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01/08/21

POSSÍVEIS CORRESPONDÊNCIAS ENTRE AS CASAS REAL PORTUGUESA E IMPERIAL BRASILEIRA

Ainda que irreais, exercícios são instrutivos e, por isso, acabam esclarecendo a realidade mais do que aparentam.

Depois de todas as postagens desde o dia 24, resta algo desta matéria que possa interessar mais diretamente ao curioso brasileiro?

Em primeiro lugar, da mesma maneira como o direito heráldico português seguiu vigendo no Brasil independente, é possível traçar uma correspondência muito precisa entre a casa soberana da antiga metrópole e a da nova nação:

Casa Real Portuguesa
Heráldica
Casa Imperial Brasileira
Rei de Portugal
Armas do Reino. Coroa real.
Imperador do Brasil
Rainha de Portugal
Escudo partido: no primeiro, as armas do Reino; no segundo, as de seu pai. Coroa real.
Imperatriz do Brasil
Príncipe de Portugal
Príncipe do Brasil (1645-1817)
Príncipe Real (1817-1910)
As armas do Reino; por diferença, um lambel de ouro de três pendentes. Coroa de príncipe.
Príncipe Imperial
Princesa de Portugal
Princesa do Brasil (1645-1817)
Princesa Real (1817-1910)
Escudo partido: no primeiro, as armas do príncipe, seu marido; no segundo, as de seu pai. Coroa de príncipe.
Princesa Imperial
Príncipe da Beira
As armas do Reino; por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três rosas de sua cor, cada uma brocante sobre um pendente. Coronel de infante. Timbre: uma serpe nascente de ouro.
Príncipe do Grão-Pará
Infantes de Portugal
As armas do Reino; por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com escudete quadrado das armas da linhagem materna, brocante sobre um ou mais pendentes da sinistra à destra, segundo a ordem de nascimento: o primeiro, sobre o primeiro pendente; o segundo, sobre o primeiro e o terceiro; o terceiro, sobre os três; o quarto, com dois escudetes sobre o primeiro, e assim sucessivamente. Coronel de infante. Timbre: uma serpe nascente de ouro.
Príncipes do Brasil
Infantas de Portugal
Lisonja partida: se solteira, o primeiro de prata lisa; se casada, com as armas de seu marido; no segundo, as de seu pai. Coronel de infante.
Princesas do Brasil
Filhos, netos e bisnetos dos infantes de Portugal
As armas de seu pai diferençadas.
Filhos, netos e bisnetos dos príncipes do Brasil

Eis os dados históricos. A partir daqui, faça cada um o exercício artístico que quiser, segundo a sua leitura, e submeta-o à crítica, que pode concordar ou apresentar outro ponto de vista. Neste sentido e como mero exercício acadêmico, consideremos a Família Imperial na década de oitenta, quando havia cinco varões e as duas irmãs mais velhas do imperador na linha de sucessão ao trono:

  1. Dom Pedro II (1825-91), imperador do Brasil;
  2. Dona Teresa Cristina de Bourbon (1822-89), imperatriz do Brasil;
  3. Dona Isabel de Bragança (1846-1921), princesa imperial do Brasil e condessa d'Eu, casada com Dom Gastão de Orleans (1842-1922), conde d'Eu e príncipe imperial consorte do Brasil;
  4. Dom Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança (1875-1940), príncipe do Grão-Pará;
  5. Dom Luís de Orleans e Bragança (1878-1920), príncipe do Brasil;
  6. Dom Antônio de Orleans e Bragança (1881-1918), príncipe do Brasil;
  7. Dom Pedro Augusto de Coburgo e Bragança (1866-1934), príncipe do Brasil;
  8. Dom Augusto Leopoldo de Coburgo e Bragança (1867-1922), príncipe do Brasil.
  9. Dona Januária de Bragança (1822-1901), princesa do Brasil e condessa de Aquila, casada com Luís de Bourbon (1824-97), príncipe real das Duas Sicílias e conde de Aquila.
  10. Dona Francisca de Bragança (1824-98), princesa do Brasil e de Joinville, casada com Francisco de Orleans (1818-1900), príncipe de Joinville.
Armas do Império do Brasil: de verde com uma esfera armilar de ouro, atravessada pela cruz da Ordem de Cristo e circulada por uma orla de azul, carregada de vinte estrelas de prata; coroa imperial; suportes: um ramo frutado de cafeeiro e outro florido de tabaco, tudo ao natural, atados pelo laço nacional.
Armas do Império do Brasil: de verde com uma esfera armilar de ouro, atravessada pela cruz da Ordem de Cristo e circulada por uma orla de azul, carregada de vinte estrelas de prata; coroa imperial; suportes: um ramo frutado de cafeeiro e outro florido de tabaco, tudo ao natural, atados pelo laço nacional.

