus; 9. Ob animositatem Romanorum; 10. Regere Imperio populos, Romane, memento. Armas de vários reinos. 1. Os dous Estados da Igreja; 2. Frígia; 4. Cilícia; 5. Cítia; 6. Trácia.

Comentário:

Não tenho nada a acrescentar ao que eu disse a respeito dos Nove da Fama na postagem de 29/04/21. Mas quanto às insígnias dos romanos, Francisco Coelho tirou-as, tal como as armas das doze tribos de Israel (leia-se a postagem antecedente), dos estudos do padre Antônio Soares de Albergaria (Códice BNP 1118, fl. 6), cuja fonte é o Blasón general y nobleza del universo (1489), de Pedro de Gracia Dei, rei de armas dos Reis Católicos, onde se vê e se lê o seguinte:

Fólio entre o XII e o XIII do Blasón general y nobleza del universo (1489), de Pedro de Gracia Dei.

Las insignias de los de Roma
Para verificar que color sobre color y metal sobre metal no pueden estar, allende lo susodicho síguense las insinias de los romanos en el tiempo que prosperavan, en cuya memoria un noble varón romano, deste nombre Laurencio Manlio, mirando virtud, las hizo sacar y pintar en su casa, segund hoy parecen, donde yo las hize sacar, creyendo era servicio de Vuestra Alteza. Y conociendo, pues, su grandeza es presente en las patrias que señoreavan, en las cuales alegres vuestra clara fama reciben, serán recebidas sus armas como si sus personas en presencia llegasen al reino y palacio de Vuestra Real Majestad, en principio de lo cual estava un título que dezía Antiquorum insignia, que quiere dezir 'Estas son las insinias de los antigos', donde están coronados los presentes escudos en la manera siguiente. Al principio, una loba y un pito de oro, que le dava de comer, en campo verde y ella dava de mamar a dos niños blancos con pétase, que esto mismo rezava: Lupa germanorum nutrix quam picus [1] alit ('El pito da de comer a la loba que cría los hermanos'), que fueron Rómulo y Rémulo, cuando los hallaron en la silva, y después Rómulo alçó una haz de yerva y dezía: Romulus ex necessitate ('Rómulo por necesidad'). Numa Pompilio puso un escudo de oro en campo celeste, que cayó del cielo con una letra que dezía: Ubi stetero, caput orbis erit ('Donde yo estoviere, será cabeça del mundo'). Y después pusieron los romanos un minotauro de oro en campo celeste, con letra que dezía: Ob ferociam militum ('Por la ferocidad de los cavalleros'). Estava más una cota sangrienta en campo blanco y dezía: Triumphus non est sine sanguine ('El triunfo no es sin sangre'). Y después estava una puerca negra alanceada en campo de oro, cuya letra era Ob signum pacis ('Por el señal de la paz'), que ansí muera quien la quebrare. Y después un escudo colorado con cuatro letras de oro, que dizen: El Senado y Pueblo Romano, las cuales hoy son armas de Roma. Y después una águila negra en campo blanco y era la letra Ob Imperii decus ('O honra de Imperio'). Otro escudo con fuegos y un braço en medio con una espada, en campo de oro, por la grand animosidad de los romanos. Estava en el medio con dos coronas el escudo cesareano colorado, con el mundo de oro, manifestando su monarquía, con una letra que César por sí dezía: Regere imperio populos, Romane, memento, quiere dezir 'O romano, recuérdate que riges los pueblos por imperio', que este fue el primero emperador que hovo nel mundo.
[1] pies

Antônio Rodrigues, rei de armas Portugal sob Dom Manuel I e Dom João III, traduziu esse livro para o português (Manuscrito BPMP M-FA-80, editado sob o título de Tratado geral de nobreza por Afonso de Dornelas em 1931). Como a tradução é literal demais e contém muitos barbarismos, depurei os seus erros e anotei-os entre colchetes:

Para saber que cor sobre cor e metal sobre metal não podem estar, além do suso dito seguem-se as ensínias dos romãos no tempo que prosperaram, em cuja memória um homem barão, deste nome Laurêncio Mânlio, oulhando a vertude, as fez tirar e pintar em sua casa, segundo hoje parecem, donde eu as fiz tirar, crendo de ser serviço de Vossa Alteza. E conhecendo sua grandeza é presente nas pátrias que senhoreavam, nas quaes alegres vossa crara fama recebem e sejam recebidas suas armas, como se suas pessoas em presença [1] chegassem ao reino e paço [2] de Vossa Majestade, no princípio do qual estava um título que dezia Antiquorum insignia, quer dizer 'Estas são as insígnias dos antigos', donde estão coroados os escudos na maneira seguinte, a saber, ũa loba com um pito de ouro, que lhe dava de comer em um campo verde, dando de mamar a dous meninos brancos com um pétaso [3], que esto mesmo rezava: Lupa germanorum nutrix quam picus alit [4] ('O pito dá de comer [5] à loba que cria os dous irmãos'), que foram Rômulo e Rêmulo, quando foram achados na silva, e depois Rômulo alevantou um feixe de erva e dezia: Romulus ex necessitate ('Rômulo de necessidade'). Numa Pompílio pôs um escudo de ouro no campo celestre, que caiu do ceo com ũa letra que dezia: Ubi stetero, caput orbis erit ('Onde eu estiver, será cabeça do mundo') [6]. Depois poseram os romãos um minotauro de ouro em campo celeste, com letra que dezia: Ob ferociam militum [7] ('Pela ferocidá dos cavaleiros'). E estava mais ũa cota sangrentada em campo branco e dezia: Triumphus non est sine sanguine, quer dizer 'O triunfo não é sem sangue'. E depois está ũa porca negra alanceada em campo d'ouro, cuja letra era Ob signum pacis ('Por sinal da paz'), que assi morre quem a quebrantar. E depois um escudo colorado com quatro letras de ouro, que dizem: O Senado [8] e o Povo Romão, as quaes hoje são armas de Roma. E depois ũa águia negra em campo branco e era a letra Ob Imperii decus ('Ó honra do Empério'). Outro escudo com fogos e um braço no meo com ũa espada em campo de ouro, por a grande animosidade dos romãos. Estava no meo com duas coroas o escudo cesareano colorado, com o mundo de ouro, manifestando sua monarquia, com ũa letra que César por si dezia: Regere imperio populos, Romane, memento [9], quer dizer 'Ó romão, alembra-te que reges os povos por império' [10]. Este foi o primeiro emperador que houve no mundo. (1)
[1] com suas pessoas em supito; [2] pacificos; [3] betafe; [4] prealit; [5] mamar; [6] Ubi stetero, caput orbis ero, dando a entender 'Serás cabeça do mundo'; [7] E ferociam militam; [8] Sanado; [9] Regere Emperio pupullos Romanae memento[10] 'Ó Roma, alembra-te que reguas os povos por império'

Lorenzo di Mattia Manei foi um burguês de Roma cujo entusiasmo pelo passado antigo da cidade o levou a mudar o seu nome, reivindicando descendência da gens Manlia, a colecionar objetos daquela idade e, desde 1476, a reconstruir o seu paço, sito então à Piazza Giudea, hoje Via del Portico d'Ottavia, embelezando-o com tais objetos, também com imitações. Considerando a itinerância do ofício de armas no século XV, é plenamente verossímil que Gracia Dei tenha copiado aí ou daí esse conjunto de brasões. Seja como for, a pintura original perdeu-se, afinal o paço se acha em estado lastimoso.

Não obstante, convém salientar o caráter imaginário de qualquer brasão atribuído aos antigos romanos, já que a heráldica surgiu no século XII, embora alguns desses se inspirem em várias fontes históricas e literárias: a loba que aleitou Rômulo e Remo, o fratricídio "por necessidade" ou o ancil que caiu do céu após as súplicas de Numa Pompílio aos deuses contra uma peste. Além disso, "tu regere imperio populos, Romane, memento" é um verso da Eneida (6, 851), de Virgílio, e as letras SPQR de vermelho em campo de ouro tornaram-se de fato as armas de Roma.

Nota:
(1) Além dos erros marcados pelos colchetes, as seguintes palavras são barbarismos: suso (por sobre), ferocidá (por ferocidade) e colorado (por vermelho).

05/05/24

TESOURO DE NOBREZA (III)

Armas das doze tribos de Israel.

Do Tesouro de nobreza (1675):

Fólio 1 – Armas dos Doze Tribos de Israel. Filhos de Jacó (Gênesis, cap. 49). Nesta forma, iam em modo de peleja: Filho 1.º – Rubem; 2.º – Simeon; 3.º – Judá; 12.º – Zabulom; 11.º – Issacar; 5.º – Dão; 4.º – Gade; 8.º – Aser; 9.º – Neftalim; 10.º – Benjamim; 6.º – Efraim; 7.º – Manassés.
Fólio 1 – Armas dos Doze Tribos de Israel. Filhos de Jacó (Gênesis, cap. 49). Nesta forma, iam em modo de peleja: Filho 1.º – Rubem; 2.º – Simeon; 3.º – Judá; 12.º – Zabulom; 11.º – Issacar; 5.º – Dão; 4.º – Gade; 8.º – Aser; 9.º – Neftalim; 10.º – Benjamim; 6.º – Efraim; 7.º – Manassés.

