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01/09/24

BRASÃO E DESENHO

Apesar de abstrato, um brasão deve ser cuidado como um bem material.

Um brasão é um artefato. Não certo artefato pintado, esculpido ou tecido. Na verdade, é abstrato. Se a heráldica dependesse da matéria, há muito teria perdido a sua vigência, como tantas outras formas de identificação visual. Com efeito, o tempo tudo consome: as tintas, as pedras, os fios. Para vencê-lo, o brasão deve ser uma ideia, já que as ideias, sim, desconhecem barreiras, ao menos enquanto as lembrarmos.

Como concebemos a nós mesmos e o mundo? Mediante a linguagem verbal. Ora, se alguém desenha um castelo, outrem pode ver aí uma torre. Mas se diz um castelo, até quem não sabe o que seja pode buscar e descobrir que é um edifício fortificado com muros e torres para a defesa de certo lugar. E se o deixa escrito, isso pode perdurar para sempre. Por exemplo, no Chronicon mundi (cap. 74), de Lucas de Tui, lemos que o rei Afonso VIII de Castela foi quem primeiro tomou o castelo por armas ("Iste rex Adefonsus primo castellum armis suis depinxit"), ainda que essa obra remonte ao ano de 1238.

O sucesso do brasão reside, pois, na sua bimodalidade: um texto verbal que se realiza por meio das artes visuais. Trocando em miúdos, é um construto mental, ao qual um pintor, escultor, tecelão ou outro artífice dá existência material ao fabricá-lo conforme a sua arte e estilo. Mais recentemente, também quando um designer o executa em formato eletrônico.

Não obstante a natureza abstrata, um brasão demanda zelo, porque se sofrer desleixo, nem sequer a linguagem escrita o salvará da obliteração e, por conseguinte, da distorção. Por exemplo, ao longo da Idade Moderna os artífices apequenaram tanto as torres dos castelos nas armas reais de Portugal que até o fim da monarquia apareceram e se difundiram cada vez mais reproduções que mostram, de fato, torres com três grandes ameias. Foi na reforma dos símbolos nacionais sob a república que se recobrou a memória dos castelos, profusamente registrada.

Se brasões tão célebres quanto os estatais estão sujeitos ao desgaste, o que se dirá de quaisquer outros menos conhecidos? Faço esta reflexão para abordar dois casos na linha das minhas postagens mais recentes.

Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Seridoense: de azul com uma cruz veirada de vermelho e prata e as armas de Dom José de Medeiros Delgado num escudete sobre tudo.
Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Seridoense: de azul com uma cruz veirada de vermelho e prata e as armas de Dom José de Medeiros Delgado num escudete sobre tudo.

No Rio Grande do Norte, há dois colégios diocesanos. O Santa Luzia, em Mossoró, foi fundado por Dom Adauto de Miranda em 1901, quando o estado ainda estava sob a jurisdição do bispado paraibano. Ele fundou, ainda, o Colégio Santo Antônio em Natal em 1903, mas em 1930 Dom Marcolino Dantas, quarto bispo dessa cidade (depois primeiro arcebispo), o entregou aos Irmãos Maristas. Portanto, o outro colégio diocesano de que falo é o Seridoense, fundado em Caicó por Dom José Delgado, seu primeiro bispo, em 1942.

Armas de Dom José de Medeiros Delgado: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater.
Armas de Dom José de Medeiros Delgado: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater.

Na postagem de 15/04/21, abordei as geniais armas de Dom José de Medeiros Delgado: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater. Ele mesmo as explicou na sua primeira carta pastoral:

Nossas armas são de fácil inteligência. Falam-nos na simbólica linguagem heráldica e litúrgica da vida cristã, que se obtém por meio da água e do Espírito Santo no Sacramento do Batismo, conforme o diálogo de Jesus e Nicodemos, o ensino e a prática da Igreja. As linhas azuis onduladas representam água e a letra grega, que, com uns traços mais, se pareceria a uma pomba voando verticalmente para baixo, significa o Divino Espírito Santo. No Sábado de Aleluia, quando se faz a bênção da água batismal, tomam-se três velas em forma de psi, para representar o Espírito Santo e isso demonstra o uso litúrgico da referida letra grega. [...] O lema completa o expressivo simbolismo litúrgico das armas, recordando, de maneira incisiva e prática, que a obediência é problema de máxima importância na vida cristã. ITA, PATER – SIM, PAI.

