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07/04/21

COMO SÃO OS BESANTES, AS ARRUELAS, A COTICA, O DENTELADO, O ESPIGUILHADO, AS LISONJAS...

Se a força da heráldica está em imitar a natureza tanto quanto pode, o seu estudo requer uma metodologia bastante acertada.


Do Tratado Prinsault (1444):

L'onziesme chapitre, ouquel est déclaré de quelle façon sont en armes besants, tourteaux, cotice, endenté, engreslé, losanges, fusées, eschaquier, fretté, gémelle, billette, et quelle différence y a entre croix pattée, croix fichée, croix potencée, croix croisée et croix floronnée.

Besants en armes sont ronds et sont de métal. Tourteaux sont plus grands que besants et sont de couleur. Cotice est le tiers meindre que la bande et va en travers, comme la bande. Entre endenté et engreslé y a telle différence, car endenté est plus grand qu'engreslé. Losange est agüe par le haut et par bas et aux deux costés. Fusée est pointue par haut et par bas. Eschaquier est en façon d’eschaquier en quoi on joue aux eschés. Fretté est cotice, l'une au contraire de l'autre. Gémelle est le tiers meindre que la faisse et va par le milieu de l'escu, comme la faisse. Billette est un peu plus longue que large.

La pratique et notice desquelles choses, avecques la différence qui est entre croix pattée, croix fichée, croix potencée, croix croisée (1) et croix floronnée, sera manifesté par les seize figures.

D'azur à six besants d'or.
D'azur à six besants d'or. (2)

D'argent à quatre torteaux d'azur.
D'argent à quatre torteaux d'azur.

D'azur à une cotice d'argent de trois pièces.
D'azur à une cotice d'argent de trois pièces. (3)

D'argent bordé engreslé de gueules.
D'argent bordé engreslé de gueules.

De sable bordé endenté d'argent.
De sable bordé endenté d'argent.

D'or à trois losanges d'azur.
D'or à trois losanges d'azur. (4)

D'argent à cinq fusées d'azur.
D'argent à cinq fusées d'azur. (5)

Eschaqueté d'or et d'azur.
Eschaqueté d'or et d'azur. (6)

D'argent fretté d'azur de six pièces.
D'argent fretté d'azur de six pièces.

D'or à deux gémelles de sable.
D'or à deux gémelles de sable.

De gueules à six billettes d'argent.
De gueules à six billettes d'argent. (7)

D'azur à une croix pattée d'argent.
D'azur à une croix pattée d'argent.

D'argent à trois croix fichées de sable.
D'argent à trois croix fichées de sable.

D'azur à une croix potencée d'or.
D'azur à une croix potencée d'or.

D'argent à une croix croisée de gueules.
D'argent à une croix croisée de gueules.

De sinople à une croix floronnée d'argent.
De sinople à une croix floronnée d'argent.

O décimo primeiro capítulo, em que é esclarecido o jeito como são nas armas os besantes, as arruelas, a cotica, o dentelado, o espiguilhado, as lisonjas, os fusos, o xadrez, o fretado, a gêmea, a bilheta, e que diferença há entre a cruz pátea, a cruz aguçada, a cruz potenteia, a cruz cruzada e a cruz florenciada.

Os besantes nas armas são redondos e são de metal. As arruelas são maiores que os besantes e são de cor. A cotica é um terço menor que a banda e fica atravessada, como a banda. Entre o dentelado e o espiguilhado há tal diferença que o dentelado é maior que o espiguilhado. A lisonja é aguda no alto, em baixo e dos dois lados. O fuso é pontudo em cima e em baixo. O xadrez é à guisa do tabuleiro em que se joga xadrez. O fretado é a cotica, uma ao contrário da outra. A gêmea é um terço menor que a faixa e fica no meio do escudo, como a faixa. A bilheta é um pouco mais longa que larga.

A prática e notícia de tais coisas, com a diferença que há entre a cruz pátea, cruz aguçada, a cruz potenteia, a cruz cruzada (1) e a cruz florenciada, ficarão demonstradas por estas dezesseis figuras:

De azul com seis besantes de ouro.
De azul com seis besantes de ouro.

De prata com quatro arruelas de azul.
De prata com quatro arruelas de azul.