Comentário:

Francisco Coelho elaborou esta seção do Tesouro a partir dos estudos do padre Antônio Soares de Albergaria, como se vê e se lê à folha 5 dos seus apontamentos (Códice 1118, conservado na Biblioteca Nacional de Portugal; sobre isso, leia-se mais nas postagens antecedente e de 01/05). À sua vez, esse clérigo copiou a gravura que ilustra o nono capítulo do Blasón general y nobleza del universo (1489), onde Pedro de Gracia Dei, rei de armas dos Reis Católicos, também descreve essas armas, como se apreciará a seguir:

Fólio entre o X e o XI do Blasón general y nobleza del universo (1489), de Pedro de Gracia Dei.
Fólio entre o X e o XI do Blasón general y nobleza del universo (1489), de Pedro de Gracia Dei.

Las insignias que llevavan los Doze Tribus de Israel
Después que los hijos de Jacob se partieron de Egipto por mandado de Dios, para los volver a la tierra de promissión, que parte término con Jerusalem, llegaron al desierto, donde comieron corenta años de la maná del cielo y allí hizieron el Arca del Testamento, en que pusieron las tablas de los diez mandamientos de la ley que el Señor havía dado a Moisé en monte Sinaí. E todos por cuento halláronse seiscientos y tres mil hombres de pelea, de veinte años arriba, sin los niños, mujeres y viejos y sin el tribu de Judá, que mandó Dios no se contase, que era escogido para el sacerdocio y este servía y llevaba el arca. Y ordenáronse los once tribus en doze partes, porque José era ya fallecido y socedieron en su logar Manasés y Efraín, sus hijos, y pusieron el arca en el medio y hiziéronse de tres en tres cuatro partes, con las armas y figuras, colores y metales que parecen en esfuerço de las bendiciones que les dio su padre Jacob.
Delante el Arca del Testamento, a la parte de oriente, iva Judá con setenta y cuatro mil y seiscientos hombres de pelea y era su capitán Nasón y las insignias de su pendón eran un león de oro en campo celeste, segund la bendición de su padre, que le dixo: "Por ti se holgarán tus hermanos y te harán reverencia y será la tu mano sobre la cerviz de tus inimigos. Vencerá el león del tribu de Judá, de la raíz de Jessé. Yo te bendigo en nombre del que nos hizo".
Zabulón: A la mano derecha de Judá iva Zabulón y llevava en su batalla cincuenta y siete mil y cuatrocientos hombres y era su capitán Elías y sus armas eran una nao prieta en campo blanco, sobre ondas de buena fortuna, porque su padre le dixo: "Serás guía de las carreras dudosas y juntarás las gentes trabajadas y las pasarás en seguro hasta Sidón".
Izacar: A la parte siniestra de Judá, contra el meridiano, iva Izacar con cincuenta y cuatro mil y cuatrocientos varones y era su capitán Netanel y sus armas el sol y la luna de metales en campo azul y morado y un asno negro en campo blanco, porque Jacob le dixo: "Serás regidor de gentes y sabio sobre todos tus hermanos y sofrilos has con tu prudencia, segund el asno sufre la carga".
Rubén: A la parte de ocidente, tras el arca, iva el hijo mayor de Jacob con la postrera batalla, en que llevava corenta y seis mil y quinientos hombres de los mejores del exército y era su capitán Eliçur, hijo de Cedeur, y eran sus armas un hombre, por el que havía de redemir el linaje humanal, sinificando la bendición de su padre, que le dixo: "Porque no consentiste la injuria de Lía, serás leal y celoso, ninguna duda poniendo en la ley que el Señor nos dio".
Gaad: A la parte derecha de Rubén, iva Gaad y era su batalla de corenta mil y seiscientos hombres d'armas y capitán Eliaçafe y sus insinias gente armada en un escudo blanco y prieto, porque le dixo Jacob: "Serás fuerte capitán de gentes nel pueblo del Señor y vencerás los que fueren contra su ley".
Simón: A la parte siniestra de Rubén, iva Simón con cincuenta y nueve mil y trezientos de pelea y su capitán Salumiel y sus armas un castillo colorado en campo de oro, porque le dixo su padre: "Ansí como combatiste y tomaste el castillo de Salem, aunque yo dello no fue sabidor, ansí saberás pelear, vevir y morir sobre ley del Señor, sin que ninguno te lo diga".
Dam: A la parte de setentrión, iva Dam con sesenta y dos mil y sietecientos combatientes y era su capitán Ahihazer y sus armas una águila de oro en campo negro, por la bendición que su padre le echó cuando le dixo: "Serás juez del pueblo como todos los tribus y serás como culuebra sobre carrera y como serpiente en el camino, que saben sotilmente morder el cavallo y enseñorearse del cavallero, y crecerás sobre los hombres como el águila en el vuelo sobre todas las aves".
Asser: A la mano derecha de Dam, iva Asser con corenta mil y quinientos hombres, era su capitán Payel y sus armas una oliva verde en campo blanco, porque le fue dicho: "Serás abundoso en todas las cosas, como la oliva entre sus hijos".
Neutalín iva a la siniestra de Dam con cincuenta y tres mil y cuatrocientos hombres, era su capitán Ahirac y sus armas una cierva de oro sobre morado, porque le dixo Jacob: "Serás vitorioso y alegre como cierva con sus amores, que no teme por ellos morir, como tu harás sobre tu ley".
Efraín iva a la parte del mediodía con corenta mil y quinientos hombres y era capitán Elisamet y llevava sobre oro y plata un toro colorado, que fue llamado su padre José buey fértil sobre todos sus hermanos.
Benjamín iva a la diestra de Efraín con treinta y cinco mil y cuatrocientos y era su capitán Abidán y sus armas un lobo negro sobre diversos colores, que le fue dicho en diversos modos: "Vencerás y partirás con tus hermanos como el lobo que a la mañana toma la caça y en la noche parte el despojo".
Manassés iva a la parte siniestra de Efraín, su hermano menor, con treinta y dos mil doscientos hombres, era su capitán Galiel y sus armas unicornio blanco en campo verde, porque havía de ser uno y singular en el universo.