Em sua homenagem, o Colégio Diocesano Seridoense (CDS) tomou tais armas por emblema, o que não me parece apropriado, pela forma como o fez: sobre um escudo de prata, debruado de vermelho, pôs inclusivamente os ornamentos externos. Do capelo pendem doze borlas, assinalando a dignidade episcopal, mas Dom Delgado foi depois o quarto arcebispo metropolitano de São Luís (1951–63) e o terceiro de Fortaleza (1963–73). O brasão de um prelado deve ostentar as insígnias da sua última dignidade.

Mas não se trata apenas disso. Se as armas de Dom Delgado figurassem na fachada do colégio, estaríamos diante de uma prática secular: marcariam a obra desse bispo e a propriedade da mitra. Daí ao seu uso pelo próprio instituto, como emblema seu, infelizmente semelha usurpação, porque o brasão é um identificador individual e vale como tal mesmo que o armígero seja uma coletividade.

Marca do Colégio Diocesano Seridoense.
Marca do Colégio Diocesano Seridoense.

Qual é, então, a forma correta de prestar uma homenagem dessa espécie? Depondo os ornamentos externos, transpondo o escudo a uma partição ou transformando-o numa peça, como um escudete ou chefe. Pessoalmente, eu adequaria o brasão do CDS pondo um escudete com as armas de Dom Delgado sobre uma cruz veirada de vermelho e prata em campo de azul, à semelhança das armas diocesanas.

Ainda assim, avulta um problema maior, o que motivou esta postagem: tal como se vê no desenho de que hoje o colégio usa, o ordenamento das armas do homenageado caiu no esquecimento. Não se traçaram faixas ondadas, mas retilíneas e assimétricas; o padrão entrecambado tem defeitos que dificultam a percepção do psi; a troca da cruz episcopal por um bastão atinge o nível do surpreendente.

Como se terá chegado a isso? É provável que em vez de se redesenharem quatro faixas ondadas de prata em campo de azul e um Ψ de um para o outro (um construto abstrato, mas estável), se tenham sucessivamente copiado desenhos (objetos concretos, porém passíveis de equívoco e imperícia).

Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Santa Luzia: de azul com uma tocha de ouro, acesa ao natural, entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra, ambos de prata.
Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Santa Luzia: de azul com uma tocha de ouro, acesa ao natural, entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra, ambos de prata.

Enfim, o Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL) possui um bom emblema, como eu disse na postagem de 28/08: uma tocha acesa entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra. É verdade que letras iniciais não são de ótima heráldica, mas a virtude desse brasão está na sua singeleza: uma figura principal, que simboliza o conhecimento, em campo inteiriço. Todavia, passou por uma "logotipação" perigosa: reduziram-se as cores às da escola — azul e branco — e, a depender do tamanho e da distância, mal se distinguem os contornos estilizados da tocha. É por isso que não ouso brasonar os esmaltes. As fotos de perfil no Facebook até 2013 sugerem uma pintura ao natural, mais comprometida com o estilo gráfico então vigente do que com o código heráldico.

Emblema do Colégio Diocesano Santa Luzia.
Emblema do Colégio Diocesano Santa Luzia.

O ponto é que heráldica e desenho não se contrapõem; completam-se. Como eu disse, o brasão precisa de algum desenho para ganhar existência material. Neste sentido, o design gráfico é apenas um avanço tecnológico, como outrora o foram a iluminura e a gravura (xilo-, calco-, lito-, seri-, offset etc.).

Não é a primeira vez que aponto tudo isto. Em agosto de 2021, procurei analisar — sempre sob a perspectiva heráldica — diferentes trabalhos gráficos que aproximam certos brasões a uma marca (Grã-BretanhaPaís Basco, Castela e Leão, Galiza, Recife e Fortaleza). Agora acresço que atualmente a melhor maneira de uma pessoa jurídica zelar pelas suas armas é integrá-las num sistema de identidade visual. Inclusive, há um gênero discursivo que não só instrui o usuário, mas antes consolida o projeto: o manual de identidade visual. Um bom espécime há de principiar, pois, pelo brasão com os seus metais e cores, conforme o seu ordenamento, e a partir daí expor a marca, estabelecer a sua aplicação e vedar eventuais abusos.