De azul com uma cotica de prata de três peças.
De azul com uma cotica de prata de três peças. (3)

De prata com um debrum espiguilhado de vermelho.
De prata com um debrum espiguilhado de vermelho.

De negro com um debrum dentelado de prata.
De negro com um debrum dentelado de prata.

De ouro com três lisonjas de azul.
De ouro com três lisonjas de azul.

De prata com cinco fusos de azul.
De prata com cinco fusos de azul.

Xadrezado de ouro e azul.
Xadrezado de ouro e azul.

De prata fretado de azul de seis peças.
De prata fretado de azul de seis peças.

De ouro com duas gêmeas de negro.
De ouro com duas gêmeas de negro.

De vermelho com seis bilhetas de prata.

De azul com uma cruz pátea de prata.
De azul com uma cruz pátea de prata.

De prata com três cruzes aguçadas de negro.
De prata com três cruzes aguçadas de negro.

De azul com uma cruz potenteia de ouro.
De azul com uma cruz potenteia de ouro.

De prata com uma cruz cruzada de vermelho.
De prata com uma cruz cruzada de vermelho.

De verde com uma cruz florenciada de prata.
De verde com uma cruz florenciada de prata.

Comentário:

Talvez pela ânsia de não estender o tratado, neste capítulo, o penúltimo, o autor reúne peças e figuras de várias espécies. Assim, o dentelado e o espiguilhado são qualificadores de forma de linha; o xadrezado é uma repartição do campo; a cotica, a gêmea e o fretado são derivações das peças honrosas; a arruela, o besante, a bilheta, o fuso e a lisonja são tidos por peças de terceira ordem; as cruzes formam um conjunto à parte.

I. Qualificadores de forma de linha

Normalmente, a linha que traça uma partição ou o bordo de uma peça é reta, mas pode assumir as mais diversas formas, o que é preciso brasonar. Na heráldica lusófona, os mais frequentes desses qualificadores de forma são:

Ameado: Diz-se da peça ou figura cujo bordo superior está guarnecido de ameias. Fr. crènelé.

Arqueado: Diz-se da partição ou peça que está curvada para o alto. Fr. vouté.

Bastilhado: Diz-se da peça ou figura cujo bordo inferior está guarnecido de ameias. Fr. bastillé.

Bretessado: Diz-se da peça cujos bordos estão guarnecidos de ameias, tanto o superior como o inferior. Fr. bretessé.

Canelado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de semicírculos pequenos e contíguos, com a convexidade para fora. Fr. cannelé.

Colubreado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de ondas, cujo relevo é maior que o ondado. Fr. enté.

Dentelado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de dentes de serra. Fr. denché, dentelé.

Denticulado: Diz-se da bordadura composta por ameias que se firmam nos bordos do campo. Fr. denticulé.

Emalhetado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em ziguezague, formando pontas cujo número é preciso expressar. Fr. émanché.

Encravado: Diz-se da partição que está traçada em forma de ameias. Fr. enclavé.

Espiguilhado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de semicírculos pequenos e contíguos, com a convexidade para dentro. Fr. engrêlé.

Nublado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de entrâncias e reentrâncias onduladas, formando um padrão estilizado de nuvens. Fr. nébulé.

Ondado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de curvas alternadas de pequeno relevo. Fr. ondé.

II. Outras repartições do campo

Na postagem de 04/02, abordei as repartições do campo, que são repetições de certas peças honrosas em número par, de modo que se cria um padrão geométrico de dois esmaltes. O xadrezado nada mais é que uma multiplicação do esquartelado. Na verdade, começa-se pela multiplicação das linhas do esquartelado por dois, do que se obtém o equipolado, ou seja, nove quadriláteros ou pontos alternados, equivalentes exatamente aos pontos do escudo. Na heráldica lusófona, de cinco linhas em diante já se diz xadrezado, embora haja autores que tenham buscado distinções preciosistas por meio dos termos enxequetado e escaqueado, que não passam de sinônimos menos vernáculos de xadrezado (o primeiro do francês échecs e o segundo do provençal escacs, ambos 'xadrez'). Também varia entre os autores qual seja o padrão do xadrezado. Os franceses definem-no de seis peças em faixa e seis em pala, o que dá 36 pontos. Logo, é preciso brasonar qualquer número diferente de pontos.

