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01/09/24

BRASÃO E DESENHO

Apesar de abstrato, um brasão deve ser cuidado como um bem material.

Um brasão é um artefato. Não certo artefato pintado, esculpido ou tecido. Na verdade, é abstrato. Se a heráldica dependesse da matéria, há muito teria perdido a sua vigência, como tantas outras formas de identificação visual. Com efeito, o tempo tudo consome: as tintas, as pedras, os fios. Para vencê-lo, o brasão deve ser uma ideia, já que as ideias, sim, desconhecem barreiras, ao menos enquanto as lembrarmos.

Como concebemos a nós mesmos e o mundo? Mediante a linguagem verbal. Ora, se alguém desenha um castelo, outrem pode ver aí uma torre. Mas se diz um castelo, até quem não sabe o que seja pode buscar e descobrir que é um edifício fortificado com muros e torres para a defesa de certo lugar. E se o deixa escrito, isso pode perdurar para sempre. Por exemplo, no Chronicon mundi (cap. 74), de Lucas de Tui, lemos que o rei Afonso VIII de Castela foi quem primeiro tomou o castelo por armas ("Iste rex Adefonsus primo castellum armis suis depinxit"), ainda que essa obra remonte ao ano de 1238.

O sucesso do brasão reside, pois, na sua bimodalidade: um texto verbal que se realiza por meio das artes visuais. Trocando em miúdos, é um construto mental, ao qual um pintor, escultor, tecelão ou outro artífice dá existência material ao fabricá-lo conforme a sua arte e estilo. Mais recentemente, também quando um designer o executa em formato eletrônico.

Não obstante a natureza abstrata, um brasão demanda zelo, porque se sofrer desleixo, nem sequer a linguagem escrita o salvará da obliteração e, por conseguinte, da distorção. Por exemplo, ao longo da Idade Moderna os artífices apequenaram tanto as torres dos castelos nas armas reais de Portugal que até o fim da monarquia apareceram e se difundiram cada vez mais reproduções que mostram, de fato, torres com três grandes ameias. Foi na reforma dos símbolos nacionais sob a república que se recobrou a memória dos castelos, profusamente registrada.

Se brasões tão célebres quanto os estatais estão sujeitos ao desgaste, o que se dirá de quaisquer outros menos conhecidos? Faço esta reflexão para abordar dois casos na linha das minhas postagens mais recentes.

Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Seridoense: de azul com uma cruz veirada de vermelho e prata e as armas de Dom José de Medeiros Delgado num escudete sobre tudo.
Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Seridoense: de azul com uma cruz veirada de vermelho e prata e as armas de Dom José de Medeiros Delgado num escudete sobre tudo.

No Rio Grande do Norte, há dois colégios diocesanos. O Santa Luzia, em Mossoró, foi fundado por Dom Adauto de Miranda em 1901, quando o estado ainda estava sob a jurisdição do bispado paraibano. Ele fundou, ainda, o Colégio Santo Antônio em Natal em 1903, mas em 1930 Dom Marcolino Dantas, quarto bispo dessa cidade (depois primeiro arcebispo), o entregou aos Irmãos Maristas. Portanto, o outro colégio diocesano de que falo é o Seridoense, fundado em Caicó por Dom José Delgado, seu primeiro bispo, em 1942.

Armas de Dom José de Medeiros Delgado: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater.
Armas de Dom José de Medeiros Delgado: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater.

Na postagem de 15/04/21, abordei as geniais armas de Dom José de Medeiros Delgado: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater. Ele mesmo as explicou na sua primeira carta pastoral:

Nossas armas são de fácil inteligência. Falam-nos na simbólica linguagem heráldica e litúrgica da vida cristã, que se obtém por meio da água e do Espírito Santo no Sacramento do Batismo, conforme o diálogo de Jesus e Nicodemos, o ensino e a prática da Igreja. As linhas azuis onduladas representam água e a letra grega, que, com uns traços mais, se pareceria a uma pomba voando verticalmente para baixo, significa o Divino Espírito Santo. No Sábado de Aleluia, quando se faz a bênção da água batismal, tomam-se três velas em forma de psi, para representar o Espírito Santo e isso demonstra o uso litúrgico da referida letra grega. [...] O lema completa o expressivo simbolismo litúrgico das armas, recordando, de maneira incisiva e prática, que a obediência é problema de máxima importância na vida cristã. ITA, PATER – SIM, PAI.