Começamos fácil: o imperador trazia as armas do Império. Não é excessivo enfatizar que este é o único dado histórico, pois mesmo os usos heráldicos da princesa Isabel ostentam essas armas unidas às da Casa de Orleans, à feição de armas de aliança. Com efeito, os testemunhos históricos, como uma escultura que se via no Paço de São Cristóvão (hoje Museu Nacional) e outra que se vê no frontispício do Château d'Eu (hoje Musée Louis-Philippe), demonstram que no Brasil precediam as armas nacionais e na França, as de Orleans.

Armas de Dona Teresa Cristina de Bourbon, imperatriz do Brasil: as armas do Império unidas às do Reino das Duas Sicílias sob a coroa imperial (1).
Armas de Dona Teresa Cristina de Bourbon, imperatriz do Brasil: as armas do Império unidas às do Reino das Duas Sicílias sob a coroa imperial (1).

Fácil também é o caso das armas da imperatriz: um escudo partido, no primeiro as armas do Império e no segundo as de seu pai, Francisco I das Duas Sicílias, isto é, o brasão desse reino, timbrado com a coroa imperial. No entanto, tanto as armas imperiais brasileiras como as reais duossicilianas assentam tão mal num escudo partido  aquelas por conterem figuras circulares, estas por serem complexíssimas  que o arranjo de armas de aliança é melhor opção, como atestado pela medalha comemorativa dessa união, cunhada por Zéphyrin Ferrez em 1843.

Armas putativas de Dona Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes; coroa de príncipe imperial.
Armas putativas de Dona Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes; coroa de príncipe imperial.

Da segunda geração em diante, as coisas ficam menos fáceis, porque o sistema de diferenças foi concebido para os varões, porém a varonia dos Braganças brasileiros se extinguiu precisamente em Pedro II do Brasil. De todo modo, como estamos falando de armas de dignidade, a princesa imperial teria, sem dúvida, trazido as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes.

Armas putativas de Dom Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança, príncipe do Grão-Pará: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três rosas de sua cor, cada uma brocante sobre um pendente; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.
Armas putativas de Dom Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança, príncipe do Grão-Pará: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três rosas de sua cor, cada uma brocante sobre um pendente; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.

Da mesma maneira, o príncipe do Grão-Pará teria trazido as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três rosas de sua cor, cada uma brocante sobre um pendente.

Ao passarmos aos príncipes do Brasil, a dificuldade torna-se incontenível. A regra era sobrepor escudetes das armas maternas aos pendentes do lambel, mas como, se era através das mães que entroncavam na dinastia? Os exemplos históricos demonstram que quando a mãe pertencia à mesma casa, subia-se pelos ramos da sua linhagem até topar com armas distintas de soberania. No caso, as das Duas Sicílias, pela avó materna. O problema é que estas se compunham de várias outras. Para se ter uma ideia, para destrinçá-las seria preciso partir de Fernando III o Santo, que uniu os reinos de Castela e Leão em 1230, e vir até Carlos de Bourbon, que conquistou os reinos de Nápoles e Sicília em 1734 e os legou a Fernando, seu terceiro filho varão, quando ascendeu ao trono espanhol em 1759 com o nome de Carlos III.

Assim, a segunda pergunta é: ter-se-iam simplesmente seguido as precedências dos componentes das armas reais das Duas Sicílias? O problema é que depois do dinástico  o escudete de Bourbon-Anjou sobre o todo (cunhado por Zéphyrin Ferrez na medalha comemorativa do noivado de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina em 1842)  o segundo seria o esquartelado de Castela e Leão, pertencente a um estado que Francisco I não regia, o que podia parecer inapropriado. De fato, de todos os componentes, somente dois eram "nativos": as armas de Aragão-Sicília e as de Anjou-Sicília. Não obstante, podia-se remontar até outras ancestrais. No caso, até a imperatriz Leopoldina de Habsburgo-Lorena, bisavó dos príncipes pela linhagem materna, cuja casa trazia um escudo terciado das armas de Habsburgo, da Áustria e da Lorena.