28/08/24

PROPOSTA DE BRASÃO PARA A UNICATÓLICA DO RN

A heráldica tem a capacidade de não só identificar, mas também dizer algo sobre o identificado.

Quando comecei a escrever a postagem antecedente, foi intenção minha propor brasão de armas à UniCatólica do RN, mas ao alcançar o Seminário Santa Teresinha no percurso educacional da mitra mossoroense, percebi que essa casa ainda não dispõe de tal identificador. Senti-me, então, interpelado a fazer uma proposta, depois da qual venho retomar o fio.

Proposta de brasão para a UniCatólica do RN: de azul com uma tocha de prata, acesa de ouro, e uma palma do segundo, passadas em aspa e acompanhadas de três estrelas de seis raios do terceiro; divisa: Crescite in gratia Domini.
Proposta de brasão para a UniCatólica do RN: de azul com uma tocha de prata, acesa de ouro, e uma palma do segundo, passadas em aspa e acompanhadas de três rosas do terceiro; divisa: Crescite in gratia Domini.

Se Mossoró tivesse continuado a depender do comércio que a impulsou desde o sétimo decênio do século XIX, teria definhado, porque a navegação costeira que o abastecia decaiu à medida que outros meios de transporte se desenvolveram. Ao invés disso, o escoamento do algodão sertanejo e do sal marinho através da ferrovia que ligou o porto à cidade em 1915 e adentrou o sertão até Sousa (PB), aonde chegou em 1951, dilatou a prosperidade.

Contudo, a cotonicultura também declinou e a salicultura mecanizou-se. Em resposta, o prefeito Raimundo Soares de Sousa arrojou-se a criar duas instituições de ensino superior: a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM) em 1967 e a Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte (FURRN) no ano seguinte. A União incorporou a ESAM em 1969 e a transformou em Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) em 2005. A FURRN foi incorporada pelo estado em 1987, reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) em 1993 e renomeada Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) em 1999. A elas, somou-se a Unidade de Ensino Descentralizada (UNED) que a Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN) abriu aí em 1994 (Centro Federal de Educação Tecnológica — CEFET-RN — desde 1999), campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN) desde 2008.

O investimento em educação propiciou a Mossoró tornar-se um polo industrial (além da salicultura, sobrevieram a extração de petróleo e a fruticultura irrigada) e prestador de serviços. E ainda que em tempos recentes tenha sofrido, como todo o país, desindustrialização, parece que a transformação em cidade universitária está consolidada, tanto que em 2005 por iniciativa de Dom Mariano Manzana, sexto bispo, com o fito de ampliar o ensino superior na cidade se estatuiu a Fundação Santa Teresinha de Mossoró.

Em 2006, a fundação (depois associação) requereu ao MEC o credenciamento da Faculdade Diocesana de Mossoró (FDM), o que obteve em 2009, mediante a Portaria n.º 584, de 17 de junho. No ano seguinte, a oferta do bacharelado em teologia deu início às atividades acadêmicas. Isso perfez a formação do seminário maior, mas não parou aí. Em 2018, quando assumiu o nome de Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (FCRN), já oferecia oito cursos de graduação e quinze de pós-graduação lato sensuFinalmente, pela Portaria n.º 385, de 22 de abril de 2024, o MEC credenciou o centro universitário Católica do Rio Grande do Norte (UniCatólica do RN) por transformação da FCRN (1). O número de bacharelados subiu a nove e o de especializações, a 31.

Marca da UniCatólica do RN.
Marca da UniCatólica do RN.

Originariamente, a Faculdade Diocesana adotou um emblema "insignoide", isto é, parece um brasão, porque apresenta um escudo, mas não obedece ao código heráldico (cf. o perfil da instituição no Facebook). Depois, procurou-se "heraldizá-lo", mas ainda ficou muito "logotipado": em campo de azul uma cruz adestrada de prata (até aqui, tudo bem; ou talvez ainda se devesse especificar a sua estreiteza)... Mas como descrever as figuras? Uma sombra de livro aberto? Um ichthys? E os não menos estilizados suportes: são ramos de que espécie? Sem dúvida, melhorou muito, mas ainda é um desenho, não um brasão (2).

