Em meio ao frenesi da inteligência artificial, a heráldica eclesiástica está clamando por prudência e sabedoria.
Pela duração, pela extensão e pela complexidade, a heráldica é provavelmente o sistema semiótico mais exitoso que o homem criou depois da linguagem verbal, se bem que esta seja indistinguível da própria experiência humana enquanto ser que significa.
Em grande medida, o sucesso da heráldica reside no equilíbrio entre a sua rigidez e a capacidade que os seus usuários têm encontrado nela para adaptá-la às mudanças sociais. Assim, a heráldica primitiva — aquela do século XII, militar e feudal — difere bastante da clássica — aquela do século XIV, universal e hereditária. Trazendo a questão à Idade Contemporânea, nem mesmo a heráldica do século XIX se equipara à de hoje.
Precisamente hoje, a heráldica afronta um desafio novo e quiçá o maior da sua história nonicentenária. É natural que os desafios presentes pareçam maiores do que os passados e vencidos, mas um daqueles está na pauta das preocupações mundiais, tanto que o papa Leão XIV resolveu abordá-lo na Magnifica humanitas, a sua primeira e mais recente encíclica: a inteligência artificial (IA), que se tornou inseparável da interação humana por redes sociais em telas eletrônicas.
| Armas antigas da Arquidiocese de Uberaba. |
De azul com uma cruz solta de pé aguçado de ouro, cantonada por duas estrelas de seis raios do mesmo no primeiro e no segundo e um coração inflamado e gotejante de vermelho, sobreposto ao centro da cruz, e uma campanha cosida de verde, carregada de outra estrela de seis raios de ouro; por timbre, uma mitra; por suportes, uma cruz arquiepiscopal e um báculo em aspa sob o escudo, acrescentados do pálio metropolitano.
Mestre Victor Hugo foi aprendiz do irmão Paulo Lachenmayer (1903–1990), O.S.B., que introduziu no Brasil o costume de dotar as arquidioceses, as dioceses, as abadias e as paróquias de brasões, a começar por aquele que ele criou em meados do século passado para a Arquidiocese do Rio de Janeiro: de vermelho com três flechas enfeixadas de prata. Até então, segundo a herança da armaria portuguesa, somente os clérigos assumiam armas pessoais. Com efeito, o Ir. Paulo vinha renovando a armaria eclesiástica brasileira desde os anos trinta. Depois do Concílio Vaticano I, o clero, sem guia técnica, com frequência tomava por armas pequenos quadros piedosos pouco ou nada heráldicos.
Dentre os prelados para os quais o Ir. Paulo criou brasão de armas, cito os cardeais de Araújo Sales, Brandão Vilela e Agnelo; dentre os arcebispados: São Salvador da Bahia, São Luís do Maranhão e Aparecida. Pinçando as obras de Victor Hugo da mesma maneira: os cardeais de Aviz e Tempesta; as arquidioceses de Belém do Pará, de Fortaleza e de Natal. O etcétera que a Igreja no Brasil deve a esses dois mestres da arte de fazer brasões ("ars exarandorum insignium", como diz a norma da Santa Sé) (1) é longuíssimo: umas três centenas de trabalhos que alcançam o brilhantismo, mas nunca descem abaixo do que seja bom.
| Armas novas da Arquidiocese de Uberaba. |
| Justificação das armas novas da Arquidiocese de Uberaba. |
| Armas antigas e novas da Arquidiocese de Uberaba. |
Ora, entre as respostas que o reformador de Uberaba dá à pergunta "porque [sic] revitalizar?" está a "padronização histórica". Pelas razões que acabo de aduzir, isso não existe em heráldica! Isso é anti-heráldico! Isso confunde brasão com marca comercial. Uma marca comercial demanda, sim, um padrão que garanta unidade em todas as suas aplicações. Não é possível trocar, por exemplo, o estilo próprio das letras numa marca de refrigerante sem destruir a própria marca. Em heráldica, não importa se o campo está quadrado ou redondo, se o azul está mais claro ou escuro, se a cruz está mais grossa ou mais fina; quem sabe que São João Paulo II trazia em campo de azul uma cruz alçada e adestrada de ouro, cantonada de um M do mesmo no quarto, reconhecerá esse brasão quando o vir.
