26/09/26

SALVEM A HERÁLDICA ECLESIÁSTICA!

Em meio ao frenesi da inteligência artificial, a heráldica eclesiástica está clamando por prudência e sabedoria.

Pela duração, pela extensão e pela complexidade, a heráldica é provavelmente o sistema semiótico mais exitoso que o homem criou depois da linguagem verbal, se bem que esta seja indistinguível da própria experiência humana enquanto ser que significa.

Em grande medida, o sucesso da heráldica reside no equilíbrio entre a sua rigidez e a capacidade que os seus usuários têm encontrado nela para adaptá-la às mudanças sociais. Assim, a heráldica primitiva — aquela do século XII, militar e feudal — difere bastante da clássica — aquela do século XIV, universal e hereditária. Trazendo a questão à Idade Contemporânea, nem mesmo a heráldica do século XIX se equipara à de hoje.

Precisamente hoje, a heráldica afronta um desafio novo e quiçá o maior da sua história nonicentenária. É natural que os desafios presentes pareçam maiores do que os passados e vencidos, mas um daqueles está na pauta das preocupações mundiais, tanto que o papa Leão XIV resolveu abordá-lo na Magnifica humanitas, a sua primeira e mais recente encíclica: a inteligência artificial (IA), que se tornou inseparável da interação humana por redes sociais em telas eletrônicas.

Armas antigas da Arquidiocesano de Uberaba
Armas antigas da Arquidiocese de Uberaba.

Recentemente, a Arquidiocese de Uberaba, em Minas Gerais, publicou em rede social uma "revitalização" das suas armas. Estas tinham sido criadas por Victor Hugo Carneiro Lopes (falecido em 2014) e assim se brasonam:

De azul com uma cruz solta de pé aguçado de ouro, cantonada por duas estrelas de seis raios do mesmo no primeiro e no segundo e um coração inflamado e gotejante de vermelho, sobreposto ao centro da cruz, e uma campanha cosida de verde, carregada de outra estrela de seis raios de ouro; por timbre, uma mitra; por suportes, uma cruz arquiepiscopal e um báculo em aspa sob o escudo, acrescentados do pálio metropolitano.

Mestre Victor Hugo foi aprendiz do irmão Paulo Lachenmayer (1903–1990), O.S.B., que introduziu no Brasil o costume de dotar as arquidioceses, as dioceses, as abadias e as paróquias de brasões, a começar por aquele que ele criou em meados do século passado para a Arquidiocese do Rio de Janeiro: de vermelho com três flechas enfeixadas de prata. Até então, segundo a herança da armaria portuguesa, somente os clérigos assumiam armas pessoais. Com efeito, o Ir. Paulo vinha renovando a armaria eclesiástica brasileira desde os anos trinta. Depois do Concílio Vaticano I, o clero, sem guia técnica, com frequência tomava por armas pequenos quadros piedosos pouco ou nada heráldicos.

Dentre os prelados para os quais o Ir. Paulo criou brasão de armas, cito os cardeais de Araújo Sales, Brandão Vilela e Agnelo; dentre os arcebispados: São Salvador da Bahia, São Luís do Maranhão e Aparecida. Pinçando as obras de Victor Hugo da mesma maneira: os cardeais de Aviz e Tempesta; as arquidioceses de Belém do Pará, de Fortaleza e de Natal. O etcétera que a Igreja no Brasil deve a esses dois mestres da arte de fazer brasões ("ars exarandorum insignium", como diz a norma da Santa Sé) (1) é longuíssimo: umas três centenas de trabalhos que alcançam o brilhantismo, mas nunca descem abaixo do que seja bom.

Armas novas da Arquidiocese de Uberaba.
Armas novas da Arquidiocese de Uberaba.

À luz destas considerações, faço, pois, um apelo ao clero brasileiro: parem esta insensatez! Digo, a insensatez que tem ocorrido cotidianamente em matéria heráldica, da qual o caso da Arquidiocese de Uberaba é apenas a última gota que enche o copo. Por isso mesmo, assevero que as linhas seguintes não têm nenhum ânimo de ataque a quem quer que seja, afinal sequer conheço os envolvidos. O que se segue são contrapontos técnicos, fundados sobre a parte rígida da heráldica, que juntamente com a capacidade de adaptação social perfaz o seu equilíbrio histórico, como razoei.

Justificação das armas novas da Arquidiocese de Uberaba.
Justificação das armas novas da Arquidiocese de Uberaba.