Armas putativas de Dom Luís de Orleans e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com um escudete quadrado de Aragão-Sicília, brocante sobre o terceiro pendente; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.
Armas putativas de Dom Luís de Orleans e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com um escudete quadrado de Aragão-Sicília, brocante sobre o terceiro pendente; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.

Com base nestes dados, pode-se aventar que o príncipe Dom Luís poderia ter trazido as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com um escudete quadrado de Aragão-Sicília, brocante sobre o terceiro pendente.

Armas putativas de Dom Antônio de Orleans e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com dois escudetes quadrados, o primeiro partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, brocante sobre o primeiro pendente, e o segundo de Aragão-Sicília, sobre o terceiro; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.
Armas putativas de Dom Antônio de Orleans e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com dois escudetes quadrados, o primeiro partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, brocante sobre o primeiro pendente, e o segundo de Aragão-Sicília, sobre o terceiro; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.

O príncipe Dom Antônio poderia ter trazido as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com dois escudetes quadrados, o primeiro partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, brocante sobre o primeiro pendente, e o segundo de Aragão-Sicília, sobre o terceiro.

Armas putativas de Dom Pedro Augusto de Coburgo e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três escudetes quadrados, o primeiro da Áustria, brocante sobre o primeiro pendente, o segundo partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, sobre o segundo, e o terceiro de Aragão-Sicília, sobre o terceiro; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.
Armas putativas de Dom Pedro Augusto de Coburgo e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três escudetes quadrados, o primeiro da Áustria, brocante sobre o primeiro pendente, o segundo partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, sobre o segundo, e o terceiro de Aragão-Sicília, sobre o terceiro; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.

O príncipe Dom Pedro Augusto poderia ter trazido as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três escudetes quadrados, o primeiro da Áustria, brocante sobre o primeiro pendente, o segundo partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, sobre o segundo, e o terceiro de Aragão-Sicília, sobre o terceiro.

Armas putativas de Dom Augusto Leopoldo de Coburgo e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três escudetes quadrados, o primeiro da Lorena, brocante sobre o primeiro pendente, o segundo da Áustria, sobre o segundo, e o terceiro partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, sobre o terceiro; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.
Armas putativas de Dom Augusto Leopoldo de Coburgo e Bragança, príncipe do Brasil: as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três escudetes quadrados, o primeiro da Lorena, brocante sobre o primeiro pendente, o segundo da Áustria, sobre o segundo, e o terceiro partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, sobre o terceiro; coronel de infante; timbre: uma serpe nascente de ouro, armada e lampassada de vermelho.

O príncipe Dom Augusto Leopoldo poderia ter trazido as armas do Império e, por diferença, um lambel de ouro de três pendentes com três escudetes quadrados, o primeiro da Lorena, brocante sobre o primeiro pendente, o segundo da Áustria, sobre o segundo, e o terceiro partido de Anjou-Sicília e Jerusalém, sobre o terceiro.

Armas putativas de Dona Januária de Bragança, princesa do Brasil: lisonja partida, no primeiro as armas médias das Duas Sicílias (2); no segundo, as armas do Império; coronel de infante.
Armas putativas de Dona Januária de Bragança, princesa do Brasil: lisonja partida, no primeiro as armas médias das Duas Sicílias (2); no segundo, as armas do Império; coronel de infante.

A princesa Dona Januária poderia ter trazido uma lisonja partida, no primeiro as armas médias das Duas Sicílias (2); no segundo, as armas do Império.

Armas putativas de Dona Francisca de Bragança, princesa do Brasil: lisonja partida, no primeiro as armas da Casa de Orleans (3); no segundo, as armas do Império; coronel de infante.
Armas putativas de Dona Francisca de Bragança, princesa do Brasil: lisonja partida, no primeiro as armas da Casa de Orleans (3); no segundo, as armas do Império; coronel de infante.

A princesa Dona Francisca poderia ter trazido uma lisonja partida, no primeiro as armas da Casa de Orleans (3); no segundo, as armas do Império.

A dificuldade de compor armas tanto singelas, como as de Orleans, como complexas, como as das Duas Sicílias, numa lisonja partida fica patente. Talvez por isso no século XIX se tenha difundido o arranjo de armas de aliança, geralmente unindo dois escudos ovais.