Além do campo, uma peça ou figura pode estar xadrezada. Para tanto, são necessárias ao menos duas tiras de pontos de xadrez. Apenas uma tira torna a peça composta (fr. componée).

III. Derivações de peças honrosas

No comentário ao quinto capítulo, expus que a maioria das peças honrosas tem uma forma normal e outra diminuta, como a cotica, que é a diminuição da banda. Disso sobressai a faixa, por se distinguirem a diminuição à metade (divisa) e aquela a um terço (faixeta), às quais se somam as gêmeas. Estas consistem em duas faixetas separadas por um espaço igual ao da sua altura ou um pouco maior.

Além disso, desde a postagem de 04/02 sabemos que a maioria dessas peças pode figurar em número, algumas com o nome da sua forma diminuta quando cinco ou mais. De certa maneira, a cruz e a aspa fazem uma exceção: na sua forma normal ou diminuta, são em tudo iguais às demais peças, mas em número não há como multiplicar uma cruz ou aspa sem a soltar dos bordos, de modo que passam a parecer figuras. Contudo, é possível entrelaçar verguetas e burelas ou coticas e travessas, do que se obtêm o gradado e o fretado. Essas duas combinações não deixam de ser multiplicações da cruz e da aspa.

IV. Peças de terceira ordem

Há um conjunto de elementos cujas formas geométricas os tornam semelhantes às peças de primeira e segunda ordem, mas à diferença destas, nem medem um terço da largura do escudo de largura ou altura nem equivalem a uma partição. Alguns autores classificam tais elementos como peças de terceira ordem:

Arruela e besante: Ao contrário do que o autor afirma, a arruela não é maior que o besante, pois ambos são simplesmente círculos, a arruela iluminada de metal e o besante, de cor.

Bilheta: É um retângulo.

Fuso e lisonja: Ambos são losangos, o fuso mais alongado que a lisonja. A lisonja vazia denomina-se macla e a furada, rustre.

A posição ordinária da bilheta, do fuso e da lisonja é em pala, ou seja, o eixo mais longo fica na vertical.

V. Cruzes

A cruz era, certamente, a insígnia mais frequente na Europa ocidental antes do desenvolvimento da heráldica. Integrada na armaria, não só se tornou uma peça muito comum, mas solta dos bordos, ganhou um amplíssimo repertório de formas. Na heráldica lusófona, as mais frequentes são:

Aguçada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em ponta aguda. Fr. aiguisée.

Alçada: Diz-se da cruz firmada nos bordos cuja travessa se acha acima do ordinário. Fr. haussée.

Alta: Diz-se da cruz cuja travessa está acima do meio da haste. À diferença da cruz alçada, que é uma peça, a cruz alta é uma figura. Fr. haute.

Ancorada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de braços de âncora. Fr. ancrée.

Angulada: Diz-se da cruz que tem figuras moventes dos ângulos dos seus braços. Fr. anglée.

De pé aguçado: Diz-se da cruz cuja extremidade inferior acaba em ponta aguda. Fr. fichée.

De Santo Antão: Diz-se da cruz pátea à qual falta a extremidade superior e tem, portanto, forma de T. Fr. béquille ou de saint Antoine.

Do Calvário: Diz-se da cruz alta que está sustida por três degraus. Fr. de Calvaire (8).

Dobre-cruz: Diz-se da cruz patriarcal firmada.

Flor-de-lisada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em pétalas de flor de lis. Fr. fleurdelisée.

Florenciada: É o mesmo que flor-de-lisada.

Gargulada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em cabeças de serpente. Fr. gringolée.

Latina: É o mesmo que alta.

Nodosa: Diz-se da cruz que tem nós semelhantes aos de um tronco podado. Fr. noueuse.

Papal: Diz-se da cruz que tem três travessas, a do meio mais curta que a de baixo e a de cima mais curta que a do meio. Fr. papale.

Pátea: Diz-se da cruz cujas extremidades se alargam como se fossem patas. Esse alargamento pode ser retilíneo ou curvilíneo. Fr. pattée.

Patriarcal: Diz-se da cruz que tem duas travessas, a de cima mais curta. Fr. patriarcale.