Sabe-se que esse livro, dedicado a Dom João II, circulou em Portugal. Afonso de Dornelas achou uma tradução para o português na Biblioteca Pública Municipal do Porto (Manuscrito M-FA-80) e editou-a em 1931 sob o título de Tratado geral de nobreza, cuja autoria atribuiu a Antônio Rodrigues, rei de armas Portugal sob Dom Manuel I e Dom João III. Na verdade, esse texto parece mais um rascunho, porque a tradução é tão literal e cheia de barbarismos que amiúde só se faz inteligível com o cotejo do original. Segue a do excerto, depurada dos erros, que anotei entre colchetes:

Depois que os filhos de Jacó se partiram de Egito por mandado de Deus, pera os volver à terra de promissão, que parte com Jerusalém, chegaram ao deserto, donde comeram corenta anos da maná do ceo e ali fizeram a Arca do Testamento, na qual puseram [1] as távoas dos dez mandamentos da lei que o Senhor havia dado a Mousém em o monte Sinai. E todos contados se acharam seiscentos e três mil homens de peleja, de vinte anos arriba, sem os meninos, molheres e velhos e sem o tríbu de Judá, que mandou Deus que não se contasse, porque era escolheito pera o sacerdócio e este servia e levava a arca. E ordenaram-se os onze [2] tríbus em doze partes, porque José era já falecido e socederam em seu lugar Manassés e Efraim, seus filhos, e puseram a arca no meo e fizeram-se de três em três quatro partes, com armas e figuras, colores e metaes que parecem em esforço das benções [3] que lhe deu seu pai Jacó.
Diante a Arca do Testamento, à parte do oriente, ia Judá com setenta e cinco mil e seiscentos homens de peleja e era seu capitão Naaçom e as ensínias de seu pendom eram um leão de ouro em campo celeste, segundo a benção de seu pai, que lhe disse: "Por ti se folgarão teus irmãos e te farão reverência e será tua mão sobre a cerviz de teus imigos. Vencerá o lião da tríbu de Judá, da raiz de Jessé. Eu te benzo em nome do que [4] nos fez".
À mão direita de Judá ia Zabulom e levava em sua batalha cinquenta e sete mil e quatrocentos homens, era seu capitão Elias e suas armas eram ũa nao preta [5] em campo branco sobre ondas de boa fortuna, porque seu pai lhe disse: "Serás guia das estradas duvidosas e ajuntarás as gentes trabalhadas e passá-las-ás a seguro atá Sidom".
À parte sestra de Judá, contra o merediano, ia Izacar com cinquenta e quatro mil homens varões e seu capitão era Netanel e suas armas o sol e a lua de metaes ouro e prata em campo azul e morado e um asno negro em campo branco, porque Jacó lhe disse: "Serás regedor das gentes e sábio sobre todos teus irmãos e sofrir-lhe-ás com tua prudência, segundo o asno sufre a carga".
À parte do ocidente [6], trás a arca, vai o filho mor de Jacó com a postreira batalha, na qual levava corenta e seis mil e quinhentos homens, os milhores do exército, e era seu capitão Eliçur, filho de Cedear, eram suas armas um homem por que havia de redemir a linhagem humanal, senificando a benção de seu pai, que disse: "Porque não consentiste [7] a injúria de Lia [8], serás leal e zeloso e nenhũa dúvida poendo na lei que o Senhor nos deu".
À parte direita de Rubem, ia Gad e era sua batalha de corenta mil e seiscentos homens d'armas e capitão Eliaçafe e suas insínias gente armada em um escudo branco e preto, porque lhe disse Jacó: "Serás forte capitão de gentes no póvoo do Senhor e vencerás os que forem contra sua lei".
À parte sestra de Rubem, ia Simeom com cinquenta e nove mil e trezentos [9] homens de peleja e seu capitão Salumiel e suas armas um castelo colorado em campo de ouro, porque lhe disse seu pai: "Assi como combateste e tomastes o castelo de Salém, ainda que eu delo não fui sabedor, assi saberás pelejar e morrer e viver sobre a lei do Senhor, sem que nenhum to diga".
À parte de setentrião [10], ia Dão [11] com setenta e dous mil e setecentos combatentes e era seu capitão Aiazer e suas armas ũa águia de ouro em campo negro, por a benção que seu pai lhe deitou quando lhe disse: "Serás juiz do póvoo como todos os tríbus e serás como cobra sobre a carreira e como a serpente no caminho, que sabem sotilmente morder o cavalo e senhorear-se do cavaleiro e crecerás sobre os homens como a águia no voo [12] sobre as aves".