Apesar da referida melhoria, o emblema atual é inexpressivo e é fácil arguir por quê: uma cruz, um livro e um peixe podem representar qualquer instituto católico ou mesmo qualquer um que se diga cristão, onde quer que seja. Desde a Idade Moderna, o emblema heráldico avantaja outros porque não só identifica alguém, como também é capaz de exprimir algo sobre o identificado. É o desperdício dessa capacidade que causa inexpressão.

Pelo razoado, proponho para a UniCatólica do RN em campo de azul uma tocha de prata, acesa de ouro, e uma palma do segundo, passadas em aspa e acompanhadas de três rosas do terceiro; divisa: Crescite in gratia Domini. Explico.

Proposta de brasão para a UniCatólica do RN com alteração da divisa.
Proposta de brasão para a UniCatólica do RN com alteração da divisa.

Todavia, acho conveniente manter o que pode ser mantido para não impactar demais a identidade visual da instituição. Deixo, pois, o campo de azul e as figuras principais de prata, mas ilumino as secundárias de ouro para evitar a percepção de desenho monocromático sobre fundo branco, que contribui com a aparência "logotipada". Copio, ainda, a divisa (3), embora a julgue demasiado longa para tal: dez sílabas. Teria preferido uma sentença mais breve e que dissesse algo sobre luz, de modo a lembrar Santa Luzia, como Lux vera in mundum ("A luz verdadeira para o mundo", João, 1, 9). Isso, a propósito, resumiria bem a missão da UniCatólica:

Educar para a cidadania, a verdade e a justiça, formando uma consciência mais profunda do sentido do Ser Humano no mundo, à luz dos princípios evangélicos e da ética cristã.

Precisamente por falta de referência à protetora dos mossoroenses e patrona do bispado, decussei uma tocha acesa e uma palma. Duas figuras familiares: a primeira, símbolo do conhecimento, está no brasão do Colégio Diocesano Santa Luzia (4); a segunda, símbolo do martírio, no da diocese. Delineia-se, destarte, uma mensagem: uma casa de educação que de algum modo se vincula a certo santo mártir.

Não obstante, como entre a UniCatólica e o seminário há um laço de família, que o próprio nome da mantenedora patenteia, enxergo no campo espaço bastante para se fazer uma justa alusão a Santa Teresinha. Acrescento, então, três rosas, à semelhança das três estrelas que carregam as armas da Ordem do Carmo (cf. a citada postagem antecedente). Completa-se a mensagem: uma casa de educação que tem vínculos com certo santo mártir e com a santa carmelita das rosas (5).

Por último, não vejo necessidade de timbre nem de suportes. Se um dia o centro universitário se transformar em universidade e vier receber o honroso título de pontifícia, fará jus à tiara por cima do escudo e às chaves sob ele (6). Vegetais ao redor francamente me parecem supérfluos.

Notas:
(1) As organizações acadêmicas das instituições de ensino superior estão estabelecidas pelo Decreto n.º 9.235, de 15 de dezembro de 2017. À diferença da faculdade, o centro universitário, por cumprir certos requisitos quantitativos e qualitativos, goza de autonomia didático-científica.
(2) Um brasão é definido pela possibilidade de ser descrito em linguagem heráldica (o brasonamento), a qual obedece a um conjunto de regras, como uma espécie de gramática.
(3) Trata-se do versículo final da 2.ª Carta de São Pedro (3, 18): "Crescite vero in gratia et in cognitione Domini nostri et Salvatoris Jesu Christi" ("Procurai crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo").
(4) Como se terá percebido, o CDSL possui um emblema razoável e mesmo descritível em linguagem heráldica, mas o desenho usado atualmente pela escola está muito "logotipado": um tocha acesa entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra, tudo de prata (?), em campo de azul (?).
(5) Em 1712, os carmelitas do Convento do Recife assumiram a missão do Apodi, que os jesuítas tinham fundado em 1700. Passaram a assistir a população de toda a ribeira, inclusive na capela da Fazenda Santa Luzia, que deu origem a Mossoró. Se Dom Jaime de Barros Câmara, primeiro bispo, não sabia disso, foi uma feliz coincidência a fundação do seminário sob o patronato de Santa Teresinha, herdado pela mantenedora da UniCatólica.
(6) Poder-se-ia aventar a conveniência de timbrar o escudo com mitra, mas isso não se pratica, porque a natureza jurídica de uma instituição católica de ensino superior é, afinal, civil.