Quanto às coroas, é de se admitir que a princesa imperial teria timbrado o seu escudo com uma coroa de três diademas visíveis, como se vê noutra medalha cunhada por Zéphyrin Ferrez em 1848, esta alusiva à morte do príncipe imperial Dom Afonso no ano precedente. Obviamente, tal objeto jamais existiu e teria consistido numa figura meramente heráldica. O mesmo se pode dizer sobre o coronel do príncipe do Grão-Pará, dos príncipes e das princesas do Brasil: pelo uso português, teria sido o coronel de infante, do qual sairia a serpe de ouro, inquestionavelmente o timbre da Casa Imperial Brasileira.

Para mim, o mais interessante deste exercício é provar algo que repeti algumas vezes a respeito da heráldica gentilícia: o sistema parecia automático, mas necessitava um operador. Eu mesmo omiti os suportes dos escudos timbrados com o coronel de infante e a serpe por motivação meramente estética. Trocando em miúdos, aplicando o regimento manuelino, são bastantes unívocos os casos das armas da princesa imperial e do príncipe do Grão-Pará, mas o ordenamento daquelas dos príncipes do Brasil é subjetivo: teria cabido ao rei de armas do Império. Daí que ele fosse, precisamente, o juiz da nobreza: havia um direito heráldico bem estabelecido, mas era preciso que uma autoridade o operasse.