À mão direita de Dão [13], ia Aser com corenta mil e quinhentos homens e seu capitão era Paiel e suas armas ũa oliveira verde em campo branco, porque lhe foi dito: "Serás avondoso em todas as cousas, como a oliveira antre seus filhos".
Neftalim [14] ia à sestra de Dão [13] com cinquenta e três mil e quatrocentos homens, era seu capitão Airac e suas armas ũa cerva de ouro sobre morado, porque lhe disse seu pai: "Serás vitorioso e alegre como cerva com seus amores, que não teme por eles morrer e esto farás tu sobre tua lei".
Efraim ia à parte do meo-dia com corenta mil e quinhentos e era seu capitão Elisamé e levava sobre ouro e prata um touro colorado, que foi chamado seu pai José boi fértil sobre todos seus irmãos.
Benjamim [14] ia à destra d'Efraim com trinta e cinco mil e quatrocentos homens, era seu capitão Abidaé e suas armas um lobo negro sobre diversas cores, que a ele foi dito: "Vencerás em diversos modos e partirás com teus irmãos como o lobo cada menhã toma a caça e de noite parte o despolho".
Manassés ia à parte sestra de Efraim com trinta e dous mil [15] homens e seu capitão Galiel e suas armas alicórnio branco em campo verde, porque havia de ser singular no universo. (1)
[1] da quall fasera; [2] doze; [3] envenções; [4] E venceu nome que; [5] de prata; [6] tridente; [7] sentiste; [8] d'Elias; [9] três; [10] sentriom; [11] Davi; [12] nova; [13] Etalim; [14] Eijmamim; [15] 37 e dozentos

Portanto, Gracia Dei combina o 49.º capítulo do livro do Gênesis, que dá o testamento profético de Jacó, e o 10.º daquele dos Números, que narra a partida dos israelitas do Sinai, criando, então, uma ficção. Ora, tendo a heráldica surgido no século XII, é óbvio que essas e quaisquer armas das doze tribos de Israel são imaginárias. Como razoei nas ditas postagens, um armorial não só coligia uma série de brasões, mas também refletia a ordem do mundo. Neste sentido, a evocação da Bíblia e a leitura cavalheiresca que se fazia dela dava a entender que essa ordem era muito antiga e sagrada. Assim, projetava-se um passado longo e estável que se estendia até os viventes, interpelando-os a guardar e legar os valores recebidos.

Notas:
(1) Além dos erros marcados pelos colchetes, as seguintes palavras são barbarismos: color (por cor), morado (por roxo), sofrir e sufre (por sofrer e sofre), trás (por depois), postreiro (por derradeiro) e carreira (por estrada).
(2) Os nomes hebraicos menos usuais podem variar grandemente de uma tradução para outra. Na Vulgata, a partida do Sinai é narrada assim: "
Elevatum est primum vexillum castrorum filiorum Judæ per turmas suas, quorum princeps erat Naasson filius Aminadab; et super turmam tribus filiorum Issachar fuit princeps Nathanael filius Suar; et super turmam tribus Zabulon erat princeps Eliab filius Helon. Depositumque est habitaculum, quod portantes egressi sunt filii Gerson et Merari. Profectum est vexillum castrorum filiorum Ruben per turmas suas, et super turbam suam princeps erat Elisur filius Sedeur. Super turmam autem tribus filiorum Simeon princeps fuit Salamiel filius Surisaddai. Porro super turmam tribus filiorum Gad erat princeps Eliasaph filius Deuel. Profectique sunt et Caathitæ portantes sanctuarium. Et erectum est habitaculum, antequam venirent. Elevatum est vexillum castrorum filiorum Ephraim per turmas suas, in quorum exercitu princeps erat Elisama filius Ammiud. Et super turmam tribus filiorum Manasse princeps fuit Gamaliel filius Phadassur; et super turmam tribus filiorum Benjamin erat dux Abidan filius Gedeonis. Novissime elevatum est vexillum castrorum filiorum Dan per turmas suas, in quorum exercitu princeps fuit Ahiezer filius Ammisaddai. Et super turmam tribus filiorum Aser erat princeps Phegiel filius Ochran; et super turmam tribus filiorum Nephthali princeps fuit Ahira filius Enan. Hæ sunt profectiones filiorum Israel per turmas suas, quando egrediebantur".