30/11/21

A ARTE HERÁLDICA (IX)

Em tese, o brasão em linguagem verbal, ou brasonamento, basta por si, mas não nos esqueçamos de que a heráldica também é visual.

O que há de ter a prioridade: o brasonamento ou uma reprodução? A resposta parece fácil: o brasonamento, já que as reproduções deveriam, teoricamente, partir dele. Mas já em 1696, o padre Claude-François Ménestrier objeta na sua Nouvelle méthode raisonnée du blason: "l'un des meilleurs avis que je vous puisse donner est de ne recevoir jamais d'armoiries d'aucune maison sans en avoir les figures, parce que autrement vous les renverseriez la plupart si vous en jugiez sur ces descriptions mal énoncées" ("um dos melhores conselhos que lhe possa dar é nunca aceitar as armas de nenhuma casa sem ter as suas figuras, porque de outro modo você desarranjaria a maioria se as julgasse a partir dessas descrições mal enunciadas"; tradução minha). Com efeito, eu diria que um brasonamento duvidoso demanda a consulta da reprodução mais autoritativa que se puder achar. O brasão da UFRN demonstra isto.

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte foi criada por lei estadual em 25 de julho de 1958 com o nome de Universidade do Rio Grande do Norte e foi federalizada pela Lei n.º 3.849, de 18 de dezembro de 1960. A sua reitoria fica em Natal, onde está o campus central, mais os campi de Caicó, Currais Novos, Santa Cruz e a Escola Agrícola de Jundiaí. Oferece 85 cursos de graduação e 118 de pós-graduação stricto sensu, nos quais estavam matriculados 34.569 alunos em 2019. As suas armas são singelas, belas e representativas, mas o ordenamento deixa várias lacunas. Por sorte, no bojo das comemorações do seu sexagésimo aniversário, a instituição interessou-se em abordar essa parte da sua história, publicando um artigo sobre a assunção dessas armas.

O brasão da UFRN foi criado em julho de 1959 por Gustavo Barroso (1888-1959), que é um exemplo do intelectual da sua geração: bacharel em direito, atuava no serviço público e na política e produzia nas diversas humanidades e letras. Portanto, um homem de muitos livros, lidos e escritos, e entre os lidos, seguramente algum de heráldica. Essa leitura pode ter-lhe dado uma base para propor ideias boas nessa seara, mas suspeito de que não se aprofundava além disso, se não leiamos como descreve as armas que nos ocupam:

Escudo elíptico: verde com uma estrela de cinco pontas lançando cinco raios sobre um livro aberto, tudo de ouro; orla de ouro com legenda em verde UNIVERSIDADE DO RIO GRANDE DO NORTE ao alto e a divisa ACCIPIT UT DET em baixo. Apoios: dois ramos ao natural, um de oliveira à direita e um de louro à esquerda. Timbre: uma águia voante de ouro.

Sei que esse texto está perfeitamente compreensível, mas do ponto de vista heráldico  técnico , é um pequeno quebra-cabeças. Para começar, qual a figura principal? A estrela? O livro? Como se nomeia primeiro aquela, parece ser ela, mas conjuntos de figuras não se brasonam de cima para baixo, mas ao contrário. Assim, há um termo para exprimir que uma figura tem outra em cima (rematado) ou logo acima (encimado), mas não há equivalente para a situação logo abaixo. O que se pode indicar é que uma figura tem outra embaixo, como uma cruz alta firmada numa campanha, um castelo assente num penedo, uma árvore plantada num terrado, uma águia pousada sobre uma torre, um leão sustido por um monte. Assim, ao nível verbal, parece que o livro está encimado da estrela, mas isto o moveria para o centro do campo, o que nem se vê no desenho usado atualmente pela universidade nem no provável original. Para mim, a solução é prescindir de figura principal: as duas estão em pé de igualdade, na situação que se brasona como um sobre o outro.

Armas da UFRN: de verde com uma estrela caudata de cinco raios retilíneos de ouro e um livro aberto do mesmo, uma sobre o outro.
Armas da UFRN: de verde com uma estrela caudata de cinco raios retilíneos de ouro e um livro aberto do mesmo, uma sobre o outro.