Nota:
(1) O Decreto n.º 4.069, de 21 de dezembro de 1816, que definiu as armas e os selos reais das Duas Sicílias, brasona-as assim: "Partito di tre: nel primo grande partito, partito di due e troncato di uno: nel I e nel VI d'oro, a sei gigli d'azzurro, 3, 2, 1 (Farnese); nel II e nel IV di rosso, alla fascia d'argento (Austria); nel III e nel V bandato d'oro e d'azzurro (Borgogna antica); sul tutto uno scudetto d'argento, a cinque scudetti d'azzurro, posti in croce, caricati di cinque bisanti d'argento, messi in decusse, con la bordura di rosso, caricata di sette torri d'oro, aperte d'azzurro (Portogallo). Nel secondo gran partito, troncato di due: nel I inquartato: a) e d) di rosso, al castello d'oro, torricellato di tre pezzi, merlato alla guelfa, aperto e finestrato d'azzurro (Castiglia); b) e c) d'argento, al leone di rosso, coronato d'oro (León); innestato in punta d'argento, alla melagranata di rosso, stelata e fogliata di verde (Granata); nel II di rosso, alla fascia d'argento (Austria); nel III troncato: a) tagliato centrato: nel 1.º bandato d'oro e d'azzurro, alla bordura di rosso (Borgogna antica); nel 2.º d'oro, al leone di nero, linguato di rosso (Fiandra); b) d'azzurro, seminato di gigli d'oro, al lambello di rosso a cinque pendenti (d'Angiò antico o Napoli). Nel terzo gran partito, troncato di due: nel I partito: a) d'oro, a quattro pali di rosso (Aragona); b) inquartato in decusse: nel 1.º e nel 4.º d'oro, a quattro pali di rosso; nel 2.º e nel 3.º d'argento, all'aquila spiegata e coronata di nero (Aragona-Sicilia); nel II d'azzurro, seminato di gigli d'oro, alla bordura composta di rosso e d'argento (Borgogna moderna); nel III troncato: a) trinciato centrato: nel 1.º di nero, al leone d'oro, linguato di rosso (Brabante); nel 2.º d'argento, all'aquila al volo spiegato di rosso, membrata, imbeccata e coronata d'oro, legata a trifoglio dello stesso, posta in banda (Tirolo); b) d'argento, alla croce potenziata d'oro, accantonata da quattro crocette dello stesso (Gerusalemme). Nel quarto ed ultimo gran partito: d'oro, a cinque palle di rosso, poste in cinta, accompagnate da un'altra d'azzurro, caricata di tre gigli d'oro, 2, 1 (Medici). Sul tutto d'azzurro, a tre gigli d'oro, 2, 1, alla bordura di rosso (Borbone-Angiò)" ("Partido de três: no primeiro grande partido, partido de dois e cortado de um: no I e no VI de ouro com seis flores de lis de azul, 3, 2, 1 (Farnésio); no II e no IV de vermelho com uma faixa de prata (Áustria); no III e no V bandado de ouro e de azul (Borgonha antiga); sobre o todo um escudete de prata com cinco escudetes de azul, postos em cruz, carregados de cinco besantes de prata, postos em aspa, e uma bordadura de vermelho, carregada de sete torres de ouro, abertas de azul (Portugal). No segundo grande partido, cortado de dois: no I esquartelado: a) e d) de vermelho com um castelo de ouro, torreado de três peças, ameado quadrado, aberto e iluminado de azul (Castela); b) e c) de prata com um leão de vermelho, coroado de ouro (Leão); embutido em ponta de prata com uma romã de vermelho, sustida e folhada de verde (Granada); no II de vermelho com uma faixa de prata (Áustria); no III cortado: a) talhado centrado: no 1.º bandado de ouro e azul com uma bordadura de vermelho (Borgonha antiga); no 2.º de ouro com um leão de negro, lampassado de vermelho (Flandres); b) de azul, semeado de flores de lis de ouro, com um lambel de vermelho de cinco pendentes (d'Anjou antigo ou Nápoles). No terceiro grande partido, cortado de dois: no I partido: a) de ouro com quatro palas de vermelho (Aragão); b) franchado: no 1.º e 4.º de ouro com quatro palas de vermelho; no 2.º e 3.º de prata com uma águia estendida e coroada de negro (Aragão-Sicília); no II de azul, semeado de flores de lis de ouro, com uma bordadura composta de vermelho e de prata (Borgonha moderna); no III cortado: a) fendido centrado: no 1.º de negro com um leão de ouro, lampassado de vermelho (Brabante); no 2.º de prata com uma águia de voo estendido de vermelho, membrada, bicada e coroada de ouro, ligada por um trifólio do mesmo, posta em banda (Tirol); b) de prata com uma cruz potenciada de ouro, acantonada de quatro cruzetas do mesmo (Jerusalém). No quarto e último grande partido: de ouro com cinco arruelas de vermelho, postas em orla, acompanhadas de outra de azul, carregada de três flores de lis de ouro, 2, 1 (Médici). Sobre o todo de azul com três flores de lis de ouro, 2, 1, e uma bordadura de vermelho (Bourbon-Anjou)").
(2) Os príncipes das Duas Sicílias traziam uma versão média das armas reais: o primeiro de azul, semeado de flores de lis de ouro, com um lambel de vermelho de três pendentes (Anjou-Sicília); o segundo partido, o primeiro de vermelho com um castelo de ouro, lavrado de negro, aberto e iluminado de azul, e o segundo de prata, com um leão de púrpura, armado e lampassado de vermelho, coroado de ouro (Castela e Leão); o terceiro franchado, o primeiro e quarto de ouro com quatro palas de vermelho; o segundo e terceiro de prata com uma águia abatida de negro, bicada, linguada e membrada de vermelho (Aragão-Sicília); o quarto de ouro com três flores de lis de azul, postas três, duas, uma (Farnésio); o quinto de prata com uma cruz potenteia de ouro, cantonada de quatro cruzetas do mesmo (Jerusalém); o sexto de ouro com seis arruelas, postas em orla, cinco de vermelho e a do chefe de azul, carregada de três flores de lis de ouro (Médici); sobre o todo, de azul com três flores de lis de ouro e uma bordadura de vermelho (Bourbon-Anjou).
(3) De azul com três flores de lis de ouro e um lambel de três pendentes de prata.

07/04/21

COMO SÃO OS BESANTES, AS ARRUELAS, A COTICA, O DENTELADO, O ESPIGUILHADO, AS LISONJAS...

Se a força da heráldica está em imitar a natureza tanto quanto pode, o seu estudo requer uma metodologia bastante acertada.


Do Tratado Prinsault (1444):

L'onziesme chapitre, ouquel est déclaré de quelle façon sont en armes besants, tourteaux, cotice, endenté, engreslé, losanges, fusées, eschaquier, fretté, gémelle, billette, et quelle différence y a entre croix pattée, croix fichée, croix potencée, croix croisée et croix floronnée.