Em sua homenagem, o Colégio Diocesano Seridoense (CDS) tomou tais armas por emblema, o que não me parece apropriado, pela forma como o fez: sobre um escudo de prata, debruado de vermelho, pôs inclusivamente os ornamentos externos. Do capelo pendem doze borlas, assinalando a dignidade episcopal, mas Dom Delgado foi depois o quarto arcebispo metropolitano de São Luís (1951–63) e o terceiro de Fortaleza (1963–73). O brasão de um prelado deve ostentar as insígnias da sua última dignidade.

Mas não se trata apenas disso. Se as armas de Dom Delgado figurassem na fachada do colégio, estaríamos diante de uma prática secular: marcariam a obra desse bispo e a propriedade da mitra. Daí ao seu uso pelo próprio instituto, como emblema seu, infelizmente semelha usurpação, porque o brasão é um identificador individual e vale como tal mesmo que o armígero seja uma coletividade.

Marca do Colégio Diocesano Seridoense.
Marca do Colégio Diocesano Seridoense.

Qual é, então, a forma correta de prestar uma homenagem dessa espécie? Depondo os ornamentos externos, transpondo o escudo a uma partição ou transformando-o numa peça, como um escudete ou chefe. Pessoalmente, eu adequaria o brasão do CDS pondo um escudete com as armas de Dom Delgado sobre uma cruz veirada de vermelho e prata em campo de azul, à semelhança das armas diocesanas.

Ainda assim, avulta um problema maior, o que motivou esta postagem: tal como se vê no desenho de que hoje o colégio usa, o ordenamento das armas do homenageado caiu no esquecimento. Não se traçaram faixas ondadas, mas retilíneas e assimétricas; o padrão entrecambado tem defeitos que dificultam a percepção do psi; a troca da cruz episcopal por um bastão atinge o nível do surpreendente.

Como se terá chegado a isso? É provável que em vez de se redesenharem quatro faixas ondadas de prata em campo de azul e um Ψ de um para o outro (um construto abstrato, mas estável), se tenham sucessivamente copiado desenhos (objetos concretos, porém passíveis de equívoco e imperícia).

Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Santa Luzia: de azul com uma tocha de ouro, acesa ao natural, entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra, ambos de prata.
Proposta de adequação para o brasão do Colégio Diocesano Santa Luzia: de azul com uma tocha de ouro, acesa ao natural, entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra, ambos de prata.

Enfim, o Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL) possui um bom emblema, como eu disse na postagem de 28/08: uma tocha acesa entre dois monogramas, CD à destra e SL à sinistra. É verdade que letras iniciais não são de ótima heráldica, mas a virtude desse brasão está na sua singeleza: uma figura principal, que simboliza o conhecimento, em campo inteiriço. Todavia, passou por uma "logotipação" perigosa: reduziram-se as cores às da escola — azul e branco — e, a depender do tamanho e da distância, mal se distinguem os contornos estilizados da tocha. É por isso que não ouso brasonar os esmaltes. As fotos de perfil no Facebook até 2013 sugerem uma pintura ao natural, mais comprometida com o estilo gráfico então vigente do que com o código heráldico.

Emblema do Colégio Diocesano Santa Luzia.
Emblema do Colégio Diocesano Santa Luzia.

O ponto é que heráldica e desenho não se contrapõem; completam-se. Como eu disse, o brasão precisa de algum desenho para ganhar existência material. Neste sentido, o design gráfico é apenas um avanço tecnológico, como outrora o foram a iluminura e a gravura (xilo-, calco-, lito-, seri-, offset etc.).