Potenteia: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de T. Fr. potencée.

Recruzetada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de cruz. Fr. recroisetée.

Serpentífera: É o mesmo que gargulada.

Solta: Diz-se da cruz que não toca os bordos do escudo. Fr. alésée.

Tau: É o mesmo que cruz de Santo Antão. Fr. tau.

Trilobada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de pétalas de trevo. Fr. tréflée.

Notas:
(1) Atualmente tanto em francês como em português essa cruz denomina-se recroisetée/recruzetada.
(2) O artista alinhou os seis besantes três, três.
(3) Esse brasão contém certa dificuldade, pois três coticas de tamanho ordinário parecem três faixas diminuídas por causa do número; à sua vez, três coticas diminuídas parecem três filetes em banda.
(4) O artista alinhou as três lisonjas em faixa.
(5) O artista alinhou os cincos fusos em faixa.
(6) O artista figurou o xadrezado de cinco peças em faixa e seis em pala.
(7) O artista alinhou as seis bilhetas três, três.
(8) Em francês, é frequente tomar croix de Calvaire por sinônimo de cruz alta ou latina.

26/03/21

NOVE COISAS, CADA UMA DELAS ABRANGE UM TERÇO DO ESCUDO

Na heráldica, há peças e figuras. As peças costumam ser qualificadas de honrosas porque os brasões mais antigos são constituídos delas.


Do Tratado Prinsault (1444):

Le cinquiesme chapitre contient neuf choses, dont chascune desquelles fait le tiers de l'escu, et quand elle est plus petite, c'est devise, et s'y dit en quelle manière l'on doit blasonner chascune d'icelles neuf choses.

Chascune des neuf choses ensuivants, c'est à savoir, chef, pal, bande, faisse, chevron, giron, orle, croix et sautouer, doit tenir la tierce partie de l'escu, et quand elle est plus petite, c'est devise.

Et six desdites neuf choses, c'est à savoir, bande, pal, faisse, chevron, giron et orle, quand sont de plusieurs pièces, se blasonnent à un mot, comme : tel porte d'or à une bande de gueules de six ou sept pièces (1). Et pareillement des autres cinq.

Des croix, chef et sautouer, n'en y a qu'un qui fasse le tiers de l'escu. Toutesfois, se en un escu a plusieurs croix, l'on les doit blasonner selon le nombre qui y est, ainsi que pouez veoir par les figures ensuivants.

D'azur à un chef d'argent.
D'azur à un chef d'argent.

D'or à un pal de sable.
D'or à un pal de sable.

De gueules à une bande d'or.
De gueules à une bande d'or.

D'azur à une faisse d'argent.
D'azur à une faisse d'argent.

De sable à un chevron d'or.
De sable à un chevron d'or.

De sinople à un giron d'argent.
De sinople à un giron d'argent. (2)

De pourpre à un orle d'or.
De pourpre à un orle d'or.

D'argent à une croix d'azur.
D'argent à une croix d'azur.

D'argent à une sautoer de sable.
D'argent à une sautoer de sable.

D'argent à une bande de sable de six pièces.
D'argent à une bande de sable de six pièces. (1)

D'or à un orle de sable de cinq pièces.
D'or à un orle de sable de cinq pièces.

D'argent à une bande de gueules à six croix d'azur.
D'argent à une bande de gueules à six croix d'azur. (3)

O quinto capítulo contém nove coisas, cada uma delas abrange um terço do escudo, e quando é menor, é uma divisa, e diz-se de que modo se deve brasonar cada uma dessas nove coisas.

Cada uma das nove coisas seguintes, a saber, chefe, pala, banda, faixa, asna, girão, orla, cruz e aspa, deve ter um terço do escudo, e quando é menor, é uma divisa.

Seis dessas nove coisas, a saber, banda, pala, faixa, asna, girão e orla, quando são de várias peças, brasonam-se numa só sentença, como: fulano traz de ouro com uma banda de vermelho de seis ou sete peças (1). E similarmente das demais cinco.

Da cruz, do chefe e da asna, quando há apenas um, abrange um terço do escudo. Todavia, se num escudo há várias cruzes, devem-se brasonar segundo o número que há, como você pode ver pelas figuras seguintes.