18/03/21

DAQUELES QUE PRIMEIRO INVENTARAM AS ARMAS

A mitificação das origens da heráldica serviu aos interesses dos arautos, mas também se encaixava bem na visão de mundo baixo-medieval.


Do Tratado Prinsault (1444):

Le premier chapitre : de ceux qui premier trouvèrent armes.

Le très vaillant et victorieux Alixandre, roi de Macédoine, le très puissant troyen Hector, le très prudent empereur Jules César et plusieurs autres nobles princes, désirants savoir comme leurs vassaux et sujets se portoient vaillamment aux faits d'armes, afin d'esprouver et récompenser chascun selon sa desserte, ordonnèrent qu'en leurs escus seroit descrite ou insculpée certaine enseigne et différence, par laquelle l'on peüst clairement discerner et juger de leurs vaillants et preux faits, laquelle enseigne à présent est appelée armes, lesquelles armes ont esté assignées par lesdits princes non seulement à iceux vaillants hommes, mais aussi à toute leur postérité, afin qu'en recordation et mémoire desdites vaillances, ils soient plus inclinés et animés à ensuivre et imiter les beaux faits, prouesses et vaillances de leurs prédécesseurs.

Fólios 52v e 53r do códice 3711, conservado na Bibliothèque Mazarine, em que se veem as armas imaginárias de personagens arturianas.
Fólios 52v e 53r do códice 3711, conservado na Bibliothèque Mazarine, em que se veem as armas imaginárias de personagens arturianas. (1)

O primeiro capítulo: daqueles que primeiro inventaram as armas.

O valorosíssimo e vitoriosíssimo Alexandre, rei da Macedônia, o potentíssimo troiano Heitor, o prudentíssimo imperador Júlio César e vários outros nobres príncipes, desejando saber como os seus vassalos e súditos se portavam valorosamente nos feitos de armas, a fim de provar e recompensar cada um segundo o seu serviço, ordenaram que nos seus escudos seria descrita ou insculpida certa insígnia e diferença, pela qual se pudessem claramente discernir e julgar os seus valorosos e bravos feitos, insígnia que no presente é chamada armas, as quais foram concedidas por esses príncipes não só àqueles valorosos homens, mas também a toda a sua posteridade, para que em recordação e memória desses valores, estejam mais inclinados e animados a seguir e imitar os belos feitos, proezas e valores dos seus predecessores.

Fólio 1r do códice Français 18651, conservado na Bibliothèque nationale de France, em que se veem várias armas imaginárias.
Fólio 1r do códice Français 18651, conservado na Bibliothèque nationale de France, em que se veem várias armas imaginárias.

Comentário:

Ao longo da ainda curta existência deste blog, fiz algumas considerações sobre a origem da heráldica, que marquei exatamente com essa etiqueta. Vou tentar resumi-las num parágrafo.

A heráldica surgiu no século XII no norte da França, mais precisamente em terras que hoje fazem parte da região da Alta França (Hauts-de-France). À falta dos objetos armoriados que o tempo consumiu, como vestes, escudos e pinturas sobre paredes e tetos, o nosso conhecimento depende do que foi gravado nos selos. Desde o início do século, esses selos mostram senhores montados, sustendo com uma mão um escudo e com a outra uma lança, a esta afixada uma bandeira na qual se veem desenhos que coincidem com o que serão as armas desses senhorios, como o burelado de Luxemburgo, o bandado da Borgonha ou o xadrezado de Vermandois. Na quarta década desse século, difundiu-se por toda a Europa ocidental a moda de representar o cavaleiro empunhando uma espada em vez da lança, o que deixava ver o campo do escudo, sobre o qual se passou a figurar o brasão. Enfim, na década de oitenta a representação sigilar começou a reduzir-se ao escudo armoriado, transcendendo o âmbito senhorial e militar original e estendendo-se a toda a sociedade.