Em primeiro lugar, não se revitalizam brasões. O verbo revitalizar já soa mal, porque deriva do adjetivo vital e as coisas não têm vida, mas sim os seres vivos. Mesmo como metáfora, na heráldica soa muito mal, já que o brasão não é um artefato, mas se realiza por artefatos. As armas da Arquidiocese de Uberaba não eram o desenho que Victor Hugo traçou, iluminou e entregou ao arcebispo que as encomendara, e sim o texto destacado mais acima em itálico. Trata-se de um conceito e, ao mesmo tempo, de uma instrução técnica. Por ser técnica, é preciso estudar para compreendê-la bem. Quem a compreende bem, pode perfeitamente ver o brasão na sua mente e aqueles que sabem podem desenhá-lo, pintá-lo, esculpi-lo, bordá-lo. A propósito, o desenho original certamente foi acompanhado de um texto semelhante (2), pois tanto Victor Hugo como o Ir. Paulo brasonavam o escudo, apontavam as insígnias e teciam um comentário breve sobre cada brasão que criavam.

Armas antigas e novas da Arquidiocese de Uberaba.
Armas antigas e novas da Arquidiocese de Uberaba.

Portanto, se a Arquidiocese de Uberaba andava insatisfeita com o desenho das suas armas que usava ultimamente, teria bastado encomendar um novo a um desenhista competente. Na verdade, se quisesse ter vários para diferentes aplicações (digamos um para a papelaria, um segundo para a paramentaria e um terceiro para a comunicação social), poderia fazê-lo e faria bem, porque é o que sempre se praticou durante os últimos novecentos anos (3). Para constatar esse fato, basta andar por Roma e observar a heráldica papal: além de variarem as formas das insígnias ao longo do tempo (permanecendo perfeitamente reconhecíveis como tais: a tiara pontifícia e as chaves petrinas), as armas de certo papa variam às vezes no mesmo edifício, porque executadas por diferentes artífices em diferentes matérias e espaços: pedra, madeira, pano. Mas se o leitor preferir um argumento mais próximo, então o convido a fitar as numerosas reproduções das armas do Reino de Portugal e daquelas do Império do Brasil nos centros históricos das nossas cidades antigas, muitas conservadas em igrejas.

Ora, entre as respostas que o reformador de Uberaba dá à pergunta "porque [sic] revitalizar?" está a "padronização histórica". Pelas razões que acabo de aduzir, isso não existe em heráldica! Isso é anti-heráldico! Isso confunde brasão com marca comercial. Uma marca comercial demanda, sim, um padrão que garanta unidade em todas as suas aplicações. Não é possível trocar, por exemplo, o estilo próprio das letras numa marca de refrigerante sem destruir a própria marca. Em heráldica, não importa se o campo está quadrado ou redondo, se o azul está mais claro ou escuro, se a cruz está mais grossa ou mais fina; quem sabe que São João Paulo II trazia em campo de azul uma cruz alçada e adestrada de ouro, cantonada de um M do mesmo no quarto, reconhecerá esse brasão quando o vir.

Armas novas da Arquidiocese de Uberaba.
Armas novas da Arquidiocese de Uberaba.

Depois, é necessário seguir o exemplo do Senhor e falar às claras: no mesmo quadro da publicação, o reformador de Uberaba responde que a "integridade visual" do brasão estava ameaçada pelo avanço da IA e das ferramentas de edição. Já aprendemos que o brasão não tem "integridade visual", e sim um ordenamento abstrato. No brasonamento das armas de São João Paulo II, nada se diz sobre a forma do escudo, nem sobre o matiz dos esmaltes nem sobre a espessura da cruz, mas centralizar essa cruz ou deslocar o M a outro cantão, isso sim estaria errado, porque mudaria o ordenamento. Não obstante, o que devo apontar aqui é a falta de originalidade no desenho apresentado pela Arquidiocese de Uberaba: o Sagrado Coração e o pálio são cópias dos feitos por Victor Hugo, enquanto os ornamentos externos são montagens de elementos disponíveis na Wikimedia Commons. Buscando artigos da Wikipédia sobre algumas arquidioceses brasileiras o leitor comprovará facilmente este apontamento, poupando-me constrangedores cotejos.

Nenhuma obra de arte é inteiramente original, porque nós aprendemos a fazer o que sabemos com outras pessoas, muitas vezes por imitação. O olhar desacostumado não distingue com facilidade o estilo do Ir. Paulo e o do seu aprendiz. Mas como dizia o poeta, "est modus in rebus": há uma medida nas coisas. Não é aceitável que se "arquive" o artefato de um iluminador (a iluminura tornou-se tão rara que soa até estranho, mas, sim, Victor Hugo a dominava) por um produto sem arte com base numa porção de más razões.

Explicação das armas novas da Arquidiocese de Uberaba.
Explicação das armas novas da Arquidiocese de Uberaba.