De azul com um chefe de prata.
De azul com um chefe de prata.

De ouro com uma pala de negro.
De ouro com uma pala de negro.

De vermelho com uma banda de ouro.
De vermelho com uma banda de ouro.

De azul com uma faixa de prata.
De azul com uma faixa de prata.

De negro com uma asna de ouro.
De negro com uma asna de ouro.

De verde com um girão de prata. (2)

De púrpura com uma orla de ouro.
De púrpura com uma orla de ouro.

De prata com uma cruz de azul.
De prata com uma cruz de azul.

De prata com uma asna de negro.
De prata com uma asna de negro.

De prata com uma banda de negro de seis peças.
De prata com uma banda de negro de seis peças. (1)

De ouro com uma orla de negro de cinco peças.
De ouro com uma orla de negro de cinco peças.

De prata com uma banda de vermelho entre seis cruzes de azul.
De prata com uma banda de vermelho entre seis cruzes de azul. (3)

Comentário:

Um aspecto muito interessante de ler os tratados medievais de armaria é como perspectivas singelas lançam luz sobre questões que acabaram assumindo dimensões mais ou menos intricadas. Assim, o presente capítulo aborda nove coisas: acaso não têm nome? Com efeito, um brasão pode ser constituído apenas pelo campo, mas os casos são raros, pois o normal é que esse campo venha carregado de certos elementos. Tais elementos podem ser desenhos geométricos ou de seres e coisas. Em francês, essas categorias são diferençadas pelas palavras pièce e meuble, ou seja, 'peça' e 'móvel', porque os elementos geométricos costumam ficar firmados nos bordos do escudo, ao passo que os referentes a seres e coisas costumam ficar soltos. Em português diz-se peça e figura.

Com frequência, as peças recebem o epíteto de honrosas, porque preponderam nos brasões mais antigos, e são divididas em duas ou três ordens, segundo diferentes autores. A adscrição de algumas peças à primeira ordem ou à segunda tem sido bastante estável, mas a de outras tem vacilado, também a depender do autor. Curiosamente, o nosso agrupa as peças que menciona neste capítulo sob o critério de abrangerem um terço do escudo.

Em primeiro lugar, cabe precisar que essa medida normalmente não refere a um terço da altura, mas sim da largura do escudo. Depois, convém ressalvar que essa convenção não é taxativa, pois é perfeitamente aceitável diminuir um pouco a peça quando a harmonia do conjunto o requere, como uma cruz ou uma aspa cantonada de quatro figuras. Enfim, nem todas as peças mencionadas medem esse terço, como a orla e o girão.

Seja como for, ao designar esses elementos como coisas que abrangem um terço do escudo, o nosso autor pode ter fornecido um critério razoável para a definição do que seja uma peça de primeira ordem. Na postagem de 04/02, expus que a cada uma das quatro linhas que podem partir o campo corresponde uma peça. Cada uma dessas peças mede, efetivamente, um terço da largura do escudo:

  • Ao partido corresponde a pala;
  • ao cortado corresponde a faixa;
  • ao fendido corresponde a banda;
  • ao talhado corresponde a barra;
  • ao esquartelado corresponde a cruz;
  • ao franchado corresponde a aspa.

Além dessas correspondências, a linha do cortado faz mais duas peças que medem esse terço: o chefe e a campanha (ou contrachefe ou ). Ademais, os braços inferiores da aspa formam outra peça que pode ter essa mesma medida: a asna. Para fechar esse rol, o perle, que combina os braços superiores da aspa e a metade inferior da pala. Sob essa perspectiva, bem se poderiam classificar essas dez peças como os componentes da primeira ordem.

Na dita postagem de 04/02, também observei que a pala, a faixa, a banda e a barra tomam outros nomes quando se repetem em número maior que quatro:

  • a pala passa a denominar-se vergueta;
  • a faixa passa a denominar-se burela;
  • a banda passa a denominar-se cotica;
  • a barra passa a denominar-se travessa.