Besants en armes sont ronds et sont de métal. Tourteaux sont plus grands que besants et sont de couleur. Cotice est le tiers meindre que la bande et va en travers, comme la bande. Entre endenté et engreslé y a telle différence, car endenté est plus grand qu'engreslé. Losange est agüe par le haut et par bas et aux deux costés. Fusée est pointue par haut et par bas. Eschaquier est en façon d’eschaquier en quoi on joue aux eschés. Fretté est cotice, l'une au contraire de l'autre. Gémelle est le tiers meindre que la faisse et va par le milieu de l'escu, comme la faisse. Billette est un peu plus longue que large.

La pratique et notice desquelles choses, avecques la différence qui est entre croix pattée, croix fichée, croix potencée, croix croisée (1) et croix floronnée, sera manifesté par les seize figures.

D'azur à six besants d'or.
D'azur à six besants d'or. (2)

D'argent à quatre torteaux d'azur.
D'argent à quatre torteaux d'azur.

D'azur à une cotice d'argent de trois pièces.
D'azur à une cotice d'argent de trois pièces. (3)

D'argent bordé engreslé de gueules.
D'argent bordé engreslé de gueules.

De sable bordé endenté d'argent.
De sable bordé endenté d'argent.

D'or à trois losanges d'azur.
D'or à trois losanges d'azur. (4)

D'argent à cinq fusées d'azur.
D'argent à cinq fusées d'azur. (5)

Eschaqueté d'or et d'azur.
Eschaqueté d'or et d'azur. (6)

D'argent fretté d'azur de six pièces.
D'argent fretté d'azur de six pièces.

D'or à deux gémelles de sable.
D'or à deux gémelles de sable.

De gueules à six billettes d'argent.
De gueules à six billettes d'argent. (7)

D'azur à une croix pattée d'argent.
D'azur à une croix pattée d'argent.

D'argent à trois croix fichées de sable.
D'argent à trois croix fichées de sable.

D'azur à une croix potencée d'or.
D'azur à une croix potencée d'or.

D'argent à une croix croisée de gueules.
D'argent à une croix croisée de gueules.

De sinople à une croix floronnée d'argent.
De sinople à une croix floronnée d'argent.

O décimo primeiro capítulo, em que é esclarecido o jeito como são nas armas os besantes, as arruelas, a cotica, o dentelado, o espiguilhado, as lisonjas, os fusos, o xadrez, o fretado, a gêmea, a bilheta, e que diferença há entre a cruz pátea, a cruz aguçada, a cruz potenteia, a cruz cruzada e a cruz florenciada.

Os besantes nas armas são redondos e são de metal. As arruelas são maiores que os besantes e são de cor. A cotica é um terço menor que a banda e fica atravessada, como a banda. Entre o dentelado e o espiguilhado há tal diferença que o dentelado é maior que o espiguilhado. A lisonja é aguda no alto, em baixo e dos dois lados. O fuso é pontudo em cima e em baixo. O xadrez é à guisa do tabuleiro em que se joga xadrez. O fretado é a cotica, uma ao contrário da outra. A gêmea é um terço menor que a faixa e fica no meio do escudo, como a faixa. A bilheta é um pouco mais longa que larga.

A prática e notícia de tais coisas, com a diferença que há entre a cruz pátea, cruz aguçada, a cruz potenteia, a cruz cruzada (1) e a cruz florenciada, ficarão demonstradas por estas dezesseis figuras:

De azul com seis besantes de ouro.
De azul com seis besantes de ouro.

De prata com quatro arruelas de azul.
De prata com quatro arruelas de azul.

De azul com uma cotica de prata de três peças.
De azul com uma cotica de prata de três peças. (3)

De prata com um debrum espiguilhado de vermelho.
De prata com um debrum espiguilhado de vermelho.

De negro com um debrum dentelado de prata.
De negro com um debrum dentelado de prata.

De ouro com três lisonjas de azul.
De ouro com três lisonjas de azul.

De prata com cinco fusos de azul.
De prata com cinco fusos de azul.

Xadrezado de ouro e azul.
Xadrezado de ouro e azul.

De prata fretado de azul de seis peças.
De prata fretado de azul de seis peças.

De ouro com duas gêmeas de negro.
De ouro com duas gêmeas de negro.

De vermelho com seis bilhetas de prata.

De azul com uma cruz pátea de prata.
De azul com uma cruz pátea de prata.

De prata com três cruzes aguçadas de negro.
De prata com três cruzes aguçadas de negro.

De azul com uma cruz potenteia de ouro.
De azul com uma cruz potenteia de ouro.