Assim, explicando "o que mudou", afirma-se que o escudo tem uma "bordadura em ouro", "que remete a Deus que protege e cuida da Igreja Particular". Um brasão não é uma carta de tarô! Beira o exoterismo sair buscando significado para cada mínimo elemento, mas neste caso o elemento sequer faz parte do ordenamento, já que não se trata de uma bordadura (peça que mede ordinariamente um sexto da largura do campo), e sim mero perfil ornamental. Mais claramente, é um enfeite opcional. Se se omitisse, não se incorreria em erro algum; se fosse trocado por uma exuberante cartela barroca, tampouco. Repita comigo, Prezado Leitor: um brasão não é um desenho.

Na verdade, a heráldica nem mesmo impõe que o brasão apresente algum significado (4). Essencialmente, um brasão identifica alguém, seja uma pessoa física ou jurídica, e isso basta. As armas nacionais da Áustria são em campo de vermelho uma faixa de prata. Isso não significa nada nem lhe falta que signifique algo. Hoje, identifica o Estado austríaco entre as nações; outrora, identificou o ducado austríaco dentro do Sacro Império; primitivamente, distinguiu a Casa de Babenberg nas relações feudais com as casas vizinhas.

Voltando à explicação do reformador de Uberaba, curiosamente a respeito da cruz se diz que "remete ao anúncio do Evangelho aos 4 cantos da Arquidiocese" (mais uma leitura exotérica, como se não bastasse ser o próprio sinal dos cristãos), mas não se esclarece por qual razão se mudou a sua forma, antes solta de pé aguçado e agora chã. Sem dúvida, algo moveu Victor Hugo a escolher uma forma impecavelmente correta e louvavelmente distintiva, qualidades apagadas sem porquê.

Ao passarmos às figuras secundárias, é lamentável o quão patente se torna o desconhecimento do reformador: ele enxerga um "campo superior em azul" onde há um campo inteiriço e um "campo inferior em verde" onde há uma peça sobre o campo, chamada campanha, contrachefe ou pé. Além disso, interpreta que a estrela sobre a campanha seja maior por mais um significado exotérico (5), quando o tamanho meramente cumpre a regra de proporção: a figura deve ocupar o máximo espaço sem tocar os bordos do campo ou da carga sob ela. A partir dessa visão errônea, deforma o escudo, alongando-o além da conta. Isso parece, porém, o menor dos problemas, já que a forma do escudo é de fato maleável. Só não se entende por quê, sem motivação em contrário, não se manteve uma das duas medidas clássicas: 5×6 ou 7×8.

Quanto aos ornamentos externos, a mitra é "dourada com 3 cruzes que evocam o tríplice múnus cristão do povo e do bispo: sacerdote, profeta e rei". Caríssimo Leitor, uma mitra é uma mitra! Assim como, para encurtar o que vem por aí, uma cruz arquiepiscopal é uma cruz arquiepiscopal e um báculo é um báculo. Não se trata de tautologia, pois o que vale na vida real também vale na heráldica. Ora, há mitras simples e ornadas e dentre estas tantos ornatos quantos os gostos. Da mesma forma, há báculos dourados, prateados e até de madeira. Apesar da variedade, reconhecemos sem dificuldade essas insígnias quando as vemos por aí. Na heráldica funciona igual, tanto que o mestre e o aprendiz tinham preferências particulares: o Ir. Paulo gostava de ornar singularmente cada mitra num novo brasão, enquanto Victor Hugo engenhou uma série de modelos (6). Mas o reformador de Uberaba justifica a cor branca das ínfulas como se o significado de pureza fosse normativo e um trabalho bom e certo estivesse ruim e errado.

Para acabar, o pior: o listel com o nome da arquidiocese e os anos das ereções em bispado e arcebispado. Por que nos brasões pessoais os clérigos não mostram os seus próprios nomes? Presumo que achem isso um tanto ridículo (e seria!), mas há uma razão técnica e outra histórica. A primeira diz respeito à essência mesma da heráldica: o brasão é um nome visual. Convém lembrar que a heráldica surgiu numa sociedade em que o analfabetismo alcançava até os governantes, de modo que uma pessoa iletrada via certo emblema conhecido e reconhecia quem era o seu portador. A segunda diz respeito à divisa, também dita mote ou lema, que segundo a tradição (oxalá quem tanto fala de tradição obedecesse às boas, ao menos na heráldica!) é a legenda que se pode apor às armas. Isso não veda o uso das armas com o nome próprio, mas novamente a tradição estabelece as combinações apropriadas, como no selo, no cabeçalho do papel timbrado ou, mais recentemente, na marca.

De onde vem, então, a mania de ajuntar listéis onomásticos e cronológicos aos brasões eclesiásticos? É uma contaminação da heráldica municipal, da má heráldica municipal, dado que a boa honra a tradição da divisa, como deve ser. Um exemplo: a Cidade de São Paulo, que brada Non ducor, duco! ('Não sou conduzido, conduzo!'). No fundo, o problema é imitar os piores modelos em vez dos melhores, o que só o estudo e o conhecimento podem afastar.