Depois, ainda ao nível verbal, "uma estrela lançando raios" dá a entender que se trata de uma estrela radiante, termo que se emprega quando saem raios dentre as pontas da estrela, mas o desenho provavelmente original os mostra saindo diretamente dela, para baixo, o que faz uma estrela caudata e vai ao encontro da explicação do autor: "A estrela luminosa recorda a que guiou os Reis Magos a Belém, exprime a nossa tradição cristã e a cidade de Natal, protegida pela Fortaleza dos Reis Magos, sede da Universidade". Nesta perspectiva, a forma da estrela com os raios no desenho oficial atual está incorreta.

Armas da UFRN com a "orla" da descrição original interpretada como uma bordadura.
Armas da UFRN com a "orla" da descrição original interpretada como uma bordadura.

Tudo isto me leva a reproduzir as armas da UFRN como o prezado leitor terá visto mais acima — de verde com uma estrela caudata de cinco raios retilíneos de ouro e um livro aberto do mesmo, uma sobre o outro —, no que terá percebido a omissão da "orla". É o terceiro problema na descrição de Barroso. Ora, uma orla é uma peça que mede um doze avos da largura do escudo e o contorna a uma distância igual do bordo, diferentemente da bordadura, que tem um sexto da largura do escudo e faz o mesmo contorno firmada no bordo. Portanto, o autor escreveu "orla" e desenhou algo que semelha uma bordadura. Se for mesmo essa segunda peça, a qualidade infelizmente cai, porque já não é de ótima heráldica pôr o nome do armígero em listel, muito menos isto mais a divisa numa bordadura.

Desenho provavelmente original do brasão da UFRN.
Desenho provavelmente original do brasão da UFRN (imagem disponível em artigo publicado pela instituição).

Antes de conhecer o texto do autor, eu já intuía que esse elemento não fizesse parte do escudo, mas depois de ler aí que a forma oval visa a "servir de selo e sinete" e que "[se lançou] mão do menor número possível de símbolos e dispondo-os adequadamente, de acordo com o postulado que diz que quanto mais atributos enchem um brasão menos nobre o tornam", convenci-me mais ainda de que consiste de um ornamento externo análogo a um listel, exatamente como no brasão do Conselho de Estado da Espanha.

Desenho do brasão da UFRN usado pela instituição.
Desenho do brasão da UFRN usado pela instituição.

Além de ter alterado a estrela de caudata para radiante, na sua identidade visual vigente a universidade emprega nada menos que catorze matizes de cores. É até compreensível que haja diversos matizes de verde porque os ramos estão brasonados ao natural, mas o que justifica cinco matizes de amarelo, a ponto de o livro semelhar iluminado de sua cor? Como não se trata de dar um efeito de brilho, forçoso é julgar que faltou perícia heráldica aos autores do manual de identidade visual, pois, como sabemos, o artista pode escolher a palheta dos esmaltes, mas deve aplicá-la coerentemente.

Em suma, o brasão da UFRN encerra uma pequena aula de heráldica: patenteia o quanto brasonamento e reprodução dependem um do outro ou, noutras palavras, como a natureza da heráldica é multimodal, verbal e visual.

20/11/21

A ARTE HERÁLDICA (IV)

O heraldista exímio não se limita ao que se repete por aí, pois sabe manejar tanto os recursos tradicionais como as possibilidades de inovação.

Por mais de uma vez, li defesas de uma suposta heráldica americana, que se definiria pela soltura das rigorosas regras europeias. Em grande medida, as postagens deste blog ficam longas porque sempre procuro contextualizar o objeto sobre o qual discorro. Mal de filólogo. Mas vale a pena pelo bem de prevenir um juízo apressado. Por exemplo, antes de censurar o emblema do Cardeal Ramazzini, coloquei que já na primeira metade do século XVI os monarcas espanhóis concediam armas bastante questionáveis às urbes recém-fundadas no Novo Mundo, afinal, para exemplificá-lo com o exemplo daquelas da Cidade da Guatemala, um escudo partido com a imagem de um santo e uma paisagem num campo de esmalte indefinido, mais uma bordadura, anda longe de ser lo mejor del mundo em matéria heráldica. Em última análise, quero ponderar que certos fatos são compreensíveis nos seus contextos, mas daí a jogar a fôrma pela janela para fazer passar um produto mau por bom não dá.