Não é a primeira vez que aponto tudo isto. Em agosto de 2021, procurei analisar — sempre sob a perspectiva heráldica — diferentes trabalhos gráficos que aproximam certos brasões a uma marca (Grã-BretanhaPaís Basco, Castela e Leão, Galiza, Recife e Fortaleza). Agora acresço que atualmente a melhor maneira de uma pessoa jurídica zelar pelas suas armas é integrá-las num sistema de identidade visual. Inclusive, há um gênero discursivo que não só instrui o usuário, mas antes consolida o projeto: o manual de identidade visual. Um bom espécime há de principiar, pois, pelo brasão com os seus metais e cores, conforme o seu ordenamento, e a partir daí expor a marca, estabelecer a sua aplicação e vedar eventuais abusos.

15/04/21

HERÁLDICA ECLESIÁSTICA PESSOAL: ARMAS DE DEVOÇÃO

Na heráldica eclesiástica contemporânea, as armas de devoção tornaram-se majoritárias, algumas delas excelentes.

Se a história desse aos bispos os cognomes que costuma dar aos príncipes, Dom José Delgado certamente mereceria ser chamado de O Educador, pois dificilmente se encontrará nas biografias de outros antístites brasileiros um trabalho em prol da educação tão longo e esforçado quanto o seu.

Dom José de Medeiros Delgado nasceu em 1905 na fazenda Timbaúba, termo de Pombal, hoje dentro do município de Malta. Foi ordenado presbítero em 1929, depois de se ter formado na própria Paraíba, com uma estadia breve em Roma, interrompida por motivo de saúde. Foi ordenado bispo em 1941. O seu pastoreio transcorreu através de quatro ciclos, cada um de mais ou menos um decênio: pároco de Nossa Senhora da Conceição de Campina Grande entre 1931 e 1941, primeiro bispo diocesano de Caicó entre 1941 e 1951, quarto arcebispo metropolitano de São Luís entre 1951 e 1963 e terceiro arcebispo metropolitano de Fortaleza entre 1963 e 1973. Faleceu em 1988 no Recife, onde se retirara, e está sepultado na Igreja de São José, antes capela do Colégio Diocesano Seridoense, em Caicó.

O universo dos estabelecimentos de ensino que fundou por onde passou é verdadeiramente impressionante:

Na verdade, esse legado faz parte de um labor mais amplo, concebido pela visão de que a igreja tinha uma responsabilidade social que transcende o mero ensino, porque havia de se comprometer com o desenvolvimento humano; noutras palavras, a educação como mudança. Com efeito, Dom José Delgado era um visionário: muito antes de se consagrar a expressão doutrina social da igreja, procurava apascentar com maior cuidado a parcela mais magra do rebanho ou mesmo trazer de volta a ovelha desgarrada. Disso sobressai a famigerada venda do paço episcopal à prefeitura de Fortaleza em 1973, hoje a sede desta, quando o destaque deveria recair sobre as três bases que assentou na sua primeira carta pastoral (1941) — vida cristã, paróquia e ação católica —, sobre as quais permaneceu firme até o seu retiro. Afinal, a atualização do Concílio Vaticano II, a repressão da Ditadura Militar e a transformação social da urbanização progressiva demandavam um pastor de sumas virtudes.

Armas de Dom José de Medeiros Delgado, terceiro arcebispo metropolitano de Fortaleza: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater.
Armas de Dom José de Medeiros Delgado, terceiro arcebispo metropolitano de Fortaleza: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater.

