21/04/22

A HERÁLDICA E A MORTE (II)

Graças à capacidade de identificar por meio da arte, o brasão foi levado para dentro do próprio lugar do culto divino.

Segundo Laurent Hablot em artigo de 2011, a inversão do escudo em sinal de luto pela morte de um cavaleiro, que mostrei na postagem anterior, foi praticada noutras partes da Europa ocidental. Com efeito, foi na Grã-Bretanha, nos Países Baixos (1) e nas terras de língua alemã que, já durante a Idade Moderna, se usou de outro costume funerário de teor heráldico: a pintura ou escultura das armas do finado sobre uma placa de madeira. Em alemão, essa placa denomina-se Totenschild; em holandês, rouwbord; em francês, obiit; em inglês, hatchment. A palavra alemã quer dizer 'escudo funerário' (literalmente 'escudo de morte') e a holandesa, 'placa funerária'; a francesa é, na verdade, um latinismo: significa faleceu em latim e, por isto, parece conveniente também à nossa língua. Já o termo inglês, tem uma etimologia curiosa.

Totenschild de Jos Schad, falecido aos 26 de abril de 1594. As armas dos Schaden são de ouro com uma águia de negro sem pés, coleirada de uma fita de ouro, esvoaçante para os flancos, aqui bicada do mesmo metal. Conservado no Ulmer Münster, em Ulm, Alemanha (imagem disponível da Wikimedia Commons).
Totenschild de Jos Schad, falecido aos 26 de abril de 1594. As armas dos Schaden são de ouro com uma águia de negro sem pés, coleirada de uma fita de ouro, esvoaçante para os flancos, aqui bicada do mesmo metal. Conservado no Ulmer Münster, em Ulm, Alemanha (imagem disponível da Wikimedia Commons).

Hatchment vem do francês (h)achement, que designava os paquifes e deriva de um cruzamento dos verbos acesmer, pela variante dialetal ache(s)mer, que significava 'adornar', e hacher, que quer dizer 'retalhar' (2). Em inglês, confundiu-se com achievement, também do francês, de achèvement 'acabamento': tanto hatchment como achievement referiam à reprodução completa de certas armas — escudo mais ornamentos externos , mas o primeiro termo acabou especificando o objeto funerário, enquanto o segundo continuou a acepção geral.

Rouwbord de Theodora Antoinette Bodle, falecida aos 15 de dezembro de 1774. As suas armas são esquarteladas: o primeiro e quarto de vermelho com um anjo de sua cor; o segundo e terceiro de azul com três flores de lis de ouro. Conservado no Rijksmuseum (Amsterdã, Holanda), procedente da igreja de Chinsurá, na Índia Holandesa (hoje Chuchura, Índia).
Rouwbord de Theodora Antoinette Bodle, falecida aos 15 de dezembro de 1774. As suas armas são esquarteladas: o primeiro e quarto de vermelho com um anjo de sua cor; o segundo e terceiro de azul com três flores de lis de ouro. Conservado no Rijksmuseum (Amsterdã, Holanda), procedente da igreja de Chinsurá, na Índia Holandesa (hoje Chuchura, Índia).

Além disso, há diferenças notáveis entre as tradições germânicas, neerlandesas e britânicas. Na tradição germânica, a placa é, normalmente, redonda ou circular, o fundo não é necessariamente negro e, como um selo, tem uma borda em que se inscreve um epitáfio. Na neerlandesa e britânica, a placa é quadrada, posta sobre um dos seus vértices (3)(4), de fundo negro, mas aquela é mais singela que esta. Nos Países Baixos, além do brasão, acrescenta-se apenas a data do falecimento, às vezes também a do nascimento, junto aos ângulos do quadro, geralmente em latim (daí a denominação obiit). Na Grã-Bretanha, como é característico da sua heráldica, o conteúdo é mais complexo e regulado, pois além do brasão, o fundo informa o estado conjugal da pessoa ao morrer.

Obiit/rouwbord de Balduíno, rei dos belgas, falecido aos 31 de julho de 1993. As armas reais belgas são de negro com um leão de ouro, armado e lampassado de vermelho. Conservado na Eglise de Saint-Jacques-sur-Coudenberg/Sint-Jacob-op-Koudenbergkerk, Bruxelas, Bélgica (imagem disponível no blog Royalement).
Obiit/rouwbord de Balduíno, rei dos belgas, falecido aos 31 de julho de 1993. As armas reais belgas são de negro com um leão de ouro, armado e lampassado de vermelho. Conservado na Eglise de Saint-Jacques-sur-Coudenberg/Sint-Jacob-op-Koudenbergkerk, Bruxelas, Bélgica (imagem disponível no blog Royalement).

Assim, segundo a Encyclopaedia Britannica, os brasões de solteiros e viúvos são reproduzidos sobre fundo inteiramente negro, ao passo que no caso dos casados, a metade ou parte sob as armas do viúvo ou da viúva, fica branca, daquele à destra, desta à sinistra. Como na Grã-Bretanha é costume o bispo partir as suas armas com as da diocese que governa, o mesmo se aplica: estas ficam sobre fundo branco, à destra. Ademais, na Escócia não é incomum circundar o brasão do finado com as armas de seus progenitores.

Hatchments de membros da família Carey. As armas dos Careys são de ouro com três leopardos de negro, alinhados em pala. Conservados na Holy Ghost Church, Crowcombe, Inglaterra (imagem disponível no site Exploring Building History).
Hatchments de membros da família Carey. As armas dos Careys são de ouro com três leopardos de negro, alinhados em pala. Conservados na Holy Ghost Church, Crowcombe, Inglaterra (imagem disponível no site Exploring Building History).

Comum a todas as tradições é o fato de o obiit ter sido sempre um uso do estamento nobre, cujos membros eram sepultados dentro de igrejas. Esse uso rareou cada vez mais após o fim do Antigo Regime e hoje está praticamente obsoleto, a não ser entre a nobreza belga. Fabricado primeiramente para as exéquias, depois do luto é pendurado na capela familiar e é nas paredes e colunas dos templos que os remanescentes têm-se preservado, ou em museus.

Notas:
(1) Entendam-se aqui Países Baixos e neerlandês em sentido amplo, como a região compreendida pela Holanda, Bélgica e Luxemburgo e o referente a ela.
(2) Hacher também quer dizer 'tracejar', daí que o método de representar os esmaltes por traços e pontos, inventado pelo padre Silvester de Petra Sancta em 1638, se denomine hachures ou, em português, hachuras.
(3) O que afirmo sobre a forma da placa é o que parece padrão em cada tradição, mas, na realidade, não é tão normativo. Observa-se que na Grã-Bretanha e na Bélgica a generalidade dos obiits é quadrada, mas na Holanda e na Alemanha se lhes deram outras formas segundo o gosto do momento. Mais que isso: sob o luteranismo germânico, que abrange a Letônia e a Estônia, e o sueco, que abrange a Finlândia, usou-se apenas o brasão, ricamente esculpido em madeira e policromo, como se pode ver no Germanische Nationalmuseum, em Nürnberg, ou nas catedrais de Riga ou de Kalmar.
(4) Exatamente como o escut caironat catalão, mas diferente de um losango, que tem, por definição, dois ângulos retos e dois obtusos. A lisonja é um losango, mas, por liberdade poética, pode assumir forma quadrada.

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