Os erros do reformador de Uberaba não se esgotam aqui, mas não voltei a escrever neste blog para rebater um a um. Espero, isto sim, que este caso infeliz chame a atenção à necessidade de se levar o assunto a sério, o que comporta duas mudanças de atitude: prudência e sabedoria. Como a heráldica é uma arte e uma ciência, não se deve confiar a criação ou alteração de certas armas a opiniões, mas fundamentá-la sobre a literatura técnica. Como os brasões são realizados por artífices (designers talentosos e competentes são produtores de artefatos eletrônicos), não se deve aproveitar a IA e o acesso a aplicativos de edição para suplantá-los. Eu suponho que nenhum bispo entregaria a elaboração do seu retrato oficial a qualquer um porque todos dispomos de câmera fotográfica no telefone celular.

Com efeito, esta postagem rompe um prolongado silêncio neste blog, que sem a revelação a seguir pareceria uma quietude rabugenta, visto que as postagens antecedentes criticaram exatamente as armas de Leão XIV, tal como inicialmente brasonadas e pintadas. Agora posso revelar que desde meados de 2025 me tenho empenhado num projeto: o Compêndio heráldico para o clero católico. Consiste num manual que percorre a armaria eclesiástica desde a teoria básica até a aplicação, fundado nos tratados referenciais, nas normas eclesiásticas e nos melhores exemplos brasileiros e voltado à Igreja no Brasil. Mas eu mesmo não poderia cometer sozinho tamanha empreita. Conto com dois parceiros: Jalison Vítor da Silva mantém a Officina Insignium, que caminha para se tornar a maior referência profissional do país em heráldica eclesiástica; Gabriel Fleig já se tornou a maior autoridade na obra do Ir. Paulo Lachenmayer, O.S.B., o homem que alçou a armaria eclesiástica brasileira a um patamar que, se convencermos o clero a mirá-lo, nos daremos por bem pagos ainda que não consigamos subir tão alto.  Mas trago o projeto a lume apenas como elemento de seriedade e compromisso. A responsabilidade pelo que está escrito aqui recai por inteiro sobre o redator deste blog.

Autoria das armas novas da Arquidiocese de Uberaba.
Autoria das armas novas da Arquidiocese de Uberaba.

Cabe, enfim, frisar que nem a Igreja nem o Estado brasileiro investe de autoridade heráldica quem quer que seja, nem pessoa física nem jurídica. Desde a instauração da República, a heráldica se tornou assunto privado de cada cidadão que porventura se interesse pela matéria. O irmão Paulo nunca passou de humilde monge na Abadia de São Sebastião da Bahia e o capitão Victor Hugo era um militar discreto. Por isso mesmo, quem lhes encomendava brasão de armas os respeitava em virtude da autoridade imposta pelos seus trabalhos, cuja memória convém sustentar não só para protegê-los contra o vilipêndio, mas também para subsidiar este derradeiro apelo: salvem a heráldica eclesiástica!

Notas:
(1) Instrução Ut sive sollicite, publicada nos Acta Apostolicæ Sedis (1969).
(2) A descrição do brasão na linguagem heráldica chama-se brasonamento. O brasonamento permite variações sintáticas, léxicas e estilísticas, contanto que se chegue ao mesmo resultado.
(3) O problema não consiste, portanto, em adotar desenho-padrão, mas sim em definir critérios de uso. Em vez de reduzir a complexidade dos usos a um só artefato, que irremediavelmente não ficará bem em tudo, elabore-se uma identidade visual.
(4) Ao mesmo tempo, é habitual que brasões, especialmente os criados da Idade Moderna para cá, apresentem significação. A crítica incide sobre o frequente exagero desse aspecto, a ponto de sobrepujar as próprias normas heráldicas.
(5) Pessoalmente, a mim as três estrelas nas armas da Arquidiocese de Uberaba evocam Nossa Senhora do Carmo e a Família Carmelita, mas é necessário conferir no arquivo original o que Victor Hugo aponta a respeito dessas figuras.
(6) Victor Hugo criou um sistema pessoal com base no número de cruzetas: no desenho das armas da Arquidiocese de Salvador, pôs três cruzetas sobre o titulus da mitra, distinguindo-a por ser a Sé primacial do Brasil; nos brasões das demais arquidioceses, a mitra tinha duas cruzetas, uma a cada lado do titulus; nos brasões diocesanos, uma só cruzeta centralizada. A heráldica permite, sim, aos grandes artistas tal liberdade poética. Aquilo que verdadeiramente convém evitar é confundir preferências com regras.

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