Agora cabe acrescentar que a vergueta, a cotica e a travessa podem igualmente figurar como peça única, mais precisamente como formas diminutas da pala, da banda e da barra. Essa diminuição varia de metade a um terço, segundo o autor. Com efeito, ensina o nosso texto que "cada uma das nove coisas seguintes [...] deve ter um terço do escudo, e quando é menor, é uma divisa", mas atualmente a divisa é a forma diminuta específica da faixa, quando peça única. Em francês, tanto as diminuições da cruz, da aspa e da asna como as do chefe e da campanha também têm nomes próprios: respectivamente estrezflanchis, étaicomble e plaine. Para o português estes podem ser traduzidos como escoracúmulo e planície (ainda assim, talvez asna diminutachefe diminuto e campanha diminuta soem menos forçados), mas as diminuições da cruz e da aspa não costumam ser brasonadas (cruz/aspa de coticas ou de verguetas é um preciosismo francamente dispensável).

Na segunda ordem ficam, então:

  • o escudete, cuja largura equivale normalmente a um terço da do escudo;
  • a bordadura, cuja largura equivale normalmente a um sexto da do escudo;
  • a orla, cuja largura equivale normalmente à metade da bordadura e é separada do bordo do escudo pela mesma medida;
  • o lambel, que se assemelha a um banco, tanto que na heráldica portuguesa também se denomina banco de pinchar, cujo número de pés ou pendentes varia e, por isso, é preciso brasonar;
  • o franco-quartel, que é a partição do esquartelado convertida em peça, normalmente equivalente ao primeiro quartel;
  • o girão, que é a partição do gironado convertida em peça, normalmente equivalente à última, de modo que o lado oposto ao centro do escudo se firma no flanco destro;
  • a pila, que é a partição do calçado convertida em peça, isto é, um triângulo cuja base se firma no chefe;
  • a pira, que é a partição do chapado convertida em peça, isto é, um triângulo cuja base se firma na ponta.

Em francês, há nomes específicos para as reduções da bordadura, da orla e do franco-quartel: respectivamente filière, trécheur e franc-canton. Na nossa língua, diz-se debrum, orleta e franco-cantão, sabendo-se, porém, que, como rareiam nas armarias portuguesa e brasileira, não receberam um tratamento claro dos autores lusófonos.

Em síntese:

 

Peça

Diminuição (½ ou )

Em número

Francês

Português

Francês

Português

Francês

Português

1.ª ordem

chef

chefe

comble

cúmulo

Não há.

pal

pala

vergette

vergueta

pals (≤ 4)
vergettes (≥ 5)

palas (≤ 4)
verguetas (≥ 5)

fasce

faixa

divise

divisa (½)
faixeta ()

fasces (≤ 4)
trangles (5 ou 7)
burèles (6 ou 8)

faixas (≤ 4)
burelas (≥ 5)

bande

banda

cotice

cotica

bandes (≤ 4)
cotices (≥ 5)

bandas (≤ 4)
coticas (≥ 5)

barre

barra

traverse

travessa

barres (≤ 4)
traverses (≥ 5)

bandas (≤ 4)
travessas (≥ 5)

croix

cruz

estrez

Não se brasona.

croisettes

cruzetas

sautoir

aspa

flanchis

Não se brasona.

flanchis

aspas

chevron

asna

étai

escora

chevrons

asnas

champagne

campanha

plaine

planície

Não há.

pairle

perle

Não se brasona.

Não há.

2.ª ordem
écusson
escudete

Não se brasona.

écussons

escudetes

bordure

bordadura

filière

debrum

Não há.

orle

orla

trécheur

orleta

double, triple trécheur etc.

orleta dupla, tripla etc.

lambel
lambel
Não se brasona.
lambels
lambéis
franc-quartier

franco-quartel

franc-canton

franco-cantão

Não há.

pile
pila
Não se brasona.
piles
pilas
pointe
pira
Não se brasona.
pointes
piras
giron

girão

Não se brasona.

girons

girões


Notas:
(1) Atualmente se diria tanto em francês como em português d'argent à six cotices de sable/de prata com seis coticas de negro.
(2) Atualmente, tanto em francês como em português, giron/girão é a peça, ao passo que a partição se denomina gironné/gironado. Além disso, o artista inverteu os esmaltes: no gironado, o primeiro esmalte é o do girão que se firma na destra do chefe.
(3) Atualmente se diria cruzetas e se brasonaria a sua disposição, pela iluminura as da ponta alinhadas em banda.