No campo heráldico, Dom José Delgado trazia armas muito originais: de azul com quatro faixas ondadas de prata e um Ψ entrecambado; insígnias de arcebispo metropolitano; divisa: Ita Pater. De fato, tão originais que à falta de brasonamento e vendo apenas alguns desenhos, custou-me reconhecer o psi. Talvez por isso estejam tão descaracterizadas na marca do Colégio Diocesano Seridoense. Devo o conhecimento certo do caso ao padre Gleiber Dantas, pároco de São Sebastião de Florânia, graças a uma postagem sua no Instagram. Até então vacilei entre uma interpretação ou outra, chegando a cogitar que se tratasse de um I e um U entrelaçados. Eis mais uma prova, dentre tantas que já se acumularam neste curto blog, de que a heráldica é multimodal — verbal e visual — e de que não se pode ficar dependendo do visual. Segundo o próprio armígero na citada primeira carta pastoral:

Nossas armas são de fácil inteligência. Falam-nos na simbólica linguagem heráldica e litúrgica da vida cristã, que se obtém por meio da água e do Espírito Santo no Sacramento do Batismo, conforme o diálogo de Jesus e Nicodemos, o ensino e a prática da Igreja. As linhas azuis onduladas representam água e a letra grega, que, com uns traços mais, se pareceria a uma pomba voando verticalmente para baixo, significa o Divino Espírito Santo. No Sábado de Aleluia, quando se faz a bênção da água batismal, tomam-se três velas em forma de psi, para representar o Espírito Santo e isso demonstra o uso litúrgico da referida letra grega. [...] O lema completa o expressivo simbolismo litúrgico das armas, recordando, de maneira incisiva e prática, que a obediência é problema de máxima importância na vida cristã. ITA, PATER – SIM, PAI.

Essa letra grega é a inicial da palavra ψυχή (psykhē), que significa 'sopro', 'alma', 'ânimo'. Normalmente, na Septuaginta traduz o hebraico נפש (nefeš) e na Vulgata é traduzida como anima, ao passo que o hebraico רוח (rua) é traduzido como πνεῦμα (pneûma) para o grego e spiritus para o latim, isto é, 'espírito', inclusive o Espírito Santo (Πνεῦμα τò Ἅγιον (Pneûma tò Hágion), Spiritus Sanctus). Seja como for, as razões aduzidas parecem-me perfeitamente aceitáveis.

Marca do Colégio Diocesano Seridoense.
Marca do Colégio Diocesano Seridoense.

O brasão de Dom José Delgado exemplifica um momento interessante da armaria eclesiástica. Efetivamente, ele tinha sobrenomes homófonos de linhagens armoriadas: os Medeiros trazem de vermelho com cinco cabeças de águia de ouro e os Delgados, de vermelho com um limoeiro de verde, frutado e arrancado de ouro, acompanhado à sinistra de um lebréu passante de prata, coleirado de azul e acorrentado de ouro ao tronco. Portanto, podia ter feito alguma composição de armas gentilícias com devocionais, como a do Cardeal Arcoverde, de que tratei na postagem anterior. Ao invés disso, preferiu uma criação nova, puramente devocional. Mais que isso: singela, bela e representativa, portanto de altíssima qualidade heráldica.

Juntamente com a queda da monarquia, caducou a legislação heráldica do Antigo Regime, que tomava o brasão por marca de nobreza e honra. Isso o converteu em assunto privado de cada cidadão e parece ter repercutido na armaria eclesiástica, a qual, de resto, é a única pessoal que permaneceu vigorosa até hoje. Cessadas as práticas sociais que dotavam as armas gentilícias de prestígio, as armas de devoção tornaram-se as escolhas mais razoáveis para os clérigos, de tal modo que vieram fazer-se majoritárias.

Não para aí: o predomínio das armas devocionais levou a outra consequência: cada vez que um bispo novo é ordenado, é preciso criar um brasão novo. Isso pode até parecer interessante para a comunidade heráldica, mas será que dispõe de heraldistas competentes suficientes para essa demanda? Além disso, será que está minimamente difundido entre o clero a conveniência de buscar o serviço de um bom heraldista para ordenar um brasão? A armaria eclesiástica pode continuar vigorosa, mas a julgar pela sua qualidade atual, acho que não e não.