De prata com uma cruz cruzada de vermelho.
De prata com uma cruz cruzada de vermelho.

De verde com uma cruz florenciada de prata.
De verde com uma cruz florenciada de prata.

Comentário:

Talvez pela ânsia de não estender o tratado, neste capítulo, o penúltimo, o autor reúne peças e figuras de várias espécies. Assim, o dentelado e o espiguilhado são qualificadores de forma de linha; o xadrezado é uma repartição do campo; a cotica, a gêmea e o fretado são derivações das peças honrosas; a arruela, o besante, a bilheta, o fuso e a lisonja são tidos por peças de terceira ordem; as cruzes formam um conjunto à parte.

I. Qualificadores de forma de linha

Normalmente, a linha que traça uma partição ou o bordo de uma peça é reta, mas pode assumir as mais diversas formas, o que é preciso brasonar. Na heráldica lusófona, os mais frequentes desses qualificadores de forma são:

Ameado: Diz-se da peça ou figura cujo bordo superior está guarnecido de ameias. Fr. crènelé.

Arqueado: Diz-se da partição ou peça que está curvada para o alto. Fr. vouté.

Bastilhado: Diz-se da peça ou figura cujo bordo inferior está guarnecido de ameias. Fr. bastillé.

Bretessado: Diz-se da peça cujos bordos estão guarnecidos de ameias, tanto o superior como o inferior. Fr. bretessé.

Canelado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de semicírculos pequenos e contíguos, com a convexidade para fora. Fr. cannelé.

Colubreado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de ondas, cujo relevo é maior que o ondado. Fr. enté.

Dentelado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de dentes de serra. Fr. denché, dentelé.

Denticulado: Diz-se da bordadura composta por ameias que se firmam nos bordos do campo. Fr. denticulé.

Emalhetado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em ziguezague, formando pontas cujo número é preciso expressar. Fr. émanché.

Encravado: Diz-se da partição que está traçada em forma de ameias. Fr. enclavé.

Espiguilhado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de semicírculos pequenos e contíguos, com a convexidade para dentro. Fr. engrêlé.

Nublado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de entrâncias e reentrâncias onduladas, formando um padrão estilizado de nuvens. Fr. nébulé.

Ondado: Diz-se da partição ou peça que está traçada em forma de curvas alternadas de pequeno relevo. Fr. ondé.

II. Outras repartições do campo

Na postagem de 04/02, abordei as repartições do campo, que são repetições de certas peças honrosas em número par, de modo que se cria um padrão geométrico de dois esmaltes. O xadrezado nada mais é que uma multiplicação do esquartelado. Na verdade, começa-se pela multiplicação das linhas do esquartelado por dois, do que se obtém o equipolado, ou seja, nove quadriláteros ou pontos alternados, equivalentes exatamente aos pontos do escudo. Na heráldica lusófona, de cinco linhas em diante já se diz xadrezado, embora haja autores que tenham buscado distinções preciosistas por meio dos termos enxequetado e escaqueado, que não passam de sinônimos menos vernáculos de xadrezado (o primeiro do francês échecs e o segundo do provençal escacs, ambos 'xadrez'). Também varia entre os autores qual seja o padrão do xadrezado. Os franceses definem-no de seis peças em faixa e seis em pala, o que dá 36 pontos. Logo, é preciso brasonar qualquer número diferente de pontos.

Além do campo, uma peça ou figura pode estar xadrezada. Para tanto, são necessárias ao menos duas tiras de pontos de xadrez. Apenas uma tira torna a peça composta (fr. componée).

III. Derivações de peças honrosas

No comentário ao quinto capítulo, expus que a maioria das peças honrosas tem uma forma normal e outra diminuta, como a cotica, que é a diminuição da banda. Disso sobressai a faixa, por se distinguirem a diminuição à metade (divisa) e aquela a um terço (faixeta), às quais se somam as gêmeas. Estas consistem em duas faixetas separadas por um espaço igual ao da sua altura ou um pouco maior.

Além disso, desde a postagem de 04/02 sabemos que a maioria dessas peças pode figurar em número, algumas com o nome da sua forma diminuta quando cinco ou mais. De certa maneira, a cruz e a aspa fazem uma exceção: na sua forma normal ou diminuta, são em tudo iguais às demais peças, mas em número não há como multiplicar uma cruz ou aspa sem a soltar dos bordos, de modo que passam a parecer figuras. Contudo, é possível entrelaçar verguetas e burelas ou coticas e travessas, do que se obtêm o gradado e o fretado. Essas duas combinações não deixam de ser multiplicações da cruz e da aspa.