Ora, se a heráldica se desenvolveu durante o século XII, qualquer explicação que remonte o seu surgimento para trás ou contém equívoco, como as de certos acadêmicos modernos que acertaram na origem baixo-medieval, mas erraram recuando-a um ou dois centênios, ou é mítica, como a dos arautos, de que o presente capítulo é exemplo. Em particular, o mito de que alguma grande personagem da Antiguidade criou a heráldica já aparece no De ministerio armorum, o tratado produzido por um arauto português em 1416:

Quia quando divus Julius Cæsar fuit supra ripariam sive fluvium de Rubicon in Romania et dixit generaliter suis gentibus seu ejus exercitui quod ille qui ex bona et integra voluntate nollet perseverare et persistere cum ipso in magnis factis et conflictibus et gestis ad quæ intendebat et sperabat pervenire quod ab eodem discederent, ipsis liberam impartiendo et in pugnam licentiam. Et illis gentibus sui exercitus quæ bono et constanti corde vellent permanere et persistere secum præceptum fecit et jussit quod quilibet gentium earumdem exercitus sui deferrent insignia talia quod minime essent similia; sic quod insignia singularia omnino discreparent a se ipsis, ad finem quod corda audacia et felicia et valentes probitates cognoscerentur a vecordibus et infelicibus cordibus et gestis minus prosperis. Et fuit tunc publicatum ut quilibet dicti exercitus faceret scribi in modum registri divisiam sive insignia quæ differret. (2)

Por mais que os arautos tenham forjado essas narrativas e outras semelhantes com deliberado interesse corporativo — reivindicar dignificação do seu mister —, antes de incorrer num pesado juízo de valor, convém procurar entender como o mito se articulava com as práticas, as crenças e os gostos e, por isso, convencia. Com efeito, as pessoas da baixa Idade Média tinham uma predileção por estórias ambientadas em três momentos, segundo Jean Bodel na Chanson des saisnes (1180-1200):

N'en sont que trois matères à nul homme vivant : 
de France et de Bretagne et de Rome la grand ;
ne de ces trois matères n'y a nulle semblant.
Li conte de Bretagne sont si vain et plaisant,
et cil de Rome sage et de sens apprendant,
cil de France sont voir de chascun jour apparent. (3)

A matéria de Roma, ou ciclo clássico, é ambientada na Grécia e Roma antigas e narra os feitos de personagens como Heitor, Alexandre o Grande e Júlio César; a matéria de Bretanha, ou ciclo arturiano, é ambientada na Grã-Bretanha e na (pequena) Bretanha da Idade Média inicial e narra os feitos do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda; a matéria de França, ou ciclo carolíngio, é ambientada na Europa alto-medieval e narra os feitos de Carlos Magno e dos seus paladinos. Os textos faziam tanto sucesso que o gênero recebeu o nome da própria língua em que eram compostos: romance (de romanice, por oposição a latine, a língua culta). A matéria de Bretanha foi especialmente apreciada no ocidente ibérico, já que remanescem traduções para o português do José de Arimateia, de fragmentos do Merlim e da Demanda do Santo Graal, todos componentes da chamada pós-vulgata dos romances arturianos, e de fragmentos do Livro de Tristão para o galego.

Na verdade, essas matérias continuam a satisfazer as nossas necessidades por boas estórias. A diferença é que ninguém compõe mais dez mil versos, mas usa da tecnologia atual para produzir obras audiovisuais: qualquer um que goste do gênero lembra do Aquiles interpretado por Brad Pitt (Troia, 2014) ou do Alexandre o Grande por Colin Farrell (Alexandre, 2004), sem falar das várias produções de tema arturiano. E ainda que a matéria de França tenha caducado no gosto contemporâneo, o seu lugar foi ocupado, a meu ver, pelo que bem mereceria a qualificação de "matéria de Jerusalém", isto é, a afeição às cruzadas. A propósito, em 2005 estreou um filme que no Brasil ganhou precisamente o título de Cruzada (o original é Kingdom of Heaven): é ambientado no Cerco de Jerusalém e Orlando Bloom interpreta Balião de Ibelin. Durante a cena que transcorre no porto de Messina, veem-se muitas bandeiras heráldicas, inclusive a real de Castela e Leão. Embora a cena tenha ficado bonita, em 1187 não havia armas compostas de Castela e Leão, porque o célebre esquartelado foi criado em 1230. Ainda que houvesse, os príncipes cristãos espanhóis não participavam das cruzadas na Terra Santa porque já lutavam as suas próprias contra o domínio muçulmano na península.