| Armas novas da Arquidiocese de Uberaba. |
Nenhuma obra de arte é inteiramente original, porque nós aprendemos a fazer o que sabemos com outras pessoas, muitas vezes por imitação. O olhar desacostumado não distingue com facilidade o estilo do Ir. Paulo e o do seu aprendiz. Mas como dizia o poeta, "est modus in rebus": há uma medida nas coisas. Não é aceitável que se "arquive" o artefato de um iluminador (a iluminura tornou-se tão rara que soa até estranho, mas, sim, Victor Hugo a dominava) por um produto sem arte com base numa porção de más razões.
| Explicação das armas novas da Arquidiocese de Uberaba. |
Na verdade, a heráldica nem mesmo impõe que o brasão apresente algum significado (4). Essencialmente, um brasão identifica alguém, seja uma pessoa física ou jurídica, e isso basta. As armas nacionais da Áustria são em campo de vermelho uma faixa de prata. Isso não significa nada nem lhe falta que signifique algo. Hoje, identifica o Estado austríaco entre as nações; outrora, identificou o ducado austríaco dentro do Sacro Império; primitivamente, distinguiu a Casa de Babenberg nas relações feudais com as casas vizinhas.
Voltando à explicação do reformador de Uberaba, curiosamente a respeito da cruz se diz que "remete ao anúncio do Evangelho aos 4 cantos da Arquidiocese" (mais uma leitura exotérica, como se não bastasse ser o próprio sinal dos cristãos), mas não se esclarece por qual razão se mudou a sua forma, antes solta de pé aguçado e agora chã. Sem dúvida, algo moveu Victor Hugo a escolher uma forma impecavelmente correta e louvavelmente distintiva, qualidades apagadas sem porquê.
Ao passarmos às figuras secundárias, é lamentável o quão patente se torna o desconhecimento do reformador: ele enxerga um "campo superior em azul" onde há um campo inteiriço e um "campo inferior em verde" onde há uma peça sobre o campo, chamada campanha, contrachefe ou pé. Além disso, interpreta que a estrela sobre a campanha seja maior por mais um significado exotérico (5), quando o tamanho meramente cumpre a regra de proporção: a figura deve ocupar o máximo espaço sem tocar os bordos do campo ou da carga sob ela. A partir dessa visão errônea, deforma o escudo, alongando-o além da conta. Isso parece, porém, o menor dos problemas, já que a forma do escudo é de fato maleável. Só não se entende por quê, sem motivação em contrário, não se manteve uma das duas medidas clássicas: 5×6 ou 7×8.
Quanto aos ornamentos externos, a mitra é "dourada com 3 cruzes que evocam o tríplice múnus cristão do povo e do bispo: sacerdote, profeta e rei". Caríssimo Leitor, uma mitra é uma mitra! Assim como, para encurtar o que vem por aí, uma cruz arquiepiscopal é uma cruz arquiepiscopal e um báculo é um báculo. Não se trata de tautologia, pois o que vale na vida real também vale na heráldica. Ora, há mitras simples e ornadas e dentre estas tantos ornatos quantos os gostos. Da mesma forma, há báculos dourados, prateados e até de madeira. Apesar da variedade, reconhecemos sem dificuldade essas insígnias quando as vemos por aí. Na heráldica funciona igual, tanto que o mestre e o aprendiz tinham preferências particulares: o Ir. Paulo gostava de ornar singularmente cada mitra num novo brasão, enquanto Victor Hugo engenhou uma série de modelos (6). Mas o reformador de Uberaba justifica a cor branca das ínfulas como se o significado de pureza fosse normativo e um trabalho bom e certo estivesse ruim e errado.