Esse discurso pretensamente nativista poderia fazer sentido se a heráldica fosse um código fechado, mas é aberto. As regras heráldicas nada têm, por si, de europeias. Resultam da capacidade humana de significar, como tantas outras práticas mundo afora, similares em alguma medida, como aquelas denominadas genericamente totens. Europeias são as figuras mais frequentes de objetos e edificações e a própria ideologia subjacente ao bestiário, porque, claro, é um sistema semiótico ocidental, de origem medieval. Mesmo assim, não repele nada fora do seu âmbito original. Em mais uma analogia com os estudos da linguagem, diria que no brasão podem entrar todos os substantivos comuns, mas os substantivos próprios não costumam ser de boa arte. Trocando em miúdos, os baobás são árvores nativas da África subsaariana, de Madagascar e da Austrália. Um baobá pode figurar num brasão tanto quanto um carvalho, como de fato figura um nas armas nacionais do Senegal. O que não se deve fazer é pôr, por exemplo, o baobá do Passeio Público de Fortaleza.

Armas da Universidade Federal do Ceará (UFC): de azul com uma banda bretessada de ouro, carregada de três folhas de carnaúba de verde, postas no sentido da banda.
Armas da Universidade Federal do Ceará (UFC): de azul com uma banda bretessada de ouro, carregada de três folhas de carnaúba de verde, postas no sentido da banda.

Voltando, precisamente, ao mote desta série de postagens, que é Fortaleza, hoje darei mais uma criação do irmão Paulo Lachenmayer. O improvável leitor já sabe que esse nome é sinônimo de ótima qualidade heráldica. Trata-se do brasão da UFC. Nele, o mestre demonstra como do singelo se pode alcançar o engenhoso. Assim, começa com uma banda, que carrega três figuras repetidas. Isso é do mais corriqueiro, especialmente na armaria lusófona. Mas à banda deu um atributo incomum: o bretessado, que se diz da peça cujos bordos estão guarnecidos de ameias, tanto o superior como o inferior. Além disso, a figura repetida é singular: uma folha de carnaúba. Assim, ordenou um escudo de azul com uma banda bretessada de ouro, carregada de três folhas de carnaúba de verde, postas no sentido da banda, ou, como se lê na ata da 176.ª sessão extraordinária do Conselho Universitário, havida em 26 de março de 1965 e citada no Manual de identidade visual da UFC, "de azul, uma banda com bordos denticulados, de ouro, carregada de três folhas de carnaúba, alinhadas em banda, ao natural", o que, praticamente, vem ser o mesmo.

Desenho do brasão da UFC usado pela instituição.
Desenho do brasão da UFC usado pela instituição.

A Universidade Federal do Ceará foi criada em 1954 pela Lei n.º 2.373, de 16 de novembro. A sua reitoria fica em Fortaleza, onde tem três campi (do Benfica, do Pici e do Porangabuçu), mais os campi nas cidades de Crateús, Itapajé, Quixadá, Russas e Sobral. Oferece 86 cursos de graduação e 120 de pós-graduação stricto sensu, nos quais estavam matriculados 29.620 alunos em 2018. Nas suas armas leio que as ameias da banda referem a Fortaleza, o centro da sua atuação, e as folhas de carnaúba, ao Ceará. Parece confirmar essa leitura a coincidência dos esmaltes do campo e da banda com os do campo e da torre nas armas municipais fortalezenses e a curiosa antecipação em décadas à declaração da carnaúba como árvore-símbolo do estado (2004) e à inclusão dela no emblema estadual (2007). Não obstante, sempre se pode fazer uma interpretação alegórica: pelas ameias a construção do conhecimento e pela carnaúba, de que tudo se aproveita, uma espécie de "árvore da vida".

Seja como for, a lição é: o heraldista que domina o sistema não fica, por exemplo, restrito à representação de uma fortificação sempre pela figura de uma, pois sabe que pode guarnecer uma peça de ameias, seja um bordo, o outro ou ambos. Também não se prende ao repertório das figuras mais repetidas, porque sabe inovar dentro das regras.