Ora, se hoje em dia, mesmo dispondo de recursos para evitar gritantes anacronismos, os produtores dessas estórias tomam certas liberdades para melhor as adaptar ao imaginário do público, muito mais naturalmente fazia-o o autor baixo-medieval ao transformar personagens históricas e literárias de tempos longínquos em perfeitos cavaleiros sob o ideal da época. Tendo, pois, sido cavaleiros perfeitos, era evidente para aquele público que deviam ter possuído brasões. Efetivamente, nos códices em que os tratados de armaria foram copiados não é incomum a reprodução de armoriais e nestes, a inserção de armas imaginárias. O próprio códice BM 3711, cuja cópia estou editando e traduzindo, é concluído por um armorial dos cavaleiros da Távola Redonda. O códice Français 18651, conservado na Bibliothèque nationale de France, contém um armorial geral precedido de dois tratados de armaria, o primeiro uma cópia do Prinsault. No primeiro fólio desse armorial veem-se os brasões seguintes:

Les armes des Trois Rois : Gaspar, Melchior, Balthazar ; un empereur de Constantinoble ; les armes du grand maistre de Rhodes ; les armes d'un empereur de Grèce ; les armes des Neuf Preux : Hector de Troie, le roi Alixandre, Julius César, Josué, le roi David, Judas Maccabeüs, roi Arthus, Charlemagne, Goudefroy de Billon ; Burtrand du Clasquin. (4)

Os Neuf Preux, denominados Nove da Fama em português, condensam a projeção da cavalaria no passado, ao tempo que evidenciam as fontes da erudição e da literatura popular baixo-medievais, sem grande rigor quanto à diferença entre história e ficção: a Antiguidade (os três heróis pagãos: Heitor, Alexandre o Grande e Júlio César), a Bíblia (os três heróis judeus: Josué, Davi e Judas Macabeu) e a alta Idade Média (os três heróis cristãos: Artur, Carlos Magno e Godofredo de Bulhão).

Enfim, a mitificação das origens da heráldica não servia apenas a um projeto de poder, arquitetado pelos arautos, mas também tinha fácil entendimento e convencimento, porque se enquadrava bem na visão de mundo dominante então.

Notas:
(1) As armas que estão iluminadas nesses dois fólios são: Galaad, Tristan de Léonois, le roi Bandemagus de Gorre, Hector des Mares, Brunor le Noir, Lancelot du Lac, Gauvain d'Orcanie, le roi Rions, Bliobléris de Gannes, Agloval de Galles, Perceval de Galles, Lionel de Gannes. Ao contrário do que sugerem as péssimas dublagens brasileiras de produções audiovisuais anglófonas, os nomes das personagens arturianas não só podem ser aportuguesados, mas alguns têm mesmo versões na nossa língua, graças às traduções medievais, como Galaaz, Tristão ou Galvão.
(2) "Tal se depreende do que o divino Júlio César, quando se encontrava junto do Rubicão, na Romanha, disse a todos os seus homens ou seja ao seu exército. Àqueles que de boa e plena vontade não quisessem ficar e avançar consigo para os grandes empreendimentos, lutas e operações que planeava e às quais esperava entregar-se, dizia que se afastassem de si, e deixassem aos outros liberdade para combaterem sem estorvos. Por outro lado, àqueles do seu exército que de coração sincero e constante quisessem ficar e avançar consigo dava uma ordem segundo a qual mandava que quem quer que fosse dos homens do seu exército ostentasse insígnias tais que de forma alguma se assemelhassem umas às outras. Se estas insígnias individuais se diferenciassem plenamente umas das outras também os peitos denodados e valorosos e os atos de valentia e lealdade acabariam por se demarcar dos corações cobardes e mesquinhos e dos feitos menos insignes. Foi então publicamente ordenado que todo aquele que pertencesse a esse exército mandasse escrever, à maneira de letreiro, uma divisa ou insígnias que fossem diferenciadas." (tradução do editor; falei um pouco sobre essa obra na postagem de 14/03)
(3) "São apenas três as matérias para algum homem vivente: / de França, de Bretanha e de Roma, a grande; / dessas três matérias, não há nenhuma semelhante. / Os contos de Bretanha são tão leves e agradáveis / e os de Roma, sábios e de significado instrutivo, / os de França são verdadeiros e a cada dia provados." (tradução minha)
(4)  "As armas dos Três Reis: Gaspar, Melquior, Baltasar; um imperador de Constantinopla; as armas do grão-mestre de Rodes; as armas de um imperador da Grécia; as armas dos Nove da Fama: Heitor de Troia, o rei Alexandre, Júlio César, Josué, o rei Davi, Judas Macabeu, rei Artur, Carlos Magno, Godofredo de Bulhão, Bertrand du Guesclin."