IV. Peças de terceira ordem

Há um conjunto de elementos cujas formas geométricas os tornam semelhantes às peças de primeira e segunda ordem, mas à diferença destas, nem medem um terço da largura do escudo de largura ou altura nem equivalem a uma partição. Alguns autores classificam tais elementos como peças de terceira ordem:

Arruela e besante: Ao contrário do que o autor afirma, a arruela não é maior que o besante, pois ambos são simplesmente círculos, a arruela iluminada de metal e o besante, de cor.

Bilheta: É um retângulo.

Fuso e lisonja: Ambos são losangos, o fuso mais alongado que a lisonja. A lisonja vazia denomina-se macla e a furada, rustre.

A posição ordinária da bilheta, do fuso e da lisonja é em pala, ou seja, o eixo mais longo fica na vertical.

V. Cruzes

A cruz era, certamente, a insígnia mais frequente na Europa ocidental antes do desenvolvimento da heráldica. Integrada na armaria, não só se tornou uma peça muito comum, mas solta dos bordos, ganhou um amplíssimo repertório de formas. Na heráldica lusófona, as mais frequentes são:

Aguçada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em ponta aguda. Fr. aiguisée.

Alçada: Diz-se da cruz firmada nos bordos cuja travessa se acha acima do ordinário. Fr. haussée.

Alta: Diz-se da cruz cuja travessa está acima do meio da haste. À diferença da cruz alçada, que é uma peça, a cruz alta é uma figura. Fr. haute.

Ancorada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de braços de âncora. Fr. ancrée.

Angulada: Diz-se da cruz que tem figuras moventes dos ângulos dos seus braços. Fr. anglée.

De pé aguçado: Diz-se da cruz cuja extremidade inferior acaba em ponta aguda. Fr. fichée.

De Santo Antão: Diz-se da cruz pátea à qual falta a extremidade superior e tem, portanto, forma de T. Fr. béquille ou de saint Antoine.

Do Calvário: Diz-se da cruz alta que está sustida por três degraus. Fr. de Calvaire (8).

Dobre-cruz: Diz-se da cruz patriarcal firmada.

Flor-de-lisada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em pétalas de flor de lis. Fr. fleurdelisée.

Florenciada: É o mesmo que flor-de-lisada.

Gargulada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em cabeças de serpente. Fr. gringolée.

Latina: É o mesmo que alta.

Nodosa: Diz-se da cruz que tem nós semelhantes aos de um tronco podado. Fr. noueuse.

Papal: Diz-se da cruz que tem três travessas, a do meio mais curta que a de baixo e a de cima mais curta que a do meio. Fr. papale.

Pátea: Diz-se da cruz cujas extremidades se alargam como se fossem patas. Esse alargamento pode ser retilíneo ou curvilíneo. Fr. pattée.

Patriarcal: Diz-se da cruz que tem duas travessas, a de cima mais curta. Fr. patriarcale.

Potenteia: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de T. Fr. potencée.

Recruzetada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de cruz. Fr. recroisetée.

Serpentífera: É o mesmo que gargulada.

Solta: Diz-se da cruz que não toca os bordos do escudo. Fr. alésée.

Tau: É o mesmo que cruz de Santo Antão. Fr. tau.

Trilobada: Diz-se da cruz cujas extremidades acabam em forma de pétalas de trevo. Fr. tréflée.

Notas:
(1) Atualmente tanto em francês como em português essa cruz denomina-se recroisetée/recruzetada.
(2) O artista alinhou os seis besantes três, três.
(3) Esse brasão contém certa dificuldade, pois três coticas de tamanho ordinário parecem três faixas diminuídas por causa do número; à sua vez, três coticas diminuídas parecem três filetes em banda.
(4) O artista alinhou as três lisonjas em faixa.
(5) O artista alinhou os cincos fusos em faixa.
(6) O artista figurou o xadrezado de cinco peças em faixa e seis em pala.
(7) O artista alinhou as seis bilhetas três, três.
(8) Em francês, é frequente tomar croix de Calvaire por sinônimo de cruz alta ou latina.