Para acabar, o pior: o listel com o nome da arquidiocese e os anos das ereções em bispado e arcebispado. Por que nos brasões pessoais os clérigos não mostram os seus próprios nomes? Presumo que achem isso um tanto ridículo (e seria!), mas há uma razão técnica e outra histórica. A primeira diz respeito à essência mesma da heráldica: o brasão é um nome visual. Convém lembrar que a heráldica surgiu numa sociedade em que o analfabetismo alcançava até os governantes, de modo que uma pessoa iletrada via certo emblema conhecido e reconhecia quem era o seu portador. A segunda diz respeito à divisa, também dita mote ou lema, que segundo a tradição (oxalá quem tanto fala de tradição obedecesse às boas, ao menos na heráldica!) é a legenda que se pode apor às armas. Isso não veda o uso das armas com o nome próprio, mas novamente a tradição estabelece as combinações apropriadas, como no selo, no cabeçalho do papel timbrado ou, mais recentemente, na marca.
De onde vem, então, a mania de ajuntar listéis onomásticos e cronológicos aos brasões eclesiásticos? É uma contaminação da heráldica municipal, da má heráldica municipal, dado que a boa honra a tradição da divisa, como deve ser. Um exemplo: a Cidade de São Paulo, que brada Non ducor, duco! ('Não sou conduzido, conduzo!'). No fundo, o problema é imitar os piores modelos em vez dos melhores, o que só o estudo e o conhecimento podem afastar.
Os erros do reformador de Uberaba não se esgotam aqui, mas não voltei a escrever neste blog para rebater um a um. Espero, isto sim, que este caso infeliz chame a atenção à necessidade de se levar o assunto a sério, o que comporta duas mudanças de atitude: prudência e sabedoria. Como a heráldica é uma arte e uma ciência, não se deve confiar a criação ou alteração de certas armas a opiniões, mas fundamentá-la sobre a literatura técnica. Como os brasões são realizados por artífices (designers talentosos e competentes são produtores de artefatos eletrônicos), não se deve aproveitar a IA e o acesso a aplicativos de edição para suplantá-los. Eu suponho que nenhum bispo entregaria a elaboração do seu retrato oficial a qualquer um porque todos dispomos de câmera fotográfica no telefone celular.
Com efeito, esta postagem rompe um prolongado silêncio neste blog, que sem a revelação a seguir pareceria uma quietude rabugenta, visto que as postagens antecedentes criticaram exatamente as armas de Leão XIV, tal como inicialmente brasonadas e pintadas. Agora posso revelar que desde meados de 2025 me tenho empenhado num projeto: o Compêndio heráldico para o clero católico. Consiste num manual que percorre a armaria eclesiástica desde a teoria básica até a aplicação, fundado nos tratados referenciais, nas normas eclesiásticas e nos melhores exemplos brasileiros e voltado à Igreja no Brasil. Mas eu mesmo não poderia cometer sozinho tamanha empreita. Conto com dois parceiros: Jalison Vítor da Silva mantém a Officina Insignium, que caminha para se tornar a maior referência profissional do país em heráldica eclesiástica; Gabriel Fleig já se tornou a maior autoridade na obra do Ir. Paulo Lachenmayer, O.S.B., o homem que alçou a armaria eclesiástica brasileira a um patamar que, se convencermos o clero a mirá-lo, nos daremos por bem pagos ainda que não consigamos subir tão alto. Mas trago o projeto a lume apenas como elemento de seriedade e compromisso. A responsabilidade pelo que está escrito aqui recai por inteiro sobre o redator deste blog.
| Autoria das armas novas da Arquidiocese de Uberaba. |
(1) Instrução Ut sive sollicite, publicada nos Acta Apostolicæ Sedis (1969).